sábado, outubro 07, 2006

Carona com Derrida e Benjamin

by Coronel Dentes
Nesta ultima semana, encontrei no centro da cidade um conhecido meu com quem trabalhei há alguns anos numa empresa, foi uma surpresa, pois ha muito já não via. Conversamos por um momento relembrando fatos do passado, cenas engraçadas e amenidades. Quando descobrimos que teríamos o mesmo destino ao sair de onde estávamos, aproveitando tal coincidência esse meu conhecido solicitamente me ofereceu uma carona.
Ao entrar no carro, antes mesmo da partida, este, da parte de vocês, ilustre desconhecido, faz uma revelação bombástica, disse-me que tinha feito uma belíssima aquisição naquela mesma semana. Havia instalado em seu carro o mais avançado aparelho de DVD do mercado, me dissera que eu nunca tinha visto nada igual, a qualidade da imagem e do som, e a incrível tela que girava entorno de seu próprio eixo sobre um pedestal, algo realmente, diria, assombroso!
Tão assombroso, que fiquei pensando qual a verdadeira necessidade de se ter um aparelho desse em seu carro, o caso me impactou de tal maneira que cheguei a pensar não ser mais possível dirigir sem assistir um DVD, ou o fato de assistir DVD seria melhor realizado dirigindo um carro. Parece um non sense, aparentemente não faz sentido algum, sem contar o problema que poderia ocasionar no transito.
No primeiro momento vem logo a mente a questão do feitichismo da mercadoria, a ostentação, o produto transcendendo seu valor de uso para significar muito mais do que o fim para que se destina.
Mas logo vi que não era tão somente isso, parecia que tudo aquilo era um texto que interpretávamos, era um discurso articulado sobre um determinado tema, assim como Roland Barthes identificou o discurso da relação amorosa em seu primoroso livro “Fragmentos De Um Discurso Amoroso”, é possível identificar um discurso sobre esse caso, que é o das necessidades ilimitadas e da ostentação.
Foi aí que lembrei do conceito de desconstrução de Derrida, que é a desconstrução textual da narrativa levando a outras significações do discurso, remodelando-os e inferindo novas formas para o meio. E é justamente o que ocorre, vamos arrancando pedaços de significantes e compondo um mosaico de discursos na sociedade de massa e consumo, dentro de um mesmo discurso vamos remodelando, trocando velhas necessidades por novas necessiadades e estas por novíssimas pseudo necessidades.
É um grande mosaico, uma realidade fragmentada e instável, e essa fragmentação do discurso e da linguagem leva à uma outra concepção de realidade e personalidade, sempre fundada pela vertigem da instabilidade. Essa desordem aparece para as pessoas em geral com uma ruptura na cadeia significativa de sentido gerando uma certa vertigem.
Temos então a vertigem como um agregado de significantes distintos não relacionados entre si. E isso no mais das vezes, como identificou Lacan nesses casos, se traduz numa esquizofrenia.
E um dos principais sintomas dessa esquizofrenia seria este presente perpétuo não relacionado no tempo, nos revelando como imperativo o caráter imediato dos eventos, trazendo a instantaneidade, a intensidade e o sensacionalismo dos espetáculos como a matéria prima de que nossa consciência é forjada atualmente.
Uma das figuras que conseguiram arquitetar um modelo de entendimento sobre essa consternação estão Derrida, Deleuze e Walter Benjamin, estes apresentam uma hipótese pós moderna de um relacionamento entre esquizofrenia e capitalismo, uma vez que dimensão simbólica e os significantes de nossa sociedade pos moderna (todos já devidamente alterados pelo desconstrutivismo de Derrida), estão ligados ao mesmo aparato técnico que reproduz o capitalismo, o seu processo de produção e a economia como um todo. Já que a técnica por si só já é uma portadora de significado humano e tem uma destinação histórica e cultural, conclui-se então que a sociedade produz esquizofrênicos na mesma escala com que produz shampoo, carros Ford ou DVD´s. Com a única diferença de que os esquizofrênicos não são “vendáveis”.
Por vezes, solícitos, nos deixam assistir DVD enquanto nos dão carona, ou vice versa.

7 comentários:

Anônimo disse...

Boa crónica.Espero que seja uma de muitas.Imagine um DVD deste no fuscão ouvindo um Bob Marley.
Abraços.
Hemerson

Anônimo disse...

Esqueci caros amigos. Este texto foi escrito pelo Alexandre, vulgo dentinho, coronel.

ComunaPiraquara disse...

Quase cronicamente inviável. rsrsr
Infelizmente a tecnologia chegou para nos confundir e/ou gerar conflitos humanos. Adaptar ou não, eis a questão!
Olhos Verdes.

maria disse...

Puxa, na "hora de tomar café" eu preciso de um dicionário pra acompanhar os pensamentos e lendo esse texto, preciso rever meu conceito de livro de cabeceira.....
mas acho q nunca mais ou assitir DVD no carro de algum mala sem filosofar um pouco.

ComunaPiraquara disse...

É caríssimo...começando assim nossa responsabilidade é grande.
A gente se vê. Samuel

Marcio disse...

Bob Marley no fuscão? humm, tô sentindo uma marola saudosista na parada

sérgio disse...

Muitas das vezes, penso eu que sou um esquizofrênico. Porém, minha esquizofrenia é uma FRAGMENTAÇÃO INTERLIGADA, onde ocorre uma relação de causa e efeito. Todos nós temos tudo dentro de nós, inclusive um pouco de esquizofrenia - cada qual à sua peculiar maneira. Mas como não tenho certeza se sei mesmo o que é esquizofrenia - talvez alguém possa me esclarecer mais acerca -, vou parar por aqui -

Conflito humano sempre exitiu e sempre exitirá - suponho eu. Suponho pois não vivi no passado e nem viverei no futuro - digo a longo período. Vivo num presente passante, que é a base de minha interpretação da vida. Os "high techs" só vêm nos oferecer UM NOVO CENÁRIO no enredo histórico da existência -

Nesse chamado mundo fragmentado, o bom é que, talvez, só nos resta SE LANÇAR à vida -

Toda época tem seu pontos positivos e negativos. Qual é a sua postura? Criticar tal época? Apenas expô-la? Cantá-la? Condená-la? O quê? O quê? -

Por h-ora é só -

Abrassu -