quinta-feira, novembro 11, 2010

O Espaço da Alegoria

Em que pesem todas as alegorias do mundo, desde Platão, a obstinada representação da realidade foi o que nos deu régua e compasso para traçar os seus contornos e para que nos sentíssemos inclusos dentro dos seus limites, dentro dos limites do sentido, de seu significado, dentro de um mundo quem sabe inexistente; tão inexistente quanto as sereias de Ulisses e a caverna de Platão. Inexistente como o pragmatismo da poesia, como a objetividade da realidade, como uma ficção do cotidiano, que existirá dentro de nós sempre e pelos mesmos motivos de sua não existência.
Lembro-me do sonho de Aureliano Buendía em os Cem Anos de Solidão, em que ele levanta no meio da noite e via sua imagem refletida em dois espelhos nas paredes de seu quarto, um de frente para o outro, de maneira que um refletia o reflexo do outro numa perspectiva infinita, como se houvesse a imagem dele e de vários quartos projetados numa seqüência infinita um atrás do outro.
Nessa projeção de imagens dos infinitos quartos, Aureliano abria as portas e ia passando de um quarto para outro, até que em um deles Aureliano sempre se encontrava com um homem, o qual havia matado numa briga. Este era o sonho que ele tinha com a sua vitima.
Porém um dia, neste sonho, ao entrar em um desses infinitos quartos e após conversar com o homem que havia matado, ao sair, a porta não se abria e Aureliano ficou trancado, preso no mesmo quarto que sua vítima. Essa foi a maneira que Gabriel Garcia Márquez arrumou, sem dizer em nenhum momento a palavra morte, que Aureliano Buendía morreu dormindo.
Neste sentido também, lembrei-me dos cartógrafos de Borges:

“... Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa duma Província ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo esses Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.”

Ambos os textos em sua representação da realidade tentam reproduzir o imponderável e o infinito, questões patentes entre os dois autores. No segundo texto, Borges, tenta partindo de uma teoria de seus cartógrafos, reproduzir, ou melhor dizendo, representar em extensão, o fenômeno (espacial) em sua ocorrência. O que expõe a representação ao campo semântico das intempéries da natureza como prova de sua não concretixzação no real, deixando implícita a relação da representação dos fenômenos da natureza e a “natureza dos fenômenos de representação”, que tenciona criar uma outra realidade uma outra natureza em que possa existir.
A função das alegorias, ou da “natureza dos fenômenos de representação”, não é só a de ser uma imagem da coisa representada, mas também de recriar a realidade. A representação não é uma cópia mas sim uma criação do dado ordinário que pode beirar a inverossimilhança mas que existe.
Quando Borges escreveu tal texto, seria inverossímil afirmar que após a década de 70 existiriam equipamentos em órbita da terra que poderiam mapear o espaço ordinário da vida humana em sua totalidade e em tempo real, compreendendo todos os fenômenos naturais e de representação do espaço. As linguagens do sensoriamento remoto recriam constantemente realidades acerca do espaço geográfico, impedindo-nos de afirmar que haveria uma realidade em si. Mesmo que o dado e a objetividade científica, nos tentam convencer do contrário.
Outra questão ligada à representação é o da escala, que nas alegorias de Borges e Gabriel Garcia Márquez, é possível identificá-las. Toda vez em que aumentamos ou diminuímos uma escala também alteramos a percepção do espaço. Assim, por meio da escala, é possível também criar, acerca de um mesmo lugar, realidades diferentes, cujas possibilidades podem aumentar à medida que cruzamos linguagens distintas. Escalas que reduzem ou que aumentam muito, alteram e/ou suscitam outras interpretações. Mas o que importa mesmo nesses casos são as escalas que tendem ao infinito e a escala 0:1, a escala da imaginação. Esta, com dupla função: a de descrever o espaço da alegoria e a alegoria do espaço.
















domingo, outubro 31, 2010

Saudações. Aos que tem coragem

O Deus ELIMINE o PSDB deste País.

Que o nº 45, deixe de existir.

O Pai, dê sabedoria ao povo brasileiro, para reconhecer seus líderes.


Dê discernimento a essa mulher para criar um país mais equânime, onde a ética, a coerência e o respeito caminhem juntos.


Amém!

Parabéns Dilma Roussef - 1ª Presidenta do Brasil



quarta-feira, outubro 27, 2010

TRIBUTO a TIM MAIA

BANDA BLACK RIO

28 / 10
quinta


PRAÇA MARIO CESARE PORTO 20h 30m

(ao Lado do PIRATINIGA / JD SATÉLITE)


DEMORÔ!!!

quarta-feira, outubro 13, 2010

Política e religiosidade



“Num país como o nosso, ainda que queiram, o candidato que se assume ateu está atestando seu óbito político”.

A maneira como a ministra Dilma tem sido tratado por alguns setores da igreja católica e protestante em nosso país, lembra muito bem o comportamento errôneo que teve a igreja durante o período da ditadura militar, quando famílias saíram à rua com medo da implantação do chamado “comunismo” implantado nos países do leste europeu. Sabemos o alto preço que ela deve que pagar em função disso naquele período.
Agora, a bola da vez é a questão do aborto, sobre sua implantação em nível nacional para que mulheres não se matem em clínicas clandestinas espalhadas pelo país sem o mínimo de cuidado possível.
Ambos candidatos tem no fundo a mesma opinião, o problema que em determinado momento Dilma cometeu o erro, de colocar isso publicamente. É importante lembrar aqui que a chamada pílula do dia seguinte que a Igreja é contra foi implantada pelo senhor José Serra.
Mais deixemos por hora essa questão e vamos aprofundar no quesito aborto ligado a vida. Todos sabemos que a vida para os cristãos como está na encíclica social e ética se dá em todos períodos da vida, desde sua concepção até a velhice que, seguindo o curso normal da vida, precede a morte natural. Desta forma, quando parte da Igreja, eu digo parte, porque se pegarmos o site oficial da CNBB ela não assume uma postura anti-Dilma, até porque quem estudar a fundo a fundação do PT sabe que ele nasceu dentro das CEB´s católicas .
A vida deve ser vista em sua totalidade e não apenas no embrião presente no útero materno, pois quando deixamos crianças soltas na rua feitas bicho, na escola sem aprender direito (como acontece nas escolas paulistas), na cracolândia em pleno centro de São Paulo, nos hospitais onde idosos são desrespeitados passando meses esperando um especialista, e em tantas outras situações, também estamos abortando e isto deveria ser aprofundado nas discussões que a sociedade tem colocado.
É importante desta forma levantar questões positivas e negativas em ambos governo: PSDB e PT e fazermos comparações de índices relacionados principalmente as classes menos abastadas para sabermos realmente quem menos preocupa com vida e aí chegarmos à conclusão, isto é, a continuidade ou rompimento do atual governo.
Hemerson

domingo, setembro 26, 2010

Para ler um poema



Sentada no trono
Entre a dor e o alívio
O tempo certo para
Abrir o livro
um poema

O tempo certo
Para saborear as palavras
Leio e dou a descarga

Luciana Bertarelli

segunda-feira, setembro 20, 2010



A ORIGEM

A origem é um filme intrigante, protagonizado por Leonardo de Caprio (Dom Cobb) é um espião clandestino especialista em roubar segredos do subconsciente, enquanto dormem Cobb controla o seu sonho e então entra no sonho da sua vítima e a manipula, e por tal habilidade é procurado e perseguido pelo mundo da espionagem onde se encontra envolvido numa trama com produção típica de cinema americano, e para se safar, Cobb teria que cumprir um crime quase perfeito planejado junto a uma equipe de espiões. Ao invés de roubar pensamentos teria que implanta-los, mas somente Cobb era capaz de capitanear esse grupo através de sonhos compartilhados.

Apesar de ficção, o filme apresenta especulações no campo, psicanalítico e fenomenológico, Cobb possui fixação em entrar no sonho, pois tem um caso de amor com a sua mulher que até então havia se suicidado.
Ellen Page interpretada por Ariadne é parceira de Cobb e responsável por arquitetar os sonhos; em uma das cenas, submerso, e no controle do sonho partilhado, Cobb e Ariadne caminham pela cidade criando imagens surreais e percebem que as pessoas que ali transitam estão em simetria com os seus sonhos.

O roteiro apesar de complexo, envolve- te numa trama metafórica dos sonhos dentro de outro sonho, formando três estágios de sonhos, carregado de carga emocional, a dinâmica interativa da perseguição insere o espectador dentro do pesadelo. O longa do diretor, produtor e roteirista Cristhoper Nolan, deixa sua marca de cinema pós moderno, abordando de modo ensaístico, o perene em meio a hiper produção Hollywoodiana, e como se não bastasse, Nolan termina com um desfecho enigmático.

Fabiano Baldi

A ORIGEM

Título original: Inception

Duração:148 minutos (2 horas e 28 minutos)

Gênero: Ação / Ficção Científica

Direção: Christopher Nolan

Ano: 2010

País de origem: EUA / REINO UNIDO

domingo, setembro 19, 2010

Luciano e o Youtube

Encontrei nosso ilustre comuna Luciano Machado neste Sábado e ele, sem senha e sem memória, solicitou a inclusão desse vídeo aqui, uma vez que o comuna não menos ilustre Alexandre não atendeu ao pedido dele. Então ... soca a porva!
(clique no Título)

quinta-feira, setembro 16, 2010

Toy Store

Dizia o anfitrião, que era cara do bebê de Rosemary, temer pelas gafes em público. Mas ninguém, como eu, percebeu, já que divagavam na forma esguia e não se reparou no raro valor da ourivesaria
Só tinham mesmo olhos para ela, a manequim da franquia, Fissurada por olhares dos passantes em frente a vitrine, por balas, consumos compulsivos, pedras, álcool, caratê boliviano e cocaína.Tinha a face de talco, lívida, estática como uma plumagem congelada no seu coração de alvenaria.
Até que um dia saiu da butique e atravessou a avenida. Levou as crianças da seção de brinquedos para praia, abriu o guarda sol, o Cem Anos de Solidão e, pensou em fundear na baía para negociar com os armadores sonhos, eternidades e as crianças que trazia; as suas crianças da areia e a minha, as da água, do além mar, do vento, as crianças ultramarinas, as do amor, as do além dor, as crianças anestesiadas da tabacaria.
Que tomam alcalóides, sorvem barbitúricos e solfejam a alegria. Brincam ao abrigo do sol, com seus castelos, e refratam nos olhos de areia o calor e a luz da pira, refletida nas baixelas seu lume, o polido, opaco lustre da prataria, da loja de departamentos que jaz sem os seus dois manequins que romperam a paralisia.
Na hora do acontecimento, eu mesmo nem percebi, só me dei pelo ocorrido quando os vi, com seus corpos nus e estáticos na praia, em estágio avançado de decomposição pela maresia!
Dizem que o crime foi por motivo torpe. Por um consumidor que havia comido demais na praça de alimentação e ao chegar na loja, percebeu que o manequim, jamais serviria.


quinta-feira, setembro 02, 2010

Pós Leitura II

Com a evolução técnica dos suportes materiais do signo, o homem pode suscitar outros imaginários, mas não necessariamente em detrimento de outros!
Com a evolução técnica dos mídias eletrônicos, muitos se apressaram em vaticinar o fim de vários outros suportes que os prescendiam. Assim como, quando surgiu o cinema vaticinaram o fim do rádio, quando surgiu a televisão vaticinaram o fim do cinema e etc.. O rádio está mais vivo do nunca! Talvez por ele (o rádio) ser um meio de comunicação que McLuhan conceituou de quente, enquanto a TV de meio frio.
O livro digital, seguindo a lógica de McLuhan, é frio e o livro convencional é quente. Concordo com SM, não creio no fim do velho livro, a sua materialidade será o ponto chave nessa relação entre este dois suportes.
O livro digital, ou e-book, é bom por uma questão utilitária. É bom por exemplo para quem precisa ler uns 3, 4 ou5 livros de uma vez, pra quem está defendendo uma tese, uma pesquisa etc.. Não dá pra você andar pra cima e pra baixo com uma caralhada de livro debaixo do braço.
Tirando o utilitarismo da leitura, será a materialidade do livro convencional que contará! A técnica é portadora de significado, a própria técnica que estrutura o suporte sintático já é portadora de sentido, um sentido que prescede e é independente do conteúdo que este suporte pode veicular.
No caso do livro convencional a sua materialidade veicula um sentido que independe de seu conteúdo. É aí que, o que o Gurdura disse em seu comentário me fez total sentido! A história do Bruno Munari, que criava livros para crianças que ainda nem eram alfabetizadas, confeccionando só o objeto livro, em suas mais variadas formas, sem nenhum conteúdo escrito! Isso é a prova cabal que a própria materialidade do livro já é portadora de significado, independente do que nele esteja escrito! O material e a técnica com que Bruno Munari confeccionava seus livros já tenciona um sentido, que hora pode ser lúdico ou estético, mas sobretudo, um sentido específico, do imaginário que a técnica que constitui tal materialidade pode suscitar.
Mas que sacada desse Bruno Munari! Vejo também pelo meu filho, que se relaciona com esse objeto sem mesmo saber ler.
É, acho que McLuhan tinha mesmo razão, “O meio é a mensagem”.

terça-feira, agosto 31, 2010

Pós-leitura


Tenho gastado um pouco de energia sentado tomando cerveja e em um dos meus devaneios foi pensar porque temos uma crise no consumo da leitura, principalmente dos clássicos na escola. Se retomarmos o período da Idade Média veremos que eram poucas pessoas que tinham acesso à leitura e mesmo pessoas que conhecemos que narraram algumas coisas, o escriba era o meio para transmitir sua idéia. Assim, a escrita era para uma classe limitada. Com a reprodução das obras e não precisando mais dos manuscritos dos escribas o homem pode tomar contato maior com a leitura e sem dúvida com seu poder transformador e alienante, não que ela o seja, mais o que possa significar como meio a ser usado para alienação.
É sabido que o primeiro grande livro de reprodução em massa é a bíblia que traz melhorias quando criaram além dos capítulos , os versículos para que se permitissem que em qualquer edição poderia ser lido por qualquer pessoa. Veja que isso é traz em si uma inovação.
Tem-se uma coisa que as classes mais abastadas tinham e que a população em geral desejava com ardor era conhecer a leitura, pois ela desvendava (tirava o véu) de tudo aquilo que muitos falaram e realmente não estava escrito. Talvez esse era o grande medo do catolicismo medieval em relação da população tomar contato com a leitura.
Com a modernidade e a preocupação de ter um homem mais “culto” nos moldes da exigência da mão-de-obra a educação passa ser algo fundamental e as cidades, principalmente as maiores, vão permitindo que a população tome contato com a leitura e o conhecimento em geral.
O que ocorre é que há pessoas que estão muitos à frente e irão através do conhecimento acumulado criar novos meios de conhecer que irão além da leitura e serão muito mais atraentes do que ela: a imagem e a palavra acoplada a ela: o cinema. Mais saltarei do cinema para ir direto a televisão, essa sim será superará e trará um novo paradigma que remove do homem a busca que era seu maior sonho, a leitura, para receber o conhecimento enlatado para seu paladar de vontades de conhecer.
Quem foi criança um dia sabe do que estou falando. O imaginário da criança em vez de ter como personagem a figura do herói do livresco passa a tê-lo nos heróis dos desenhos americanos que tornaram nossas referências infantis.
Alguns falaram: “e o rádio?” Este também foi importante, inclusive substituiu o leitor da família que fazia as mulheres chorar, pelo locutor de voz poderosa, narrador de novelas e jogos futebolísticos, mas a tv, sem dúvida, mudou o paradigma de maneira mais poderosa.
Mais se alguns ainda mantinha o contato forte com o livro, virá a devastação com a Internet e sua maneira de tratar as noticias e informações e suas interações. Ela permitirá unir leitura, rádio, telefone, tv e o que há por vir.
Creio que a leitura como conhecemos através dos livros com cheiro de pó da estante está com seus dias contados e caberá em um Ipad principalmente para novas gerações. E as obras clássicas terão seu número de leitura reduzido a resumos e a números de pessoas restritas que o lerão por inteiro. O homem moderno é apressado a comer e consumir fast food até mesmo nas informações.
As pessoas continuaram a ler? Creio que sim, mais lerão o mundo de uma maneira mais ampla com imagens em 3D, com poesias narradas com flores passando por trás das imagens, com contos narrados por atores, com audiobooks em Ipod´s.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Lula ,Lula.....




O estado é um monstro frio e insensível que tem como caracteristica tratar o ser humano como número e quando destes nasce um que vem lhe tirar o sono o tratam com desdem pois afinal para que serve tal escória.
Poderam dizer-me : o garoto é pau mandado,mais e daí?


Hemerson

quarta-feira, agosto 18, 2010

A morte lhe pedirá passagem


Tenho vivido como se um câncer tivesse atingido minha alma. Não que o tenha, mas para que a partir disso pare de preocupar com coisas vãs. Recentemente um amigo disse-me que em plena manhã de uma segunda-feira que ficará por demais chateado, pois tinha lavado seu carro e uma chuva torrencial tirou-lhe o trabalho do dia. Passado alguns dias esta mesma pessoa saindo em urgência para atender a irmã da namorada entrou debaixo de um caminhão e ficou inválido. Recente ele esteve próximo a mim e me cumprimentou, neste meio tempo foi à mesa de outras pessoas e cumprimentou-me novamente ao retornar como se não o tivesse feito há poucos segundos. O menino está como criança sendo cuidado pelos pais e a chuva do final de semana não faz diferença alguma agora.
Uma das máximas da filosofia existencial de Heidegger, termo que ele não gostava muito, era que o homem é um ser para a morte. De todos os projetos que miramos para o nosso futuro a morte é aquela que pode anular todos desejos futuros. Este filósofo era ateu, entretanto na teologia cristã tal idéia é trazida também quando Cristo diz que o homem não deveria preocupar com o dia de amanhã porque dele não temos certeza alguma e desta forma acabamos por demais gastando uma energia desnecessária.
Ora, então não devemos ter projetos para o futuro? É certo que sim, mais com passos no presente e sem pretensões tão malucas como nos é cobrado por nós e pelo que os outros esperam de nós.
Recordo-me quando éramos crianças e parecia que os dias nos eram mais longos, pois aproveitávamos ao máximo esse tempo. Não preocupávamos com paredes riscadas, com mesas sujas, com o que íamos comer, vestir entre outras coisas. Bastava-nos o básico e alegria de viver o momento presente. Talvez daí nos vem o saudosismo infantil na vida adulta que gastamos o tempo presente preocupado com algo que ainda não nos pertence: o futuro.
Desta forma, tanto a idéia de Heidegger, bem como a idéia cristã de não podermos controlar o futuro só nos faz sentido realmente a valorização do presente que neste momento que vos falo e depois é também um passado que não retorna mais.
O que é a vida humana se não um constante devir, um movimento sem pressa, que nos leva ao nada, sem sentido, que somente nós podemos dar sentido a ele.

Hemerson

Galáxia de Gutenberg


Hoje, pela manhã, depois de um pão na chapa e um prensado do Gutenberg na cabeça, passei o olho no jornal, e li nas “Rápidas”, que uma empresa que opera trens de alta velocidade na Europa, a Eurostar, contabilizou a soma de mais de 1000 exemplares do livro de Dan Brown, O Código Da Vinci, deixados na estação de Londres no período de um ano.
Muitos, como eu, poderiam atribuir o fato a qualidade literária da obra. Marcelo Nova e Raul Seixas que tinham razão: “ o best seller do momento é um livro agourento”. E pensar que entre o século V a. c. até o século XV o “livro” era algo de acesso restrito, produto de escribas e copistas, praticamente uma obra de arte.
Em a Galáxia de Gutenberg, McLuhan disseca o salto qualitativo que o mundo ocidental deu com os tipos móveis e sua representação para a era moderna. Foi aí que começou a primeira produção em série, a primeira linha de montagem, uma linha de montagem da representação material do som, do fonema, através da letra impressa, que tirou o mundo da oralidade e o tornou muito mais visual.
A própria formação do Estado Nacional está ligada a experiência da língua na forma impressa, a palavra impressa possibilitou a uniformização de conceitos da modernidade como o de cidadão, de política, da educação que se orientou aos homens de letras e estes puderam levar a cabo um projeto político-nacional para construção do Estado Moderno.
Por mais que tenha havido a democratização do conteúdo escrito e a difusão do conhecimento a leitura não se emancipou na mesma proporção, o ato de ler, no senso comum, parece se redundar numa ação canhestra ou massificada. A evidência da conquista do conteúdo se traduziu na ausência da conquista de emancipação e autônima estética.
Não haveria escritores de Best Sellers e nem seus leitores sem a tipografia, a linha de montagem é quem deu a dimensão de escala para que fossem os mais vendidos e depois abandonados nos metrôs, ou esquecidos propositadamente em algum balcão de padaria.
As editoras européias não estão aceitando mais a devolução dos encalhes, elas pedem as livrarias que rasguem a capa e os catálogos e os enviem de volta, o resto do livro podem mandar para reciclagem, como se deletasse uma biblioteca inteira de um e-book. E, segundo renomados pesquisadores do Instituto Raul Seixas, o e-book é a anti-matéria da Galáxia de Gutenberg!

segunda-feira, agosto 16, 2010

Vamos celebrar nossa saudade...


Hoje já passei dos trinta

E de vez em quando me dá saudade da “Legião”

Do “Tempo Perdido” a “Perfeição”

Saudade da oitava série

Do colégio

Da turma, do violão

Prenhes de filosofia e amores vãos...

Saudade dela que nunca quis saber

Da poesia

Que eu escrevia

Na contracapa do coração

Na contramão do tempo

Que nos levou a juventude

Os amores

Os amigos

E que deixou saudade de tudo isso

Saudade da “Legião”...


"...Qual foi a semente
Que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito
O que está acontecendo
E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante..."

(Renato Russo / Eu era um lobisomem juvenil)

(Crédito / Imagem: legiaourbana.com.br)





areia da praia

cartas de baralho

blocos de pedra

empilhe e tens um castelo.













terça-feira, agosto 10, 2010

Hoje

Uma abelha ferrou minha cabeça. Mas talvez fosse uma vespa, não tenho certeza.

Esqueci meu cão no mercado.

Comprei meias femininas na Marisa. Na dúvida entre uma sapatilha meia e uma meia sapatilha, levei as duas.

Dei umas moedas para um sanfoneiro cego.

Fiquei devendo vinte centavos na banca de jornal.

Todos os ipês da cidade estão floridos; este, em frente a minha casa, não.

O escriturário não reconheceu a minha assinatura.

A impressora cuspiu uma folha impressa inútil, e morreu.

Pelas tantas, dirigindo na estrada, tive uma alucinação. Achando que estava em um local, dei-me conta que estava em outro completamente diferente. Por alguns minutos não sabia se estava indo ou voltando, se já havia ultrapassado meu destino. Isso me provocou terror e a nítida sensação que tinha atravessado um portal espaço-tempo, um "buraco de minhoca" e sido carregado para outro lugar num átimo, sem perceber nada. Assim como se acorda de repente em um local estranho, não sabia como tinha parado ali, mesmo sendo o condutor do veículo.

Hoje não foi um dia, foi um enigma.

sexta-feira, julho 16, 2010

Copa e Caos

Recentemente os erros de arbitragem cometidos na Copa do Mundo trouxeram a baila o uso de tecnologias no futebol, tecnologias já disponíveis de fácil acesso capazes de ampliar a percepção humana e aumentar a assertividade do julgamento de uma partida, que no estádio, por todos os motivos óbvios e pela própria condição humana do árbitro, torna-se impossível aferir com precisão a validade de determinadas jogadas. A própria FIFA é refratária ao uso de tais tecnologias muito provavelmente pelo temor de como essas tecnologias podem influenciar a nossa capacidade de decisão.
O fato é que a técnica altera decisivamente a percepção do espaço e do tempo, e por conseguinte suscita outros imaginários. A subjetividade e a imprevisibilidade não fazem parte da máquina, uma prerrogativa da mesma é a objetividade e a neutralidade, contrários ao que se tem na natureza. Aliás, o objeto tende a ser perfeito quanto mais “tecnicizado” for, criando uma simulacro da natureza, quanto maior o conteúdo técnico agregado mais a natureza estará perto da perfeição.
A objetividade e a neutralidade já foram postos a prova no início do século passado com a fenomenologia de Heiddeger e também pela física, que colocou em xeque os postulados da prática científica calcados na previsibilidade. Uma dessas acepções foi o Princípio da Incerteza, de Heisenberg (1927), que afirma ser impossível medir com precisão e simultaneamente a velocidade e a posição de uma partícula atômica. Coisas que o Capra sempre falou.
A imprevisibilidade faz parte do modelo caótico e probabilístico da ciência contemporânea, da teoria do caos, que se torna ainda maior com o aumento da complexidade do sistema. Signatários dessa idéia nas ciências humanas estão Gilles Deleuze e Félix Guattari que também compreendem a realidade de maneira cambiante, não unitária, imponderável e caótica.
Não existe apenas uma forma de se explicar a realidade e a natureza humana, a mecânica clássica de Newton não foi revogada pelas leis da mecânica quântica, um corpo ainda continua caindo com aceleração de 9,8m/s2 . Para o filósofo Karl Popper, enquanto não houver uma alternativa melhor disponível, os fatos discordantes à teoria vigente vão sendo ajustados por explicações adicionais, chamadas de hipóteses ad hoc.
Desse modo, é lícito afirmar que um árbitro eletrônico no lugar do homem em uma partida de futebol seria garantia de uma arbitragem imune de erros? As variáveis são muitas, existe uma infinidade de fatores que determinam um fenômeno e sua interpretação está diretamente ligada entre o observador e a coisa observada, nós somos o fenômeno que observamos. A Interpretação está ligada a percepção, que muito embora tenha sido amplificada pela tecnologia, não está fora do fenômeno observado.
De outro modo, sendo a arbitragem algo exato previsível, objetivo, neutro beirando a perfeição com seu alto conteúdo técnico agregado isto não “artificializaria” a expectação? Até mesmo dentro do campo e/ou estádio, uma vez que se pode ver no telão a exatidão do lance? Não haverá mais a “mão de deus” nos gols e nem poderíamos mais chamar o juiz de ladrão e filho da puta.


segunda-feira, julho 12, 2010

Ode ao Poetinha e aos meus amigos.

"que me desculpem as feias, mas beleza é fundamental."
vinicius de moraes
Escrever seja lá o que for, bem, com qualidade comprovada não é tarefa fácil, muito pelo contrário, tanto que se mal pesadas as medidas, o sujeito passa de poeta a esteta numa fração de segundos. Mas quando o indivíduo encontra o ponto certo entre uma especiaria e outra, entra quase que imediatamente para o hall dos grandes, dos mestres da letra e da palavra, que usam a pena como lança de São Jorge. Defendendo ideias em idas e vindas, com ferocidade e doçura.
Nesse mês de julho, um dos grandes poetas da humanidade faz trinta anos de morte. Dia fatídico aquele dia 09 de julho de 1980, que levou e calou a voz amalgamada composta por samba, macumba, jazz, poesia e bossa. Deixando órfãos milhares de filhos que amam o bom e velho cachorro engarrafado , nas suas várias formas, que apreciam as boas e belas companhias, que sentem acalento quando do abraço fraterno e honesto de um velho-novo amigo. Órfãos, quantos o são por aí, sentados às mesas de bares, nas rodas, falando alto disso e daquilo. Esse talvez seja um dos frutos deixados pelo Poetinha, filho de linhagem direta de Xangô, mas há outros também, frutos tão perenes e indeléveis quantos os mencionados. Sendo o maior deles o gosto pela vida e pela existência feminina.
Savará e obrigado, é o que deve ser dito em sua memória, agradecimentos à sua obra escrita entre tercetos e quartetos, repleta de rima rica, de musicalidade, de genialidade. Obrigado Poetinha, por mostrar que é possível escrever maravilhosamente bem, dentro do espaço reduzido, "amarrado" a estrutura e divisão poética silábica.
Vinicius de Moraes, Poetinha, diplomata da boa vida, das paixões fulminantes, obrigado pelo samba macumba, pelos ensinamentos que vão além da música e da poesia, que estão mais próximos a uma filosofia de vida, uma nova proposta estética do ser. A bênção e Saravá Poetinha!!!

quarta-feira, julho 07, 2010

Ecce Homo, Friedrich Nietzsche, 1888.

"Não sou nenhum bicho-papão, nenhum monstro moral -- sou até mesmo uma natureza oposta à espécie de homem que até agora se venerou como virtuosa. Cá entre nós, parece-me que justamente isso forma parte de meu orgulho. Sou um discípulo do filósofo Dionísio, preferiria antes ser um sátiro a ser um santo. Mas leia-se este escrito. Talvez eu o tenha conseguido, talvez não tenha ele outro sentido senão expressar essa oposição de maneira feliz e afável. A última coisa que eu prometeria seria "melhorar" a humanidade. Eu não construo novos ídolos; os velhos que aprendem o que significa ter pés de barro. Derrubar ídolos (minha palavra para ideais) -- isto sim é meu ofício. A realidade foi despojada de seu valor, seu sentido, sua veracidade, na medida em que se forjou um mundo ideal... O "mundo verdadeiro" e o "mundo aparente" -- leia-se: o mundo forjado e a realidade... A mentira do ideal foi até agora a maldição sobre a realidade, através dela a humanidade tornou-se mendaz e falsa até seus instintos mais básicos -- a ponto de adorar os valores inversos aos únicos que lhe garantiriam o florescimento, o futuro, o elevado direito ao futuro."
Friedrich Nietzche. Ecce Homo: como alguém se torna o que é. (São Paulo, Companhia das Letras, 2009, pp. 15-6).

terça-feira, junho 22, 2010

SARAVÁ SARAMAGO!

"Provavelmente está feito de suspiros o silêncio que precede o silêncio do mundo."

"Todos os dicionários juntos não contêm nem metade dos termos de que precisaríamos para nos entendermos uns aos outros"

terça-feira, junho 15, 2010

Quem é o inimigo, quem é você? Parte II: O fim da era Gutenberg.

No Brasil recentemente, muito se falou do retrocesso em termos de liberdade de imprensa. Na diminuição desta e suas maléficas consequências. Seguindo caminho parecido, alguns países têm adotado a cerceamento, a extinção não só da tal liberdade de imprensa, como também toda e qualquer amostra de livre expressão. Casos como do Irã, China são os mais visíveis, mesmo porque as ações destes governos, sejam tanto para bem, como para o mal sempre se transformam em análise geopolítica e coisas do tipo, virando subsídio nas mãos dos debatedores de plantão. Obedecendo o mesmo percurso, na américa do sul, a figura central nesta temática tem sido, ninguém mais, ninguém menos, do que ele, justamente, este que você está pensando. Hugo Cháves. Líder vitalício do Reinado Venezuelano, e da Revolução Bolivariana. Dito isto em razão deste ter fechado o último canal ou emissora de televisão livre do seu país. _ pobre país ter um líder deste.
Diante dessa onde de proibições, de cerceamento da liberdade de expressão e comunicação. O mundo pensa, ai que saudade da Bahia, não, dá américa, terra da liberdade. E para sua surpresa se depara com um processo parecido, mas sutil, belíssimo. Nesse sentido a crônica do filósofo Olavo de Carvalho, escrita no último dia 14/06/2010, vira um balde de água fria, nos corações mais democráticos. Texto este que revela outra maneira de ditadura, forma mais eficaz do ato autoritário. Em seu texto, Carvalho fala da criação do site StopBigMedia, financiado pelo famoso George Soros, que segundo o autor, site este que professa a destruição das grandes empresas de jornalismo, _ coisa boa ou ruim?, com a criação de uma super agência puro sangue estatal. Tal ação do governo americano, mostra algo mais interessante do que a simples exposição do poder nu. Deixando no ar o espectro do poder mais inteligente, maquiavélico, mais atuante e eficiente. O que representaria a mão invisível do mal.
A participação do governo Obama, numa nova agência desse porte, e com esse tipo de parceiro, expõe o caminho pelo qual as novas ditaduras democráticas agem ou vão agir. Revelando também o fato do feitiço ter virado contra o feiticeiro. Isso em razão de durante boa parte do século XX, governos e ações governa mentais, ficarem submetidos a lobistas, condicionados às grandes agências produtoras, criadoras de informação. No mundo toda a produção de informação esteve e está nas mãos de menos de uma dezena de grandes agências (francesas, americanas, italianas, inglesas). No presente momento parece que os governos, não mais querem negociar favores, querem aplicar a receita aprendida, e do jeito que bem entenderem, e contra quem entenderem merecedores. Logo, logo, chineses, venezuelanos, russos, _ se já não fazem isso, vão também adotar tais práticas, contribuindo ainda mais para a ignorância local e mundial. E esse negócio de ficar bloqueando site disso e daquilo, vai aos poucos se tornar história para ninar criancinha.
O século XXI mal se iniciou e promete acontecimentos à matrix, em 3, 4, 5, quem sabe quantos d´s, o que torna o palco principal uma grande rinha de galos, com esporas pontiagudas, prontas para fazer jorrar sangue. E aos poucos a figura do velho cidadão Keynes, vai dando lugar aos cidadãos, Qu-e-mmm?

segunda-feira, junho 14, 2010

1° pESsoa: Painel Psiquiátrico

... desde que enveredara pela seara intelectualista. O caminho da existência fora percorrido do instante inicial até o derradeiro. Em sentinela. Forma franca de encarar a vida fora a eleita. Tornando parte inerente do espírito em desabafo. Frente a realidade, sem meias palavras ou não me toques, assim a existência era tratada. A toda crise do/no existir. Com travas pronta para a tíbia alheia... copos e Copos de Nietzsche no desjejum. Fazendo-se forçoso para a batalha que iniciava-se com o nascer do sol. Destes muitos goles nasciam toda a esperança. Coisa que tornava o amanhecer menos denso. Menos gravitacional. No transcorrer das horas, dos dias, das rotinas. Doses cavalares de Sartre injetadas diretamente nas artérias, espécie de absinto para manter o órgão vital em pulsação. os edifícios assim foram construídos, com tal rejunte e argamassa. A fortaleza humana sendo arquitetada no devir, entre pedras e areias. Num disformismo dos traços. O inferno dos outros, ficando nos outros. Maneira estável de manter o banker intocado e inabalado. ... noites de discussões acaloradas, bebidas e otras cositas mas. Apanágio da existência.
... Ledo engano! A vida é um moinho! Disse Cartola, o divino. Engano que acabara por se transmutar em engodo. Constatado pela oxidação vagarosa da benfazeja zona de conforto. Corroída pelos dias. Iniciado tal processo não se sabia quando. Processo de ruinificação de estruturas que até pouco tempo. Pareciam inaruináveis. Todo um organismo revelando não imune, tornando ineficaz o método eleito. Manhãs nietzschenianas não mais eram suficientes, o alimento não mais bastara. não mais protegia. E aos poucos o alvorecer fizera-se opressor. o despertar do relógio. Bip. bip, bip... e toda imunologia era contaminada pela peçonha das horas, dos lares, dos lugares, dos convívios. Adeus misantropia!! adeus,a-de-ussss. Calcificação começara a tomar conta de todo vaso sanguineo. Endurecimento dos músculos. Aos poucos diminuíra o pulsar, o batimento. doses Atomísticas sartristas foram adotadas em desespero e sobrepujadas pelos demônios alheios, que sorrateiramente habitavam a morada do pai. Entregando-a de mão beijada ao padrasto. judas, juda - i - mis- mo. Tapa na cara. Ossos ficando descalcificados.
... conclusão derradeira: Sintomatologia: Decrepitude. Início: unhas dos pés alquebradas. em corrosão. dente amarelentos. Olhos opacos. Pele sem brilho. Cabeça baixa. Intelecto amorfo. Passivo, Desatento, desatino. Desalinho.
... painel da vida: pintura com retrato do Nava na parede da sala. Casa empoeirada. louças na pia. num canto qualquer uma poltrona. Sujeito, sujeira, esparramado. boca aberta. Ar denso, quase palpável. resquício da embriaguEz. televisão ligada. Sábado, Domingo. Dores de cabeça. A vida sendo um infinito feliz ano velho. à espera do apertar do gatilho. do chumbo final.

quarta-feira, junho 09, 2010

Quem é o inimigo, quem é você?


Equívocos, equívocos, equívocos! De equívocos são feitos nossos grandes males.
Há certo tempo atrás, havia sido postado um texto que tratava de certa maneira da ideia de Estado-Nação, sua ainda necessária existência e do seu revigoramento, diante do novo tempo que se apresenta. Na época, o referido texto, não pedia uma discussão aprofundada sobre o(s) método(s) de ação desses mesmos Estados-Nacionais, não havia uma análise acerca desta temática.
Diante desta necessidade, este "opúsculo", tenta modestamente pensar a prática política do Estado-Nação, que diga-se de passagem, nunca deixou de existir, mas que por artimanhas, escondia-se atrás da névoa, inebriante, denominada mercado.
Faz algum tempo, o governo do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad vem sendo alvo da força e pressão da chamada "comunidade" internacional, contrários a política deste país de enriquecimento de urânio, alegando fins beligerantes do país dos aiatolás, o que parecia até certo ponto, preocupação justa e acertada. Mas diante do fracasso dos esforços diplomáticos, não por causa dos iranianos, que isso fique claro, mas sim do eixo do mal, ocidental, a questão muda de figura, revelando a face autoritária dos Estados-Nacionais, envolvidos no debate. Nesse sentido a votação aberta pelo Conselho de Segurança do ONU, que tem como objetivo sanções contra, agora não só ao governo iraniano, mas contra o povo "persa", torna clara a necessidade de se pensar novas horizontalidades e novas verticalidades, no que diz respeito às decisões tomadas, a propalada Demo/Cracia que todo o mundo ocidental está submetido. Democracia esta, ridícula, sequestrada, de poucos, para poucos e contra muitos.
Os eventos dos três ou dois últimos anos, revelam a necessidade de se pensar o novo contexto geopolítico em que a população mundial está inserida. As nova relações e ações do governo russo, por exemplo, tanto no leste europeu, quanto no mundo, sua didatura parlamentar, as ações da China pós-maoísta, que tem em tubo de ensaio, um novo capitalismo, cujo êxito, baseia-se na amálgama da política de mercado, do autoritarismo político e na "escravidão" proletarizada, à inglesa ( no auge da 1° revolução industrial). Estes são apenas alguns aspectos da nova "des-ordem" mundial.
Diante do que foi exposto, com brevidade, cabe a todos que estão atentos, denunciar, seja de que maneira for, apontar, a face do mal contida no(s) Estados-Nacionais, no século XXI. Isso em virtude de considerar que desses equívocos, exposição da força e da truculência política, da ação dos podres poderes, nascerem os grandes males para a humanidade.
Como havia dito, parafraseado, no texto anteriormente postado e esquecido, o século XXI, é e será um século com bestas há muito conhecidas.

terça-feira, junho 08, 2010

Ninguém morre de véspera, mas...

Caros amigos leitores e colunistas deste blog,

Nos encontramos às vésperas de mais um grande evento global para o esporte que mais amamos, cujos fundamentos já vêm impregnados em nosso dna, o futebol.
Criado por ingleses, o futebol chegou ao Brasil por intermédio de Charles Miller e desde então faz parte de nossa vida, a ponto de nos tornarmos potência mundial vencedora de cinco edições de copas do mundo até hoje.
Daí é que quando chega época de mundial, sempre questionamos a qualidade do elenco atual escolhido pelo treinador do momento, neste caso, Dunga.
Dunga já teve nome de era (fracasso na copa de 90), já foi símbolo de raça (tetra de 94) e agora treina nossos canarinhos em busca de mais uma glória para eternizá-los em nossos álbuns de figurinhas.
Bem, é claro que estaremos lá na hora, local e razão para torcermos pela seleção. Sim, com uma cervejinha vai bem, com os amigos melhor ainda (um dos meus tem HDTV em casa, vamos todos para lá e o convidamos também...)
Onde eu quero chegar é que nosso pequeno notável comandante não levou Adriano nem Ronaldinho Gaúcho para a África do Sul, o que para mim foi um erro. Adriano mesmo em má fase tem experiência em copas, ele optou por Grafite que jogou, sei lá 20 minutos em toda a preparação até agora. Para Ronaldinho ele escolheu Júlio Baptista como reserva de Kaká, será que vai dar certo? Tenho minhas dúvidas.
Já a defesa é sólida com Lúcio, Juan, Maicon... o que muito se comparou com 94, com o pragmatismo de Parreira; mas e para os volantes Mauro Silva e o próprio Dunga, temos jogadores parecidos no meio de contenção?
Em 94 tínhamos Bebeto e Romário, e o segundo voltava ao meio do campo para buscar a bola e partir em direção ao gol, carregando o time nas costas. Que saudade do baixinho!
Hoje, temos Kaká (que não fez nada em 2006) ainda lesionado para a criação, Robinho que tentou recuperar seu futebol no Santos, mas foi ofuscado pelo brilhantismo de Neymar e Ganso, e Luís Fabiano, este sim ainda em grande fase, mas também vindo de lesão.
Sei não, podem me xingar, mas acho que esta copa será dos hermanos: Messi, Higuain, Milito, Tevez, DiMaria, etc.
Acho que dá Argentina.

A Cidade Sem Serifa

Acesso a Zona Sul – Pista 3, saída para Dutra, proibido estacionar... A convenção é o instrumento mais usado (pra não dizer fundamental) na orientação do homem, quando não são convencionados por símbolos e signos são escritos de maneira mais clara e objetiva possível, e essa objetividade não está só no seu conteúdo mas também na própria fonte em que se apresenta a letra.
Toda convenção pressupõe certa racionalização, e as fontes utilizadas pelas letras para dar este tipo de informação dentro da cidade, destinada para quem está em trânsito, são totalmente desprovidas de detalhes, de desenhos mais rebuscados, de serifa. De maneira que num golpe de vista pode-se saber o significado da palavra, não se chega a ler toda a palavra letra por letra, na verdade, pela forma da palavra já se infere o seu significado. As palavras têm formas, e suas formas já são conteúdo. Com o perdão da digressão, isso é um pouco poesia concreta, os concretistas decompunham e colavam palavras inferindo em outros sentidos pela sua forma e sonoridade.
Esses textos esquemáticos permeiam a cidade, e São José se utiliza deles. Voltando da casa de um amigo na noite de ontem vim dialogando com eles (os textos), criando um discurso surdo que é destinado a cada pessoa em particular, sem precisar parar, sair do carro, somente como passante. Textos autoexplicativos, como se estivesse numa máquina de autoatendimento bancário, que ao inserir um cartão se obtém uma série de perguntas e respostas objetivas: saque, consulta, pagamentos etc.. A cidade é uma máquina e o diálogo com ela é objetivo, inclusive o espaço urbano é fruto de uma excessiva objetivação, que se transfere pro discurso urbano até se chegar a sua raiz sintática, ao ponto de racionalizar o próprio signo no afã de aumentar a eficiência da comunicação, do diálogo entre o passante e a passagem.
A construção do discurso urbano segue o mesmo critérios de eficiência, supondo uma uniformidade. E o que torna a uniformidade uma suposição é a cacofonia, a polissemia dos que vivem a cidade sem serifa. Chega-se a escutar um ruído de fundo, um interdiscurso; mesmo na noite fria de ontem, quando já não havia mais viva alma nas ruas.

terça-feira, maio 25, 2010

Há outras moradas na casa de meu Pai

Muito se diz das cidades globais, criadas e alimentadas a partir da racionalidade técnica nas construções dos espaços, que acabam pasteurizando lugares e culturas.
O que dizer de espaços que de alguma forma ainda carregam certas rugosidades, como se fosse fruto de camadas geológicas.
Num primeiro momento parece até o sobrenatural exercendo sua função. Mas o que dizer da sensação de quando entramos nas grutas ou minas de extração de Ouro em Mariana – MG, ou mesmo de estar diante das pirâmides da antiga capital Maia.
Será que todas as cidades seguirão um padrão na construção dos espaços dentro dessa ordem Global?
O desenvolvimento de uma cidade histórica não obedece necessariamente o desenvolvimento de uma cidade global.
Isso parece óbvio!
Não imagino no lugar da Igreja da 3ª Ordem de Salvador, um edifício à la Empire States.
Há um tempo-espaço global que não consegue se inserir no tempo de algumas cidades que ainda carregam um tempo local. Não que esses espaços-tempos não sofram intervenções externas, mas suas mudanças não precisam de uma quantidade elevada de instrumentos e técnicas, o que faz com que esses espaços-tempos, mude muito lentamente, quase imperceptíveis, e que para muitos esse tempo, significa o estancamento, o atrasado, o tempo irreal.

sexta-feira, maio 21, 2010

Vade Mecum


Faço idéia daqueles que por algum motivo se lançam na pesquisa de alguma fonte primária em arquivos públicos. Arquivo público do Estado ou mesmo daqui do Município, que diga-se de passagem, é um lugar interessante de se visitar, como o fiz após o almoço de hoje.
Quem assim o puder fazer, terá contato com uma série de publicações do início do século passado, documentos, atas, leis, até anúncios de revistas e jornais. Tive a oportunidade de ver anúncios de revistas, de “campanhas publicitárias” da chegada da energia elétrica em São José. Pelos anúncios dava pra se ver o imaginário que a eletrificação da cidade suscitava, o ideal de desenvolvimento, a emancipação, o fim das trevas, o aumento das condições de salubridade. Acho que deva ter sido a partir daí (não sou historiador), que a cidade passou a ter visibilidade da para mundo moderno, para os anseios da modernidade.
Incrível saber que existe um espaço físico onde ficam guardados registros materiais de nossa história e cultura, onde se tenta conservar esses documentos pelo maior período de tempo possível, como se pudessem ser eternos e infinitos. Qualidades que remetem a um universo que me persegue, o da Biblioteca de Babel, de Borges.
Se o Comuna Piraquara fosse publicado em algum periódico impresso na época, com certeza estaria disponível alguns exemplares no arquivo público para consulta. Hoje poderíamos saber como um grupo de pessoas há cem anos interpretavam o seu mundo, poderíamos dissecar o imaginário inerente a sua época, assim como o da eletrificação, os seus signos, suas trocas simbólicas. Seria fonte primária de pesquisa, manancial documental em que historiadores poderiam se debruçar e interpretar o nosso momento histórico.
Mas daqui a cem anos que “escafandrista” explorará estes escritos, os nossos de hoje? Em que prateleira ostentará o Comuna, este Vade Mecum de nossa pós-modernidade joseense? Existirá algum espaço que abrigará o que escrevemos aqui?
Sim, existirá! Daqui a cem anos estes escritos estarão todos na Biblioteca de Babel, onde se encontra todos os livros do mundo, de todas as línguas, inclusive das extintas e daquelas que ainda surgirão, toda alegoria, toda criptografia de documentos secretos ou de pensamentos insondáveis, onde estão todas as histórias, todos documentos, todos os sons, todas as imagens, e quem sabe..o nosso imaginário e nossa época.

sexta-feira, maio 14, 2010

Nós da Urbe


Sempre que passo pela cidade de Campinas dá vontade de pedir pro ônibus parar só pra observar mais de perto o viaduto acima. Trata-se de um viaduto anti-indigente, de uma arquitetura voltada à expulsão dos indesejáveis com pedras pontiagudas sob suas cabeceiras, achei isso incrível. Acho que todo mundo que sai de Campinas via ônibus inter-urbano deve ter visto, fica no trajeto de saída da cidade, perto de um McDonald´s lindo e imponente!
É poder publico exercendo sua ação no espaço urbano. É importante a racionalidade técnica no planejamento urbano, o planejamento das cidades pode ser entendido como um sinal de desenvolvimento e progresso, pois carrega as idéias de valorização do ambiente público, preocupação com o bem-estar humano, respeito ambiental e integração de espaços e habitantes. A ênfase dessa racionalidade técnica no urbanismo dotou-o de método e o transformou em ciência da cidade. Ciência, progresso e desenvolvimento tudo coisa boa e inquestionável.
Nossas grandes e médias cidades se ergueram assim, com alto conteúdo técnico e cientifico, obviamente umas muito mais que outras. No caso de São José, nota-se que a instalação de centros de comandos dos grandes grupos transnacionais nessa cidade, de modo que esses grupos aí instalados passaram a exercer o controle das suas plantas industriais, produção e comerciais.
Temos um setor secundário voltado a exportação e um setor terciário altamente especializados, o que confere um alto valor técnico agregado ao territótio. O que torna SJC uma cidade global, e ela o é não só pelos fatos acima mencionados, mas por um motivo particular importante:
O fato de SJC ter se tornado uma cidade global está ligado ao fato de a racionalidade técnica que formaliza a arquitetura do espaço urbano segue os mesmo critérios de eficiência e comando do capital global. A cidade é a racionalidade do capital global espacializada, o espaço urbano é a representação da eficiência, comando e controle do que se convencionou chamar de globalização.
As cidades se parecem cada vez mais entre si, como já ocorre com os espaços padronizados das cadeias dos grandes hotéis internacionais ou, ainda, dos aeroportos, das redes de fast food, dos shopping centers, dos parques temáticos, dos condomínios fechados e demais espaços privatizados. As intervenções contemporâneas sobre os territórios ditos históricos ou culturais também obedecem a este ritmo de produção, o que cria uma superabundância mundial de cenários e simulacros para turistas.
Também ocorre hoje um tipo de mimetismo às avessas nos espaços públicos: não é raro encontrarmos recentes projetos ditos de “revitalização” desses espaços, como praças públicas por exemplo, que imitam as ditas “praças” dos shoppings (em particular, os materiais usados, a paginação do piso e o cercamento), exatamente o contrário do ocorrido nas galerias e primeiros centros comerciais que mimetizavam os espaços públicos urbanos, as suas ruas e praças tradicionais. Hoje, paradoxalmente, a referência de espaço público dito “de qualidade” passa a ser um espaço privado, na maior parte das vezes, um espaço interno, cercado e com segurança privada.
Para que tudo isso ocorra existe uma excessiva racionalização do espaço, por tanto um controle total, não só no que tange ao policiamento mas sobre tudo, controle do espaço, controle de temperatura, luz, volume que criam verdadeiros simulacros, uma disneylandização da urbe! E o que esta fora dessa Disneylândia também sofre ação dessa urbanização, é o caso da arquitetura anti-indigentes.
Não há indigentes na Disney.

quinta-feira, maio 13, 2010

Fio de Ariadne e o Ego


Dificil é não matar o presente com você distante.



Procurar extrair perfume, de uma flor ausente.



Enxergar belezas num mundo incompleto.



A nossa distância, é a única certeza que um dia terei você ao meu lado.



E se porventura, sua futura presença acabar com o meu desejo de tê-la.



Perdoe-me.



Mas fique longe!




terça-feira, maio 11, 2010

A Doutrina das Cores de Goethe


Estudo para Doutrina das Cores de Johan Wolfgang Von Goethe.
Para quem depois de anos de experiência com lentes e prismas, a luz e a cor não são só um fenômeno físico newtoniano, mas também de experiência, percepção e poesia.

quinta-feira, maio 06, 2010

Cosmos Alvinegro

Não. Nós não somos heróis. Não somos guerreiros sem medo do deus Imponderável. Somos o espírito dos operários que iluminaram nossos corações a luz de lampião e brindaram-nos com nossa existência, entre tudo e nada, em branco e preto.

Somos aqueles que perambulavam pelas ruas sentindo falta de não sabemos o quê. Sabíamos apenas do vazio que existia em nossos corações, que havia sido transmitido por todos os nossos antepassados antes do grande dia, dia da glória, da revelação. Dia 1º de setembro de 1910.
Num relance nossos pulmões souberam diferenciar o ar da aura alvinegra. Ela sempre esteve presente, em todos os cantos, em todos os lugares, mas foi preciso evocar um nome para que nossos corpos se permitissem a tal sensação de amor. Algo muito além do que essas poucas palavras podem explicar aos que não foram escolhidos pela mística, mas de muito fácil entendimento ao nosso cosmos particular: Corinthians, senhores!

Somos um povo sofrido? Somos sim. Mas isso não faz de nós menores, pelo contrário. Somos altivos por entendermos que nem só de glórias vive o homem. É nossa obrigação – prazerosa – transmitirmos aos nossos que formamos nosso caráter é nas derrotas. São elas que nos forjam. E caímos com garra no olhar e com o sangue correndo quente em nossas veias.
É com esse entendimento da vida que construímos uma das mais lindas histórias, que rompemos a ordem da paixão por recompensa. Somos fiéis. Perdemos juntos, e tocamos o céu juntos nas conquistas. Assim, não associamos nosso amor às vitórias, seria diminuir o que somos.
Salve, Corinthians!

Sebastião Maia

terça-feira, maio 04, 2010

A Heterotopia

"Acredito que entre as utopias e estes posicionamentos absolutamente outros, as heterotopias, haveria, sem dúvida, uma espécie de experiência mista, mediana, que seria o espelho. O espelho, afinal, é uma utopia, pois é um lugar sem lugar. No espelho, eu me vejo lá onde não estou, em um espaço irreal que se abre virtualmente atrás da superfície, eu estou lá longe, lá onde não estou, uma espécie de sombra que me dá a mim mesmo minha própria visibilidade, que me permite me olhar lá onde estou ausente: utopia do espelho. Mas é igualmente uma heterotopia, na medida em que o espelho existe realmente, e que tem, no lugar que ocupo, uma espécie de efeito retroativo; é a partir do espelho que me descubro ausente no lugar em que estou porque eu me vejo lá longe. A partir desse olhar que de qualquer forma se dirige para mim, do fundo desse espaço virtual que está do outro lado do espelho, eu retorno a mim mesmo e a me constituir ali onde estou; o espelho funciona como uma heterotopia no sentido que ele torna esse lugar que ocupo, no momento em que me olho no espelho, ao mesmo tempo absolutamente real, em relação com todo o espaço que o envolve, e absolutamente irreal, já que ela é obrigada, para ser percebida, a passar por aquele ponto virtual que está lá longe."

FOUCAULT, Michel. "Outros espaços", in: Ditos e escritos III - Estética: Literatura e pintura, música e cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003, p. 415.

segunda-feira, maio 03, 2010

“Dispositivos da Arte Moderna e Contemporânea”

A Oficina Cultural Altino Bondesan informa que ainda estão abertas as inscrições para o Workshop Aprofundamento em Arte “Dispositivos da Arte Moderna e Contemporânea”.
Os interessados devem fazer sua inscrição pelo telefone (12) 3923-4860 ou irem pessoalmente à sede da oficina cultural.

Artes Plásticas

Workshop Aprofundamento em Arte “Dispositivos da Arte Moderna e Contemporânea”
8/5 - sábado - 9h às 12h e 13h às 18h
Público: com conhecimento intermediário
Faixa Etária: adultos
Seleção: carta de Interesse
Inscrições: 5/4 a 30/4
Vagas: 30
Local: Câmara Municipal de São José dos CamposRua Desembargador Francisco Murilo Pinto, 33 - Vila Sta. Luzia

Este workshop trata dos elementos caracterizadores do universo artístico de nossa atualidade. Burila a construção do objeto da arte por meio da análise do discurso e demais elementos constituintes do sistema no qual se apresentam o artista e seu trabalho nos últimos séculos XX e XXI.

Sylvia Furegatti é docente do Depto. de Artes Visuais do Instituto de Artes da Unicamp. Artista visual que trabalha com projetos de intervenções artísticas, instalações e objetos.

Oficina Cultural Altino Bondesan
ASSAOC - Associação Amigos das Oficinas Culturais do Estado de São Paulo
Avenida Olivo Gomes, 100 Santana
São José dos Campos/SP
Tel: (12) 3923 4860
http://www.oficinasculturais.org.br/

sexta-feira, abril 30, 2010

O Colegiado dos Cegos


Quando ele se sentou, e abriu o livro para leitura, viu todos estatelados com seus óculos escuros, distintos senhores portando suas bengalas. Todos ávidos pela audição, o colegiado de literatos cegos já havia se postado com sua diligencia e atenção, todos não necessariamente em direção ao leitor, mas cada qual tinha seu rosto voltado para um lugar inexistentente, não para o nada, talvez pra dentro de si, de sua infância, de sua saudade, uns com a cabeça arcada para cima, outros virados para parede.
O silencio para a leitura não foi o que mais intimidou o leitor, pois sabia que sua obra não estava sendo posta a prova do som, mas da escuridão. Já que a história se tratava de uma aventura dos tempos afortunados em que os caminhos eram mapeados pelos meridianos celestes, inscritos em noites de céu estrelado, que tem o rumo traçado pelas estrelas na escuridão em alto mar. Para o colégio de cegos tudo era familiar e distante, já que seria aventuroso demais ter ao menos a luz das estrelas para se guiar dentro da história contada.
A história dava conta de um mundo vasto para a navegação, talvez seja por isso que o colegiado precisasse do universo para orientação dessa aventura, e uma geodésia imaginária para saber em que parte do globo terrestre, a personagem numa noite quente, deitado no convés de um veleiro de três mastros observando a constelação de Òrion, esperava chegar a Bornéu, sempre ao oriente da noite.
A vastidão do oriente e da noite era a mesma de dentro da casa de cada um dos colegiados, já que não paravam de olhar pra dentro de si durante toda história, o fogo que ardia em cada um era o mesmo a arder até hoje nas estrelas que guiou as histórias das descobertas e aventuras de nosso mundo visível.
E a aventura continuava por paisagens inauditas! Ilhas paradisíacas, peixes e outros seres do mar. O colegiado de cegos estava absorto na trama em que a personagem viajando, sempre buscava outros lugares, outras paisagens. Para nosso mundo visível a paisagem é sempre objetiva, a paisagem é onde nós não estamos, já que para se vê-la temos que nos distanciar, ela sempre está a frente..Já pra os cegos a paisagem é onde ele está, ele é a paisagem.
A Utopia da busca da luz, a certeza da orientação, a mudança de lugar em sua função e a excessiva objetivação da paisagem na história contada, também era uma forma de desterro e de negação do lugar, como o próprio termo utopia designa. Porém desta objetividade e desterro o colégio de cegos jamais sofrerá.
Já ao final da audição o silencio sepulcral ainda pairava na sala dos cegos literatos, quando um deles, com o apoio de sua bengala se aproximou do leitor portando um livro de cabeça para baixo pedindo caridosamente um autógrafo invisível e outra história.

terça-feira, abril 20, 2010

Ponto Geográfico

Por calendários perturbados da educação, ano passado fiquei no ócio, já no fim. Fui procurar o que fazer. A escola tinha que ir até um determinado endereço para coisas de escola das quais não entendo. O secretário iria ao tal lugar, fui junto, alias, fui com meu carro mesmo, um mil.
Tarefa de escola urbana é diferente que em escola rural. Logo umas oito da manhã, saímos. Dia bonito, paisagem perfeita, bucólico. Passamos por casa de jornalista de fofoca, médico famoso, assombrada. Estrada do Guaxindiba, saída por detrás do cemitério. Paramos no caminho para perguntar se estávamos certos (longa estrada), estávamos, seguimos.
Chegando lá, tinha uma baita descida depois de uma porteira tão falada branca. Olhei, analisei, perguntei para o secretário e fui. Fui, fui. Parei, ele fez o serviço dele e não voltei. Fiquei no meio da descida, agora subida.
O secretário não sabe dirigir, por isso fui junto, ele presisava de um motorista, mas um oficial, que soubesse pegar o barranco. Eu fiquei! Inconformada, longe de socorro, sem sinal no celular, tentei, coloquei tapete, desci e subi denovo, repetidamente, sem atropelar na ré o secretário que tentava empurrar e o carro mil teimava a voltar, e tentei, acelerei, o carro sambou, pneu patinou e eu subi.
Suando, rindo, subi, cheguei na estrada normal de terra. Veja bem, na noite anterior havia chovido pouco, mas forte. A sub estrada de terra, ficou molhada. Mas até aí, só mais um estrada de terra.
Dois dias depois, o secretário tinha que voltar na vizinha daquela casa que tínhamos ido. Um outro professor, instigado pela minha pseudo aventura, foi. Carro lotado, dois professores curiosos, o secretário e eu. Chegamos, descemos, fomos longe, mais do que da outra vez e ... subimos, travamos de leve, mas subimos.
Bom, vai ver que eu sou ruim de volante....
Morando aqui, ando conhecendo muita gente boa, inclusive de prosa: Messias, o faz tudo daqui de casa, é um. Vamos conversar que eu moro numa comunidade  com mais três humanos, seis cahorros, três gatos, nove cagados, uma criação de lesmas e caramujos (com estufa para ovos e tudo), muitas galinhas e uma pá de visitante. Para manter em ordem, Shirley e Messias. E o Messias mora para os lado da tal estrada, depois da porteira, que tem uma descida, que depois vira subida que eu fiquei.
Café da tarde no Emílio, estava lá também o Zé, outro personagem que terá um post só pra ele. Papo solto, todos contando histórias, o Messias começa contar de uma tal descida/subida. Ele mesmo, nascido e criado na tal estrada, já tinha caído, esgorregado, com moto no barranco, a moto continuou na mão dele, ruim foi o chão deixou a roda e foi para as costas.
No batizado do neto do Emílio, mês passado, uma pajero não subiu nem a paú, precisou de quatro homens feitos pra tirar o carro de lá. E narrou mais umas histórias que eu mal escutei porque ria muito. Já sabia que era minha subida, confirmei com descrições da porteira, para direita sobe muito é o cemitério, para esquerda é a estrada que ...enfim, contei da minha aventura. O Messias elogiou. Emílio nem estava prestando atenção, concentrado na ópera que estava rolado de som de fundo, e o Zé disse que devia estar seco, ruim mesmo foi quando ele passou com o chão molhado de fusca turbinado, travou de leve, mas subiu.
Assim descobri como só um simples lugar que eu fui tem tantas histórias por trás, deixou assim de ser um mero ponto geográfico e se tornou parte da história de um monte de gente. Se o ponto fosse gente, ia se sentir importante.

domingo, abril 11, 2010

quarta-feira, abril 07, 2010

Sobre a Vida, e Sua Brevidade

"1. Pode haver alguma coisa mais tola, me diga, que a maneira de viver desses homens que deixam a prudência de lado? Vivem ocupados para poder viver melhor: acumulam a vida, dissipando-a. Fazem seus projetos para longo tempo, porém esse adiamento é prejudicial para a vida, já que nos tira o dia-a-dia, rouba o presente comprometendo o futuro. A expectativa é o maior impedimento para viver: leva-nos para o amanhã e faz com que se perca o presente. Daquilo que depende do destino, abres mão; do que depende de ti, deixas fugir. Para onde te voltas, para o que te dedicas? Todas as coisas que virão jazem na incerteza: vive daqui para diante.
2. Eis que o maior profeta [Virgílio], como que instigado por uma boca divina, para saudar-te canta os versos: 'O melhor da vida é o que foge primeiro aos miseráveis mortais'. 'Por que te demoras', ele pergunta, 'por que tardas?' Se não tomas a iniciativa, o dia foge e, mesmo que o tenhas ocupado, ele fugirá. Assim, é preciso combater a celeridade do tempo usando a velocidade, tal como de uma rápida corrente, que não fluirá para sempre, se deve beber depressa.
3. O poeta, que esplendidamente censura tua cogitação infinita, não fala de melhor idade, mas melhor dia. Estendes, com a tua avidez, aquilo que parece lento e seguro do tempo, mas que te foge de tal maneira em uma longa série de anos e meses? Ele te fala de um dia, deste próprio dia que foge.
4. Portanto, não há dúvida que o melhor dia é o primeiro que foge aos miseráveis mortais, isto é, aos ocupados. A velhice aflige tanto os seus espíritos infantis, que chegam a ela despreparados e desarmados. Na verdade, nada foi previsto: subitamente e sem estarem prontos chegam a ela, não percebendo que ficava mais próxima todos os dias.
5. Do mesmo modo que uma conversa, uma leitura ou qualquer reflexão maior desvia a atenção do viajante, que, de repente, se vê chegando ao seu destino sem perceber que dele se aproximava, assim é o caminho da vida, incessante e muito rápido, que, dormindo ou acordados, fazemos com um imenso passo e que, aos ocupados, não é evidente, exceto quando chegam ao fim".

Sêneca (4 a.C.? - 65 d.C.). Sobre a brevidade da vida, Porto Alegre, L&PM, 2006, pp. 46-48.

sábado, abril 03, 2010

Delícia



E a gastronomia? Já comi muita comida boa em casa, por aí. Porém nunca pensei em escrever sobre o assunto. Mas cada vez ando comendo mais coisas maravilhosas, saudáveis e cheia de histórias. E... hoje, feriado santo, almocei um prato que merece meu esforço, porém não sei se ficará a altura do prato.
Dia chuvoso aqui, comemos risoto: um de palmito, brócolis, acompanhado de hamburguer de picanha, outro de shitake e mozzarella di bufala (e muita pimenta moída) e um de bacalhau. Temperos muitos, não sei quais, mas estavão todos no jardim do restaurante, onde meus cachorros certamente marcaram território.
Para abrir o apetite, licor limoncello e água com gás.
O gosto de comer um dos meus pratos prediletos tão bem feito é indescritível. As fotos tiradas em uma ânsia de traduzir em visual o que senti pelo olfato e paladar não conseguem traduzir o prazer. Comi devagar, apreciei mesmo. Depois, com a chuva dando trégua, sentamos do lado de fora debaixo de uma cobertura hipérbole parabólica, que antes de saber tal conceito arquitetónico achei que estava apenas torto, e a sobremesa veio: torta de banana com sorvete, polvilhada com açucar e canela. Dessa nem foto tirei porque estava num momento muito mais importante.
Muito papo furado, risadas, conversas amenas, daquelas que se encaixam no momento de deixar o dia ir embora sem pressa, sem ganância, só deixar ir, até conseguir levantar, chegar em casa e tomar o café do Emílio.
O chef ficou tímido com o meu pedido de indicar o lugar e contato, então eu, longe do mar, agora tenho meu secret point. Talvez quem venha aqui visitar conheça, se o segredo permanecer. Aqui esta bom como esta. Melhor só se todo dia fosse assim. Mas durante a semana tem arroz integral, feijão, bolinhos, saladas...

Para escutar comendo com os olhos ou comendo o risoto: Beastie Boys, The Mix Up; The Clash, From Here to Eternity; Bad Religion, The Gray Race; Cat Power, Jukebox.