sábado, novembro 27, 2010

Sem Contexto


Parei. Parei não, tô descansando. Parar nunca. Só na vala. Daqui da minha cama, depois da janela, um monte de fio, rabiola, tênis velho. Lá fora o mundo gira à milhão. Aqui dentro tudo tranqüilo. Fumar. Cigarro bom, de marca. Ele e a macaca do meu lado.

Quando era criança nem imaginava isso tudo. Lembro da minha mãe, domeu pai, dos meus tios. Lembro de casa. Que é bem pertinho daqui.Vontade do churrasco do tio Isaias. Das piadas do padrinho. Os horários eram diferentes lá em casa. Minha mãe trabalhava no asfalto, no comercio. Meu pai motorista de ônibus. Lembro dele de óculos escuros, sapatos brilhantes, corrente de ouro no peito, camisa aberta. Lembro da guia. A mulecada da rua tava sempre em casa. Gostavam da pipoca da minha vó, das historias do Bene, segundo marido da minha vó. Um deles correu comigo até esses dias. Foi meu amigo, meu fiel, meu chefe... agora me proteje. Nunca pensei no que ia de ser. Minha mãe diz que eu queria ser marinheiro. Falava de barco. De ficar no mar o dia inteiro. Eu não me lembro. Esse sonho eu não tive. Vivi a vida e desemboquei aqui. E só.


Foto: Silvia Izquierdo/AP – Complexo do Alemão


Sebastião Maia

quinta-feira, novembro 11, 2010

O Espaço da Alegoria

Em que pesem todas as alegorias do mundo, desde Platão, a obstinada representação da realidade foi o que nos deu régua e compasso para traçar os seus contornos e para que nos sentíssemos inclusos dentro dos seus limites, dentro dos limites do sentido, de seu significado, dentro de um mundo quem sabe inexistente; tão inexistente quanto as sereias de Ulisses e a caverna de Platão. Inexistente como o pragmatismo da poesia, como a objetividade da realidade, como uma ficção do cotidiano, que existirá dentro de nós sempre e pelos mesmos motivos de sua não existência.
Lembro-me do sonho de Aureliano Buendía em os Cem Anos de Solidão, em que ele levanta no meio da noite e via sua imagem refletida em dois espelhos nas paredes de seu quarto, um de frente para o outro, de maneira que um refletia o reflexo do outro numa perspectiva infinita, como se houvesse a imagem dele e de vários quartos projetados numa seqüência infinita um atrás do outro.
Nessa projeção de imagens dos infinitos quartos, Aureliano abria as portas e ia passando de um quarto para outro, até que em um deles Aureliano sempre se encontrava com um homem, o qual havia matado numa briga. Este era o sonho que ele tinha com a sua vitima.
Porém um dia, neste sonho, ao entrar em um desses infinitos quartos e após conversar com o homem que havia matado, ao sair, a porta não se abria e Aureliano ficou trancado, preso no mesmo quarto que sua vítima. Essa foi a maneira que Gabriel Garcia Márquez arrumou, sem dizer em nenhum momento a palavra morte, que Aureliano Buendía morreu dormindo.
Neste sentido também, lembrei-me dos cartógrafos de Borges:

“... Naquele império, a Arte da Cartografia alcançou tal Perfeição que o mapa duma Província ocupava uma Cidade inteira, e o mapa do Império uma Província inteira. Com o tempo esses Mapas Desmedidos não bastaram e os Colégios de Cartógrafos levantaram um Mapa do Império, que tinha o Tamanho do Império e coincidia com ele ponto por ponto. Menos Dedicadas ao Estudo da Cartografia, as Gerações Seguintes decidiram que esse dilatado Mapa era Inútil e não sem Impiedades entregaram-no às Inclemências do Sol e dos Invernos. Nos desertos do Oeste perduram despedaçadas Ruínas do Mapa habitadas por Animais e Mendigos; em todo o País não há outra relíquia das Disciplinas Geográficas.”

Ambos os textos em sua representação da realidade tentam reproduzir o imponderável e o infinito, questões patentes entre os dois autores. No segundo texto, Borges, tenta partindo de uma teoria de seus cartógrafos, reproduzir, ou melhor dizendo, representar em extensão, o fenômeno (espacial) em sua ocorrência. O que expõe a representação ao campo semântico das intempéries da natureza como prova de sua não concretixzação no real, deixando implícita a relação da representação dos fenômenos da natureza e a “natureza dos fenômenos de representação”, que tenciona criar uma outra realidade uma outra natureza em que possa existir.
A função das alegorias, ou da “natureza dos fenômenos de representação”, não é só a de ser uma imagem da coisa representada, mas também de recriar a realidade. A representação não é uma cópia mas sim uma criação do dado ordinário que pode beirar a inverossimilhança mas que existe.
Quando Borges escreveu tal texto, seria inverossímil afirmar que após a década de 70 existiriam equipamentos em órbita da terra que poderiam mapear o espaço ordinário da vida humana em sua totalidade e em tempo real, compreendendo todos os fenômenos naturais e de representação do espaço. As linguagens do sensoriamento remoto recriam constantemente realidades acerca do espaço geográfico, impedindo-nos de afirmar que haveria uma realidade em si. Mesmo que o dado e a objetividade científica, nos tentam convencer do contrário.
Outra questão ligada à representação é o da escala, que nas alegorias de Borges e Gabriel Garcia Márquez, é possível identificá-las. Toda vez em que aumentamos ou diminuímos uma escala também alteramos a percepção do espaço. Assim, por meio da escala, é possível também criar, acerca de um mesmo lugar, realidades diferentes, cujas possibilidades podem aumentar à medida que cruzamos linguagens distintas. Escalas que reduzem ou que aumentam muito, alteram e/ou suscitam outras interpretações. Mas o que importa mesmo nesses casos são as escalas que tendem ao infinito e a escala 0:1, a escala da imaginação. Esta, com dupla função: a de descrever o espaço da alegoria e a alegoria do espaço.
















domingo, outubro 31, 2010

Saudações. Aos que tem coragem

O Deus ELIMINE o PSDB deste País.

Que o nº 45, deixe de existir.

O Pai, dê sabedoria ao povo brasileiro, para reconhecer seus líderes.


Dê discernimento a essa mulher para criar um país mais equânime, onde a ética, a coerência e o respeito caminhem juntos.


Amém!

Parabéns Dilma Roussef - 1ª Presidenta do Brasil



quarta-feira, outubro 27, 2010

TRIBUTO a TIM MAIA

BANDA BLACK RIO

28 / 10
quinta


PRAÇA MARIO CESARE PORTO 20h 30m

(ao Lado do PIRATINIGA / JD SATÉLITE)


DEMORÔ!!!

quarta-feira, outubro 13, 2010

Política e religiosidade



“Num país como o nosso, ainda que queiram, o candidato que se assume ateu está atestando seu óbito político”.

A maneira como a ministra Dilma tem sido tratado por alguns setores da igreja católica e protestante em nosso país, lembra muito bem o comportamento errôneo que teve a igreja durante o período da ditadura militar, quando famílias saíram à rua com medo da implantação do chamado “comunismo” implantado nos países do leste europeu. Sabemos o alto preço que ela deve que pagar em função disso naquele período.
Agora, a bola da vez é a questão do aborto, sobre sua implantação em nível nacional para que mulheres não se matem em clínicas clandestinas espalhadas pelo país sem o mínimo de cuidado possível.
Ambos candidatos tem no fundo a mesma opinião, o problema que em determinado momento Dilma cometeu o erro, de colocar isso publicamente. É importante lembrar aqui que a chamada pílula do dia seguinte que a Igreja é contra foi implantada pelo senhor José Serra.
Mais deixemos por hora essa questão e vamos aprofundar no quesito aborto ligado a vida. Todos sabemos que a vida para os cristãos como está na encíclica social e ética se dá em todos períodos da vida, desde sua concepção até a velhice que, seguindo o curso normal da vida, precede a morte natural. Desta forma, quando parte da Igreja, eu digo parte, porque se pegarmos o site oficial da CNBB ela não assume uma postura anti-Dilma, até porque quem estudar a fundo a fundação do PT sabe que ele nasceu dentro das CEB´s católicas .
A vida deve ser vista em sua totalidade e não apenas no embrião presente no útero materno, pois quando deixamos crianças soltas na rua feitas bicho, na escola sem aprender direito (como acontece nas escolas paulistas), na cracolândia em pleno centro de São Paulo, nos hospitais onde idosos são desrespeitados passando meses esperando um especialista, e em tantas outras situações, também estamos abortando e isto deveria ser aprofundado nas discussões que a sociedade tem colocado.
É importante desta forma levantar questões positivas e negativas em ambos governo: PSDB e PT e fazermos comparações de índices relacionados principalmente as classes menos abastadas para sabermos realmente quem menos preocupa com vida e aí chegarmos à conclusão, isto é, a continuidade ou rompimento do atual governo.
Hemerson

domingo, setembro 26, 2010

Para ler um poema



Sentada no trono
Entre a dor e o alívio
O tempo certo para
Abrir o livro
um poema

O tempo certo
Para saborear as palavras
Leio e dou a descarga

Luciana Bertarelli

segunda-feira, setembro 20, 2010



A ORIGEM

A origem é um filme intrigante, protagonizado por Leonardo de Caprio (Dom Cobb) é um espião clandestino especialista em roubar segredos do subconsciente, enquanto dormem Cobb controla o seu sonho e então entra no sonho da sua vítima e a manipula, e por tal habilidade é procurado e perseguido pelo mundo da espionagem onde se encontra envolvido numa trama com produção típica de cinema americano, e para se safar, Cobb teria que cumprir um crime quase perfeito planejado junto a uma equipe de espiões. Ao invés de roubar pensamentos teria que implanta-los, mas somente Cobb era capaz de capitanear esse grupo através de sonhos compartilhados.

Apesar de ficção, o filme apresenta especulações no campo, psicanalítico e fenomenológico, Cobb possui fixação em entrar no sonho, pois tem um caso de amor com a sua mulher que até então havia se suicidado.
Ellen Page interpretada por Ariadne é parceira de Cobb e responsável por arquitetar os sonhos; em uma das cenas, submerso, e no controle do sonho partilhado, Cobb e Ariadne caminham pela cidade criando imagens surreais e percebem que as pessoas que ali transitam estão em simetria com os seus sonhos.

O roteiro apesar de complexo, envolve- te numa trama metafórica dos sonhos dentro de outro sonho, formando três estágios de sonhos, carregado de carga emocional, a dinâmica interativa da perseguição insere o espectador dentro do pesadelo. O longa do diretor, produtor e roteirista Cristhoper Nolan, deixa sua marca de cinema pós moderno, abordando de modo ensaístico, o perene em meio a hiper produção Hollywoodiana, e como se não bastasse, Nolan termina com um desfecho enigmático.

Fabiano Baldi

A ORIGEM

Título original: Inception

Duração:148 minutos (2 horas e 28 minutos)

Gênero: Ação / Ficção Científica

Direção: Christopher Nolan

Ano: 2010

País de origem: EUA / REINO UNIDO

domingo, setembro 19, 2010

Luciano e o Youtube

Encontrei nosso ilustre comuna Luciano Machado neste Sábado e ele, sem senha e sem memória, solicitou a inclusão desse vídeo aqui, uma vez que o comuna não menos ilustre Alexandre não atendeu ao pedido dele. Então ... soca a porva!
(clique no Título)

quinta-feira, setembro 16, 2010

Toy Store

Dizia o anfitrião, que era cara do bebê de Rosemary, temer pelas gafes em público. Mas ninguém, como eu, percebeu, já que divagavam na forma esguia e não se reparou no raro valor da ourivesaria
Só tinham mesmo olhos para ela, a manequim da franquia, Fissurada por olhares dos passantes em frente a vitrine, por balas, consumos compulsivos, pedras, álcool, caratê boliviano e cocaína.Tinha a face de talco, lívida, estática como uma plumagem congelada no seu coração de alvenaria.
Até que um dia saiu da butique e atravessou a avenida. Levou as crianças da seção de brinquedos para praia, abriu o guarda sol, o Cem Anos de Solidão e, pensou em fundear na baía para negociar com os armadores sonhos, eternidades e as crianças que trazia; as suas crianças da areia e a minha, as da água, do além mar, do vento, as crianças ultramarinas, as do amor, as do além dor, as crianças anestesiadas da tabacaria.
Que tomam alcalóides, sorvem barbitúricos e solfejam a alegria. Brincam ao abrigo do sol, com seus castelos, e refratam nos olhos de areia o calor e a luz da pira, refletida nas baixelas seu lume, o polido, opaco lustre da prataria, da loja de departamentos que jaz sem os seus dois manequins que romperam a paralisia.
Na hora do acontecimento, eu mesmo nem percebi, só me dei pelo ocorrido quando os vi, com seus corpos nus e estáticos na praia, em estágio avançado de decomposição pela maresia!
Dizem que o crime foi por motivo torpe. Por um consumidor que havia comido demais na praça de alimentação e ao chegar na loja, percebeu que o manequim, jamais serviria.


quinta-feira, setembro 02, 2010

Pós Leitura II

Com a evolução técnica dos suportes materiais do signo, o homem pode suscitar outros imaginários, mas não necessariamente em detrimento de outros!
Com a evolução técnica dos mídias eletrônicos, muitos se apressaram em vaticinar o fim de vários outros suportes que os prescendiam. Assim como, quando surgiu o cinema vaticinaram o fim do rádio, quando surgiu a televisão vaticinaram o fim do cinema e etc.. O rádio está mais vivo do nunca! Talvez por ele (o rádio) ser um meio de comunicação que McLuhan conceituou de quente, enquanto a TV de meio frio.
O livro digital, seguindo a lógica de McLuhan, é frio e o livro convencional é quente. Concordo com SM, não creio no fim do velho livro, a sua materialidade será o ponto chave nessa relação entre este dois suportes.
O livro digital, ou e-book, é bom por uma questão utilitária. É bom por exemplo para quem precisa ler uns 3, 4 ou5 livros de uma vez, pra quem está defendendo uma tese, uma pesquisa etc.. Não dá pra você andar pra cima e pra baixo com uma caralhada de livro debaixo do braço.
Tirando o utilitarismo da leitura, será a materialidade do livro convencional que contará! A técnica é portadora de significado, a própria técnica que estrutura o suporte sintático já é portadora de sentido, um sentido que prescede e é independente do conteúdo que este suporte pode veicular.
No caso do livro convencional a sua materialidade veicula um sentido que independe de seu conteúdo. É aí que, o que o Gurdura disse em seu comentário me fez total sentido! A história do Bruno Munari, que criava livros para crianças que ainda nem eram alfabetizadas, confeccionando só o objeto livro, em suas mais variadas formas, sem nenhum conteúdo escrito! Isso é a prova cabal que a própria materialidade do livro já é portadora de significado, independente do que nele esteja escrito! O material e a técnica com que Bruno Munari confeccionava seus livros já tenciona um sentido, que hora pode ser lúdico ou estético, mas sobretudo, um sentido específico, do imaginário que a técnica que constitui tal materialidade pode suscitar.
Mas que sacada desse Bruno Munari! Vejo também pelo meu filho, que se relaciona com esse objeto sem mesmo saber ler.
É, acho que McLuhan tinha mesmo razão, “O meio é a mensagem”.

terça-feira, agosto 31, 2010

Pós-leitura


Tenho gastado um pouco de energia sentado tomando cerveja e em um dos meus devaneios foi pensar porque temos uma crise no consumo da leitura, principalmente dos clássicos na escola. Se retomarmos o período da Idade Média veremos que eram poucas pessoas que tinham acesso à leitura e mesmo pessoas que conhecemos que narraram algumas coisas, o escriba era o meio para transmitir sua idéia. Assim, a escrita era para uma classe limitada. Com a reprodução das obras e não precisando mais dos manuscritos dos escribas o homem pode tomar contato maior com a leitura e sem dúvida com seu poder transformador e alienante, não que ela o seja, mais o que possa significar como meio a ser usado para alienação.
É sabido que o primeiro grande livro de reprodução em massa é a bíblia que traz melhorias quando criaram além dos capítulos , os versículos para que se permitissem que em qualquer edição poderia ser lido por qualquer pessoa. Veja que isso é traz em si uma inovação.
Tem-se uma coisa que as classes mais abastadas tinham e que a população em geral desejava com ardor era conhecer a leitura, pois ela desvendava (tirava o véu) de tudo aquilo que muitos falaram e realmente não estava escrito. Talvez esse era o grande medo do catolicismo medieval em relação da população tomar contato com a leitura.
Com a modernidade e a preocupação de ter um homem mais “culto” nos moldes da exigência da mão-de-obra a educação passa ser algo fundamental e as cidades, principalmente as maiores, vão permitindo que a população tome contato com a leitura e o conhecimento em geral.
O que ocorre é que há pessoas que estão muitos à frente e irão através do conhecimento acumulado criar novos meios de conhecer que irão além da leitura e serão muito mais atraentes do que ela: a imagem e a palavra acoplada a ela: o cinema. Mais saltarei do cinema para ir direto a televisão, essa sim será superará e trará um novo paradigma que remove do homem a busca que era seu maior sonho, a leitura, para receber o conhecimento enlatado para seu paladar de vontades de conhecer.
Quem foi criança um dia sabe do que estou falando. O imaginário da criança em vez de ter como personagem a figura do herói do livresco passa a tê-lo nos heróis dos desenhos americanos que tornaram nossas referências infantis.
Alguns falaram: “e o rádio?” Este também foi importante, inclusive substituiu o leitor da família que fazia as mulheres chorar, pelo locutor de voz poderosa, narrador de novelas e jogos futebolísticos, mas a tv, sem dúvida, mudou o paradigma de maneira mais poderosa.
Mais se alguns ainda mantinha o contato forte com o livro, virá a devastação com a Internet e sua maneira de tratar as noticias e informações e suas interações. Ela permitirá unir leitura, rádio, telefone, tv e o que há por vir.
Creio que a leitura como conhecemos através dos livros com cheiro de pó da estante está com seus dias contados e caberá em um Ipad principalmente para novas gerações. E as obras clássicas terão seu número de leitura reduzido a resumos e a números de pessoas restritas que o lerão por inteiro. O homem moderno é apressado a comer e consumir fast food até mesmo nas informações.
As pessoas continuaram a ler? Creio que sim, mais lerão o mundo de uma maneira mais ampla com imagens em 3D, com poesias narradas com flores passando por trás das imagens, com contos narrados por atores, com audiobooks em Ipod´s.

segunda-feira, agosto 23, 2010

Lula ,Lula.....




O estado é um monstro frio e insensível que tem como caracteristica tratar o ser humano como número e quando destes nasce um que vem lhe tirar o sono o tratam com desdem pois afinal para que serve tal escória.
Poderam dizer-me : o garoto é pau mandado,mais e daí?


Hemerson

quarta-feira, agosto 18, 2010

A morte lhe pedirá passagem


Tenho vivido como se um câncer tivesse atingido minha alma. Não que o tenha, mas para que a partir disso pare de preocupar com coisas vãs. Recentemente um amigo disse-me que em plena manhã de uma segunda-feira que ficará por demais chateado, pois tinha lavado seu carro e uma chuva torrencial tirou-lhe o trabalho do dia. Passado alguns dias esta mesma pessoa saindo em urgência para atender a irmã da namorada entrou debaixo de um caminhão e ficou inválido. Recente ele esteve próximo a mim e me cumprimentou, neste meio tempo foi à mesa de outras pessoas e cumprimentou-me novamente ao retornar como se não o tivesse feito há poucos segundos. O menino está como criança sendo cuidado pelos pais e a chuva do final de semana não faz diferença alguma agora.
Uma das máximas da filosofia existencial de Heidegger, termo que ele não gostava muito, era que o homem é um ser para a morte. De todos os projetos que miramos para o nosso futuro a morte é aquela que pode anular todos desejos futuros. Este filósofo era ateu, entretanto na teologia cristã tal idéia é trazida também quando Cristo diz que o homem não deveria preocupar com o dia de amanhã porque dele não temos certeza alguma e desta forma acabamos por demais gastando uma energia desnecessária.
Ora, então não devemos ter projetos para o futuro? É certo que sim, mais com passos no presente e sem pretensões tão malucas como nos é cobrado por nós e pelo que os outros esperam de nós.
Recordo-me quando éramos crianças e parecia que os dias nos eram mais longos, pois aproveitávamos ao máximo esse tempo. Não preocupávamos com paredes riscadas, com mesas sujas, com o que íamos comer, vestir entre outras coisas. Bastava-nos o básico e alegria de viver o momento presente. Talvez daí nos vem o saudosismo infantil na vida adulta que gastamos o tempo presente preocupado com algo que ainda não nos pertence: o futuro.
Desta forma, tanto a idéia de Heidegger, bem como a idéia cristã de não podermos controlar o futuro só nos faz sentido realmente a valorização do presente que neste momento que vos falo e depois é também um passado que não retorna mais.
O que é a vida humana se não um constante devir, um movimento sem pressa, que nos leva ao nada, sem sentido, que somente nós podemos dar sentido a ele.

Hemerson

Galáxia de Gutenberg


Hoje, pela manhã, depois de um pão na chapa e um prensado do Gutenberg na cabeça, passei o olho no jornal, e li nas “Rápidas”, que uma empresa que opera trens de alta velocidade na Europa, a Eurostar, contabilizou a soma de mais de 1000 exemplares do livro de Dan Brown, O Código Da Vinci, deixados na estação de Londres no período de um ano.
Muitos, como eu, poderiam atribuir o fato a qualidade literária da obra. Marcelo Nova e Raul Seixas que tinham razão: “ o best seller do momento é um livro agourento”. E pensar que entre o século V a. c. até o século XV o “livro” era algo de acesso restrito, produto de escribas e copistas, praticamente uma obra de arte.
Em a Galáxia de Gutenberg, McLuhan disseca o salto qualitativo que o mundo ocidental deu com os tipos móveis e sua representação para a era moderna. Foi aí que começou a primeira produção em série, a primeira linha de montagem, uma linha de montagem da representação material do som, do fonema, através da letra impressa, que tirou o mundo da oralidade e o tornou muito mais visual.
A própria formação do Estado Nacional está ligada a experiência da língua na forma impressa, a palavra impressa possibilitou a uniformização de conceitos da modernidade como o de cidadão, de política, da educação que se orientou aos homens de letras e estes puderam levar a cabo um projeto político-nacional para construção do Estado Moderno.
Por mais que tenha havido a democratização do conteúdo escrito e a difusão do conhecimento a leitura não se emancipou na mesma proporção, o ato de ler, no senso comum, parece se redundar numa ação canhestra ou massificada. A evidência da conquista do conteúdo se traduziu na ausência da conquista de emancipação e autônima estética.
Não haveria escritores de Best Sellers e nem seus leitores sem a tipografia, a linha de montagem é quem deu a dimensão de escala para que fossem os mais vendidos e depois abandonados nos metrôs, ou esquecidos propositadamente em algum balcão de padaria.
As editoras européias não estão aceitando mais a devolução dos encalhes, elas pedem as livrarias que rasguem a capa e os catálogos e os enviem de volta, o resto do livro podem mandar para reciclagem, como se deletasse uma biblioteca inteira de um e-book. E, segundo renomados pesquisadores do Instituto Raul Seixas, o e-book é a anti-matéria da Galáxia de Gutenberg!

segunda-feira, agosto 16, 2010

Vamos celebrar nossa saudade...


Hoje já passei dos trinta

E de vez em quando me dá saudade da “Legião”

Do “Tempo Perdido” a “Perfeição”

Saudade da oitava série

Do colégio

Da turma, do violão

Prenhes de filosofia e amores vãos...

Saudade dela que nunca quis saber

Da poesia

Que eu escrevia

Na contracapa do coração

Na contramão do tempo

Que nos levou a juventude

Os amores

Os amigos

E que deixou saudade de tudo isso

Saudade da “Legião”...


"...Qual foi a semente
Que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito
O que está acontecendo
E daí, de hoje em diante
Todo dia vai ser
O dia mais importante..."

(Renato Russo / Eu era um lobisomem juvenil)

(Crédito / Imagem: legiaourbana.com.br)





areia da praia

cartas de baralho

blocos de pedra

empilhe e tens um castelo.













terça-feira, agosto 10, 2010

Hoje

Uma abelha ferrou minha cabeça. Mas talvez fosse uma vespa, não tenho certeza.

Esqueci meu cão no mercado.

Comprei meias femininas na Marisa. Na dúvida entre uma sapatilha meia e uma meia sapatilha, levei as duas.

Dei umas moedas para um sanfoneiro cego.

Fiquei devendo vinte centavos na banca de jornal.

Todos os ipês da cidade estão floridos; este, em frente a minha casa, não.

O escriturário não reconheceu a minha assinatura.

A impressora cuspiu uma folha impressa inútil, e morreu.

Pelas tantas, dirigindo na estrada, tive uma alucinação. Achando que estava em um local, dei-me conta que estava em outro completamente diferente. Por alguns minutos não sabia se estava indo ou voltando, se já havia ultrapassado meu destino. Isso me provocou terror e a nítida sensação que tinha atravessado um portal espaço-tempo, um "buraco de minhoca" e sido carregado para outro lugar num átimo, sem perceber nada. Assim como se acorda de repente em um local estranho, não sabia como tinha parado ali, mesmo sendo o condutor do veículo.

Hoje não foi um dia, foi um enigma.