Num dos fliperamas da cidade Pedrinha pipa o craque e brinca de apertar botões e viajar em explosões AZUIS/VERMELHAS. No auge do GAME às três da tarde, duplamente alucinado num blend de craque e VIDEO-GAME, Pedrinha sequestra uma nave do fliperama e ganha os céus tenebrosos e cinzas do local.
Ao sair da loja, segue pela avenida principal e aí sim, começa a surpreender a todos com cenas de barbárie e violência urbana que jamais seriam esquecidas.
Logo na primeira esquina Pedrinha avista o reformatório que cuidou tão mal de sua educação moral e cívica. Não pensou duas vezes: EXPLOSÕES AZUIS/VERMELHAS.
Pedrinha segue seu caminho sem participar do trânsito que não flui e se recorda de tantas e tantas vezes que o vidro automático lhe subiu à cara enquanto tentava revender a preço exorbitantemente inflacionado as balas, chicletes e paçoquinhas “AMOR®” aos transeuntes motorizados. Mais EXPLOSÕES AZUIS/VERMELHAS.
O cinema do centro antigo, o prédio das finanças municipais, a Câmara dos Vereadores, o Paço Municipal, o prédio do Herbalife®... EXPLOSÕES AZUIS/VERMELHAS. Nem mesmo o novo shopping do R$ 1,99 escapou.
Pedrinha continua a apertar os botões e a viajar em EXPLOSÕES AZUIS/VERMELHAS enquanto uma japonesa do foto cubo esconde fitas de filme pornô nas mangas do seu quimono de seda; o bicheiro recolhe sua mesa dobrável enroscando-se em tantas correntes de ouro 18 quilates e tropeça ao descer da guia; o garoto com a cestinha na bicicleta da irmã pedala mais rápido no intento de salvar os pães de sal do café da tarde; o torcedor tricolor, agora sem chances de título, arranca a camisa do time e disfarça, tentando se esquivar de mais uma saraivada elétrica; policiais soltam as cochinhas nas padarias em chamas e apelam por reforços.
De repente Pedrinha se depara com um sinal de alerta. Está ficando sem combustível, então se dirige para a torre da Rede Globo, onde abastece sua nave e pode seguir apertando botões e viajando em EXPLOSÕES AZUIS/VERMELHAS.
Pedrinha aciona o seu detector de Rocans e avista dois camburões que passeiam tranquilamente há duas quadras do local da destruição. Subitamente os camburões são envolvidos por uma estranha massa alaranjada e flutuam no ar ganhando velocidade e um pouco de altitude. Segundos depois os camburões são arremessados metros dali ao encontro de mais um equipamento urbano sem utilidade e explodem maravilhosamente em chamas.
Ao chegar no nível máximo, na última fase do fliperama citadino, Pedrinha encontra seu mais temido adversário: O Àguia, helicóptero da polícia. A perseguição é alucinógena e também alucinante. Pela primeira vez Pedrinha se vê vulnerável a um ataque, e então num súbito momento sente uma forte pressão em sua nave. Alvejado segue, perdendo altitude. Ele luta para se manter no ar e tentar um pouso forçado. Com sorte conseguirá fugir a pé, se esconder pelos becos e ruas tortas da cidade. Talvez se entrincheirar em algum bar, mercadinho ou algo do tipo.
São quatro e trinta e três da mesma tarde.
Pedrinha sente uma forte dor no corpo que trava quase todos os seus músculos.
Ele não pode mais mover o manche da nave com proficiência e já está sem fichas pra continuar o jogo.
Um último apertar de botões.
EXPLOSÕES...
GAME OVERdose!















