sexta-feira, julho 24, 2009

O Aleph


O Aleph é uma letra do alfabeto hebraico que tem como um dos significados a noção de começo, início; tem o seu correspondente no grego o alfa, ou a letra a em nosso alfabeto. Mas o Aleph neste caso, é nome de um conto de Jorge Luis Borges.
Depois da Biblioteca de Babel e os contos da História Universal da Infâmia, em que o autor nos apresenta através de seu realismo mágico a natureza de uma biblioteca infinita e a semiotização do espaço que um colégio de cartógrafos criou, a ponto da representação deste ser tão fidedigna que as pessoas poderiam morar no mapa, construir casa e viadutos, e dota-lo de uma relação sócio-espacial que em muitos lugares não se tem, criando uma tensão em que a representação assume uma hiperealidade frente à coisa representada.
A conotação do homem tardo-moderno(que muitos preferem chamar de pós-moderno) nesses contos é patente e perplexa, o que não é diferente em o Aleph. No conto, o Aleph, é um ponto dentro do porão de uma casa que está preste a ser demolida, por este ponto que fica escondido na casa é possível ver todos os pontos do universo ao mesmo tempo, característica típica do realismo mágico que coloca o espaço como uma natureza plástica que se deforma frente ao tempo, típico de nossa modernidade tardia.
Posto dessa maneira, quem ainda acredita que todo o real é racional, ou vice-versa? Ou que a racionalidade abarque a totalidade da natureza, ou mesmo que a realidade seja um ente de razão? E como o espaço, tido pela modernidade como uma entidade real, objetiva e empírica é entendido frente à racionalização da modernidade tardia?
Isso traz a baila um outro aspecto do espaço – a paisagem. A modernidade construiu e institui a noção de paisagem-objeto, considerada superior por ter um tom cientificista que a denominava de território, deram-lhe uma projeção sobre o meio físico, de raiz ilustrada e cuja distância e ausência de comunicação e sentido para com observador era ainda mais evidente – o território é sempre o meio físico visto de um ponto de vista superior, em planta, sob a vista de pássaro, suficientemente longe para poder abstraí-lo, tornando-o silencioso, mudo, para poder utilizá-lo para interesses alheios.
"O meu lugar é onde não estou", já dizia Pessoa, essa tensão de se buscar outros lugares é utópica, que coincidentemente, a etimologia da palavra utopia é a negação do lugar, desterro e afastamento. Isso cabe na análise da paisagem, por que ela nunca está em primeiro plano, pois ela é o que se vê de longe, precisamos nos distanciar para observa-la, a paisagem é o lugar onde não estamos.
É preciso que se mude essa visão que se tem de paisagem, como se fosse apenas objeto, pois ela nos constrói, nos escuta e nos vê. Estamos dentro da paisagem e somos também ela própria; carregamo-la dentro de nós pela topofilia. Topos = lugar Filia = amor.
Precisamos dar o salto fenomenológico para superar a cisão, a dicotomia entre sujeito e objeto, entre o homem e seu meio físico, e enxerga-los como apenas um. A fenomenologia através da Gestalt poderá integrar na forma, o homem e a paisagem, pois a percepção de um altera o valor do outro.
Precisamos é de mais Vale do Pati – Guiné, mas também de Borges, e alegorias de Aleph para compreendermos melhor a condição“ liquida” do espaço dentro de nossa modernidade tardia.

Foto: Robô Spirit em Marte manipulando uma rocha

2 comentários:

Anônimo disse...

Fantástico...Mais uma vez o texto é surpreendente ,abordando um tema metafísico nos leva a um plano linguístico idílico,sobremaneira instigante...E viva Thomas Morus!!
Um abraço irmão.
Ismael Luz de vela.

Nelinho 10 disse...

sendo parte do meio, e não estando a parte dele, fazemo-nos paisagem, esta composta de elementos diversos (cores, sons, cheiros, atmosferas) que quando topofílicos nos remetem lembranças, boas ou ruins.
Observando pelo campo dos planos da paisagem e levando em consideração a relativa distorção espacial que ESSE plano cartesiano bidimensional nos proporciona creio que a liquidez do espaço seja hoje (para mim) a problemática que merece maior investigação. Ora, se o tempo é relativo como um líquido (ou seja adequável) ele é perceptível como o líquido e só por isso é relativo, onde o que determina seu significado é ponto de vista, contudo observar o espaço dentro dessa volatilidade Asistêmica (que foge do plano bidimensional) e partir para terceiras dimensões é um desafio metafísico!