quarta-feira, novembro 01, 2006

Nós, Esses Vagabundos Iluminados

Nós, Esses Vagabundos Iluminados

Gostaria de começar dizendo, que entendo o que o nosso paroquiano Farias disse em seu ultimo texto, até por que eu também estava no mesmo local, na mesma hora e sendo sujeito da mesma afronta. Só não tive o mesmo insight que ele, e não sei se foi para o bem ou para o mal ou se foi por cagaço mesmo.
O fato é que vivemos em uma cidade que presa por um desenvolvimento desigual e combinado, priorizando as grandes vias de acesso que interligam condomínios fechados que buscam auto suficiência como feudos, em detrimento dos lugares públicos, ao convívio social em espaços comuns.
Esse é fim do homem público, digo homem público não aquele que exerce alguma atividade oficial na política ou no Estado, mas sim do homem que tem uma relação identitária com o meio e o espaço (cada vez menor) público que o cerca.
Isso vem ocorrendo, devido ao que se convencionou chamar de “Não Lugar”, um sociólogo/antropólogo francês chamado Marc Augé foi o primeiro a cunhar tal termo que designa lugares que não retém nenhuma identidade, não está relacionado historicamente ao individuo que o utiliza e não transfere qualquer carga de significação, representação, e unidade simbólica para o cidadão.
Perece que vivemos em um campo de refugiados, não há mais a mínima relação identitária com alguns lugares de nossa cidade, veja por exemplo o anel viário, é apenas um local de transito, de passantes encapsulados em seus carros, não pode e nem é interessante que vejam lá as pessoas andando a pé e se relacionando umas com as outras, como um pastor pregando, ambulantes vendendo agulhas de desentupir fogão, e toda sorte de produtos que o meu amigo Rei da Vela soube reproduzir bem em sua música, que trata, contrariamente, da dimensão simbólica da rua sete de setembro.
O espaço público está sendo engolido pelo privado, o que não está sob a posse de alguém ou de um grupo não pode estar em posse do público. Em nosso país é tênue a fronteira entre o público e privado, há uma distorção histórica em que o segundo subverte o primeiro, vale a pena citar a obra seminal de Raimundo Faoro – Os Donos do Poder - em que traça a dimensão histórica dessa distorção desde a capitanias heditárias que resultou na acumulação primitiva latifundiária nas mãos de poucos( na intenção da coroa portuguesa de privatizar a colonização do Brasil), até a organização patriarcal canavieira chegando a oligarquia cafeeira todas essas organizações foram pautadas pela distorção entre o público e privado.
E nossa cidade ainda está ancorada nesse legado, as pessoas saem de seus condomínios em seus carros vão para seus trabalhos, faculdades, shoppings e o que existe ou acontece no trajeto não lhes interessa, os espaços públicos tornam-se não lugares.
Os não lugares são espaços descontextualizados no tempo, não faz sentido sua constituição física relacionado no tempo, é possível vermos o anel viário numa foto de satélite mas o fim único a que se presta é para o transito de carros, e para os citadinos que não dispõem de um automóvel, transitar por esses lugares sem um carro não faz sentido nenhum.
Ao contrário do que se pensa, a política de uso e ocupação do solo, que privilegia a construção de condomínios que são verdadeiros feudos em nossa cidade em busca da segurança de uma classe abastada, gera desigualdade espacial, e da desigualdade a segregação espacial, e o aumento dos não lugares.
É usual um culto à imagem lustrosa de nossa cidade por parte daqueles que não enxergam essa desigualdade espacial, uma beleza que me parece obscena, quando em detrimento do espaço natural, tenta-se fazer um embrulho definitivo do espaço construído num celofane, do tipo que é ostentado em vitrines de lojas de luxo. É preciso que se diga que a conquista da beleza pode também ser um violento ato político.
E esse violento ato político é a super valorização do indivíduo e sua intimidade gerando a incapacidade de produzir sentido na relação em espaços comuns, isso se dá por que super valorização da vida privada e da intimidade é uma tentativa de resolver o problema público negando o problema público, esses condomínios que são verdadeiros bunkers é a forma evidente que a classe média encontrou de negar, por exemplo, o problema da violência em nossa sociedade, exteriorizando o problema público como se ela não fizesse parte dessa sociedade.
E isso se torna premente quando se caminha à noite pela rua de São José e sentimos na pele a sensação de refugiados em campo aberto, de expropriados do espaço público, de vigiados e passiveis de punição quando se tenta inferir no público e polarizar a alteridade, o outro o mundo.
E essa consternação Farias, foi a dos beats e ainda continua sendo a nossa, vagabundos iluminados.
Falou!!

PS.: Achei dignificante e espirituoso o “bla,bla,bla”, acho que estou incomodando alguém aqui nesse blog. Não sei que é, mas pelo visto a carapuça dessa classe média abjeta serviu, por que com certeza nunca pegou dois “busão” pro Santa Inês e não faz nem idéia a onde fica a UBS mais próxima de sua casa. E ainda por cima deve ser são Paulino essa porra... A torcida do São Paulo é o curral eleitoral do PSDB... São os garrotes de engorda que ruminam o pasto verde do pensamento único da classe média!

5 comentários:

Anônimo disse...

é tudo isso aí...
Farias

Máscaras Óbvias disse...

Os petistas, e o que se chama de "povo" - ê palavra esta desgastada!... -, são santinhos, né?

"O ser humano é inviável.".
( Millôr Fernandes )

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marcio disse...

Não precisa assinar nem postar no dia certo. A veemência, contundência, referências e ortografia identificam o autor irmão. forte e colocado!

Andressa Capucci disse...

consigo ver vc falando tudo isso. ah, saudade de ter essa presença na (sua) inconstante rotina.

Maria disse...

Nossa...qta agressão!!
Sugiro, para acalmar seu coração, que vc vá sentar sua bundinha de veludo no Go-Go da Ema! No Coronel não pq a "densidade" masculina anda elevada.
Mas a proximidade dos burgos porerá lhe sufocar...agora o preço, esse é o mesmo, tanto na intensa área urbana dita Centro, qto na Vila Adyana, que carrega o nome vila de tempos antigos, antes da chegada desse tal de desenvolvimento.