quinta-feira, outubro 27, 2011

Metalismofagia


Outros ouro outros ouro ouro outros outros ouro outro ouro...

A batéia, o rio, o ouro

O objeto, o sol, a sombra

outros ouro ouro outros ouro outros ouro outros outros...

Os outros meus olhos o ouro

O ouro dos meus olhos são os outros

Ou(t)ro fagia

terça-feira, outubro 11, 2011

transcedência

Dei um salto no profundo nada e lá vi a face oculta de Deus. Diante de toda a racionalidade me calei e num silêncio profundo revelou-se . Meu espirito que em busca incansável pôs-se a descansar .

PIK

terça-feira, outubro 04, 2011

Idade Madura

Li este poema do Drummond em duas circunstâncias que me marcaram muito. A primeira aos dezeseis anos, sem muitas das marcas que hoje carrego, a segunda, sábado passado, vinte anos depois, na beira de uma cachoeira, no meio do mato, após meu esporte preferido: a Vela. E vi neste poema o velame da vida inflado pelos sentidos do tempo. O Ser e o Tempo!

As lições da infância


desaprendidas na idade madura.

Já não quero palavras, nem delas careço.

Tenho todos os elementos

Ao alcance do braço.

Todas as frutas

e consentimentos.

Nenhum desejo débil.

Nem mesmo sinto falta

do que me completa e é quase sempre melancólico.

Estou solto no mundo largo.

Lúcido cavalo

com substância de anjo

circula através de mim.

Sou varado pela noite, atravesso os lagos frios,

Absorvo epopéia e carne,

bebo tudo,

desfaço tudo,

torno a criar, a esquecer-me:

Durmo agora, recomeço ontem.



De longe, vieram chamar-me.

Havia fogo na mata.

Nada pude fazer,

nem tinha vontade.

Toda a água que possuía

irrigava jardins particulares

De atletas retirados, freiras surdas, funcionários demitidos.



Nisso, vieram os pássaros,

rubros sufocados, sem canto,

e pousaram a esmo.

Todos se transformaram em pedra.

Já não sinto piedade.



Antes de mim outros poetas,

depois de mim outros e outros

estão cantando a morte e a prisão.

Moças fatigadas se entregam, soldados se matam

No centro da cidade vencida.

Resisto e penso

numa terra enfim despojada de plantas inúteis,

num país extraordinariamente, nu e terno,

qualquer coisa de melodioso,

não obstante mudo,

além dos desertos onde passam tropas, dos morros

onde alguém colocou bandeiras com enigmas,

e resolvo embriagar-me.



Já não dirão que estou resignado

e perdi os melhores dias.

Dentro de mim, bem no fundo,

Há reservas colossais de tempo,

Futuro, pós-futuro, pretérito,

Há domingos, regatas, procissões,

Há mitos proletários, condutos subterrâneos,

Janelas em febre, massas da água salgada, meditação e sarcasmo.



Ninguém me fará calar, gritarei sempre

que se abafe um prazer, apontarei os desanimados,

negociarei em voz baixa com os conspiradores,

transmitirei recados que não se ousa dar nem receber,

serei, no circo, o palhaço,

serei, médico, faca de pão, remédio, toalha,

serei bonde, barco, loja de calçados, igreja, enxovia,

serei as coisas mais ordinárias e humanas, e também as excepcionais:

tudo depende da hora

e de certa inclinação feérica,

viva em mim qual um inseto.



Idade madura em olhos, receitas e pés, ela me invade

com sua maré de ciências afinal superadas.

Posso desprezar ou querer os institutos, as lendas,

descobri na pele certos sinais que aos vinte anos não via.



Eles dizem o caminho,

embora também se acovardem

em face a tanta claridade roubada ao tempo.

Mas eu sigo, cada vez menos solitário,

em ruas extremamente dispersas,

transito no canto homem ou da máquina que roda,

aborreço-me de tanta riqueza, jogo-a toda por um número de casa,

e ganho.

domingo, setembro 18, 2011

obrigado pai

Obrigado pai

Por ter levado meu pai

Por ter trazido a doença, a fome, a lamuria, o choro e a humilhação

Obrigado pai

Pela falta de vergonha, pela preguiça, pela corrupição

Pela fila no postinho, pelo professor resignado

Pelo irmão que canta sem saber cantar

Pelo dia passado no escritório maldito

Pelo HIV, pelo câncer, pela hepatite

Pelos filhos de deus que nascem sem braços e pernas

Pelos filhos malditos de deus que nascem sem ter o que comer

Obrigado pai

Por ter levado meu pai quando eu tinha sete anos

E de me ter deixado na miséria

Obrigado pai

Por todas as guerras entres seres humanos

Feitos a sua mais perfeita semelhança

Obrigado maldito pai

Por ter me botado neste maldito mundo

Por me fazer vomitar quando bebo

Por me fazer vomitar quando vejo que o mundo é uma merda

Por ver que a vida não passa de uma novela mal contado

Sem final feliz, sem mulher feliz, sem homem feliz

Com filho na lata de lixo, dormindo na rua

Passando frio, sem pai, pedindo ao pai

Aceitando a humilhação por você pai

Aceitando fazer tudo por você pai

Obrigado pai

Hoje eu acordo com vontade de morrer

Hoje eu acordo com vontade de matar

Por você meu pai querido

Eu te amo pai

Pai, pai, eu quero segurar sua mão

Quero sua proteção pai

Quero ser seu filho pai

Pai? pai? você existe?

Ou foi estória que me contaram?

Quero respirar bem fundo pai

E esquecer que você existe

Te odeio pai

Você me tirou tudo

Você me enganou

Você, pai, foi uma estória mal contada

E não dormi com você

Você é a doença que existe neste mundo

Você é a escoria bêbada

Você pai, pai, pai

Você fez Adão e Eva do barro

Talvez da merda e do devaneio absurdo de algum idiota

Obrigado pai

Hoje eu entendo a fome irracional por sua proteção

Pai, você fez e abondonou

Você fez a doença e inventou a cura

Como um farmacêutico capitalista

Você fez o esforço parecer elogio

Mas pai, eu não consigo

Pai, eu quero dormir

Pai, eu quero ficar na cruz no seu lugar

Pai, eu quero mas não posso querer

Você criou o mundo

O destino, a vida, o amor

Mas que diabos tinhas na mente?

Pai, nada disso faz sentido

Você não exite!

Você é o côco do cavalo do bandido

Você é minha esperança

minha desesperança

pai, rezei tanto por você

pedi tanto por você

orei, pedi pelos pobres, pelos oprimidos

pelos que não tem onde dormir

e o que tenho de você?

Nada, nada

Você é um bandido

Uma enganação

Pai, segura minha mão

Eu não tenho onde dormir

Então eu vou fazer uma prece

Vai tomar no meio do seu cu seu filho da puta!

quinta-feira, setembro 01, 2011

Amor

Feliz aniversário!



Meus 20 anos (Ai, Corinthians) - Paulinho Nogueira

São 20 anos de espera,
Devoção e muito amor.
Cada vitória é uma festa
E a derrota um dissabor.
Até um simples empate,
Que podia consolar,
Quase sempre é conquistado
Quando é preciso ganhar.
Mas nessas poucas vitórias,
Algumas sensacionais,
A gente esquece de tudo
Não desanima jamais.

Ai, CORINTHIANS,
Cachaça do torcedor,
Colorido em preto e branco,
Sem preconceito de cor.
Ai, CORINTHIANS,
Quando és o vencedor,
Pobre fica milionário
Rindo da própria dor.

E lá se vão 20 anos,
Alimentando ilusão
Renovando a esperança,
Agüentando gozação.
Quantos domingos sombrios,
Eu, eterno sonhador,
Chegava em casa arrasado,
Maltratava o meu grande amor.
Meu São Jorge, me dê forças,
Pra poder um dia, enfim,
Descontar meu sofrimento
Em cima de quem riu de mim.


Coríntia - Adoniran Barbosa e Juvenal Fernandes

Como é bom ser alvinegro
Ontem, hoje e amanhã
Respirar o ar mistura
Do Tietê e Tatuapé!

Lá no alto a velha Penha
Anchieta e Bandeirantes
Ver São Jorge lá na lua
'Bençoando a Fazendinha
Onde mora um gigante
Tem igreja e tem biquinha!

Corinthians, Corinthians,
Meu amor é o Timão.
Corinthians, cada minuto,
Dentro do meu coração!

Corinthians, Corinthians,
Meu amor é o Timão.
Corinthians, cada minuto,
Dentro do meu coração!

Belém, Vila Maria e Moóca
E São Paulo e extensão
Mogí, Guarulhos, Itaquera
Tudo vibra coringão
É o Corinthians de nós todos
É paulista, é campeão!

Corinthians, Corinthians,
Meu amor é o Timão.
Corinthians, cada minuto,
Dentro do meu coração!

Corinthians, Corinthians,
Meu amor é o Timão.
Corinthians, cada minuto,
Dentro do meu coração!


quarta-feira, agosto 24, 2011

poema e sequência de haicais

Naquela época

minha voz te acalmava

Eu cruzava a porta

você me abraçava

Nossas mentes e almas

Andavam coladas

E tudo que vinha

A gente enfrentava

Foram tempos

de Gullar nossos gatos

De Caetanos cifrados

De João

ouvirmos calados

De tudo fez-se nada

em nosso pós carnaval

Dito assim solto

pelo MC Marechal

quando foi que achamos

Que esse dia chegaria afinal?



Triste fim esse nosso

Dois perdidos

Em meio aos destroços



Luz

Entra e

Escancara

a ausência



Um norte

Se tiver sorte


A paz

Se esconde

No horizonte



vida entrecortada

Pela luz enquadrada



Congelo fumaça

Num haicai

Sem graça



Gravo minha dor

Pelo obturador



Divido com você

O que devia esconder

segunda-feira, agosto 22, 2011

Quanto vale ou é por quilo?

Sempre gostei dos filmes niilistas.Mais este é de um niilismo ala sarcasmo maravilhoso. Crítica profundamente as estruturas da miséria deste país e como é usado pelas ONG´s distribuidas neste país. Creio que há muitas ONG´s honestas neste país,mais não conseguirei acreditar em uma fortemente ao não ser que tome conhecimento de perto. Sou horrível para contar filmes e por isso indico e para quem já assistiu aproveito para que possamos abrir uma boa discussão aqui.
Agora que parece uma continuação do cronicamente inviável , isto sim, parece. Mais realmente vale a pena.
PIK

sexta-feira, agosto 19, 2011

Existe uma lenda – que muitos aqui devem conhecer – de que existe uma passagem que liga São Tomé das Letras à Machu Picchu. Meu tio acredita nisso piamente, a ponto de dizer que o acesso a caverna onde existe tal portal foi fechado pela prefeitura para evitar a viagem e não por segurança. Não sei nem mesmo se existe tal caverna, e se realmente foi fechada pela prefeitura.

Toda essa introdução é apenas para tentar especular sobre um mecanismo humano que a mim intriga muito: a fé. Algo que pode parecer absurdo para uns é totalmente palpável para outros. A fé é a arte de acreditar na falta de evidências, como se essa própria sentença já não fosse um contra-senso.

Sem querer fazer juízo de valor ou chacota com quem quer que seja, me permito duvidar da divindade terraqueamente representada – não por habitar o corpo, mas por procuração – pelo Papa. E para que não pese sobre minhas pobres letras a carga de “ateu fervoroso” busco embasamento na dúvida, em parte tentando livrar minha barra de “direitoso”, de Leonardo Boff e Olavo de Carvalho, amén.

quinta-feira, agosto 18, 2011

Ol’Blue Eyes is Back



Dada a projeção de seu nome na impressa e no mercado editorial estadunidense, o jornalista mundialmente conhecido Gay Talese, ganhou notoriedade pelo que se convencionou chamar de new jornalism ou jornalismo literário, também representado por grandes nomes como Tom Wolf e Truman Capote.

Dentre as suas principais obras a que tive acesso nos últimos dias, está a cobertura de um fato aparentemente banal, dada sua trivialidade dentre as pessoas comuns, se não fosse por ter ocorrido com um ícone da industria do entretenimento e do show business norte americano.Gay Talese descreve magistralmente um resfriado que acometeu Frank Sinatra certa noite nos idos anos 60, transformando a banalidade desta efeméride no resfriado mais famoso da história.

Sua descrição minuciosa justaposta a uma narrativa literária descreve contornos que dão status à uma cobertura jornalística que teria tudo para se resumir a uma nota sem importância na imprensa escrita da época. Tais contornos dão conta de relacionar o resfriado de Sinatra com a sua excentricidade e seus relacionamentos tumultuados, com Nancy, Ava e Mia trinta anos mais nova do que ele, as suas oscilações de humor e a exploração de sua figura pública pelos mass mideas, sobretudo sobre sua relação com a máfia.

O resfriado de Sinatra minava sua auto-confiança, o irritava, e trazia problemas para todos que estavam ao seu lado. Mas seus reflexos iam ainda mais longe, Sinatra estava nas rádios, nas TV’s, shows e no cinema, praticamente dominava toda cadeia de produção da industria cultural norte americana, e no texto de Gay Talese, este resfriado representava para esta industria o mesmo que a doença do presidente dos EUA para a economia do país.

Sinatra era um fenômeno da economia nacional dos EUA, ele era uns dos poucos produtos pré guerra que conseguiu resistir àqueles anos e que embalou em suas canções o modo de vida dos americanos pós 2ª guerra, a sociedade de consumo norte americana, o ideal de liberdade, individualidade, de mulher, de conquistas materiais, de amor e paixões.

Leiam: Frank Sinatra Está Resfriado de Gay Talese.

terça-feira, agosto 09, 2011

Círculos (III final)

Eles chamavam aquilo de sumo.

O resto da cerveja que ficava no fundo da garrafa; quente.

Quando o copo descolou da sua boca, o gosto implacável como o vento:

Tristeza, fúria, frustração, cocaína.

Havia na toalha da mesa círculos molhados feitos pelo fundo do copo.

Até ali, ele sabia, as coisas eram ligadas. Tudo fazia sentido.

- Sou o dasmi.

- hã?

- dasmi, porra! Midas ao contrário. Sou isso aí. Tudo que eu toco fode.

O amigo coça a barba.

A luz do bar era amarela. Em cima da mesa um lustre de sisal.

- como assim?

- nunca quis prisão. Mas sempre fui preso. Queria fazer o que quisesse, até poderia se tivesse grana, mas a grana não te deixa fazer o que quiser. Ou até deixa e eu não sei como.

- ãrrã. (Único som que podia emitir sem que o amigo percebesse que não havia entendido nada.)

- deixa eu te contar uma coisa: estava voltando da praia. Era feriado lá e aproveitei pra vir pra casa. Muito trânsito, com ajuda da chuva e da penumbra. Meu estômago embrulhado tingia de cores ainda piores a situação. Aquela fila enorme com suas lanternas acesas pareciam pontas de cigarro. Os escapamentos - bocas jogando fumaça em mim. Paranóia. De longe eu vi um cara tentando cruzar a pista. Era incrível como as pessoas continuariam paradas, como estavam, se deixassem espaço para ele passar. Foram muitos minutos assim. Quando chegou minha vez deixei espaço entre o carro da frente e eu.

Era hora de mais um gole, mas não tinha.

- e aí?

- O trânsito ocupava só um sentido. O cara passou por mim, olhou no meu olho e acenou com a cabeça, me cumprimentando. Foi nessa hora o meu toque. Ele se esqueceu de olhar o outro lado. Vinha uma moto. Barulho de lenha queimando; o corpo no chão. De braços abertos como se abraçasse o mundo.

sexta-feira, agosto 05, 2011

Portão (II)

Ele via o outro lado da rua cortado por barras azuis e ainda dois punhos cerrados e dois antebraços vestidos em sua malha vermelha com 2 listras brancas.

Seus amigos já tinham ido.

Ele também já teria partido se hoje fosse um dia normal.

Não era.

A escola já estava vazia.

O frio era ainda maior por causa da chuva.

Sobravam ele e o segurança falando ao rádio.

Ele não gostava do segurança.

Ele sempre olhava sua mãe se agachar para pegá-lo.

- Nas raras vezes em que ela o pegava na escola.

Ele amava -

Por cima do ombro da sua mãe ele percebia.

E sempre com aquele sorriso esquisito.

Parou de fitar o homem e sentou no chão.

Abriu a lancheira, ele sabia!, estava vazia.

Mas ele também não estava com fome.

Queria apenas matar o tempo.

Sua medida era o escurecer.

A noite ainda não tinha chegado.

Mas dia já não parecia.

Foi então que encostou o carro do avô.

Ao lado dele a avó.

Os dois falavam ao telefone.

Não se lembrava do avô na escola.

Da avó sim.

Sempre ela.

Ele entrava no carro e ela o bombardeava de perguntas.

Ele gostava.

E só fazia uma: _ e minha mãe?

A avó dizia que estava em casa, esperando.

Naquele dia estava tudo diferente.

O avô desceu do carro, deixou a porta aberta e apoiou os cotovelos no teto.

Continuava ao telefone.

A avó ainda estava sentada no carro, mas de lado, com os pés apoiados no chão e com a porta encostada em sua canela.

Parecia estar descansando.

Ele não se mexia.

Depois de mais algum tempo naquela escala própria de horas a avó o pegou.

Percebeu que ela não queria olhá-lo.

Ela apenas encostou o seu rosto no ombro dela.

Bem devagar o colocou no banco traseiro.

O avô entrou no carro e apoiou a testa no volante enquanto dava a partida.

Já não estava mais com aquele aparelho na orelha.

Saíram sem trocar palavra.

Ele encostou a cabeça no pedaço de vidro que sua altura permitia.

Sentia a vibração e deixava que ela distorcesse sua visão.

Dali pra frente teria de se acostumar com aquilo.