quinta-feira, novembro 12, 2009

Do Letramento dos Meninos (ou A Maior Caverna do Mundo)


Foto: Henri Cartier Bresson
O mundo para aqueles meninos era realmente vasto, ainda mais pela maneira que eles encontraram para se comunicar, transmitir e guardar informações sobre suas brincadeiras, seus sonhos, medos, receios, ou tudo aquilo que imaginavam ser real. Para tanto, é claro, faziam uso de sua titubeante oralidade, da capacidade de se comunicarem pelos movimentos, pelo corpo, da dança, dos grunhidos, mas isso limitava em muito a quantidade de sonhos e brincadeiras que precisavam ser transmitidos e guardados, para que não fossem perdidos ou esquecidos pelas outras crianças.
Foi quando um dentre eles teve a idéia de se construir uma caverna, que fosse providencial para que se abrigassem em dias de chuva ou em outras intempéries, mas também pudesse ser muito bem utilizada em toda sua extensão para o desenho. Resolveram pela construção da caverna para que pudessem desenhar em suas paredes e representar a totalidade do mundo que os cercavam. Os desenhos eram feitos apenas para se representa diretamente aquilo mesmo que se queria expressar, de maneira bem tosca assim como pinturas rupestres, dentro de uma caverna. Desenhavam cavalos, bois, sol, a bicicleta, a bola, a montanha, o gol e etc...Os desenhos atendiam apenas à sua significação, à coisa representada.
Porém com o passar do tempo, perceberam que mesmo a caverna servindo perfeitamente como abrigo, as suas paredes não abarcavam mais tanta significação, tanto gol, tanta bicicleta, tantas partidas de vídeo game, tanta brincadeira e até mesmo o próprio sonho que alimentava de possibilidade o interior da caverna já não cabia mais.
Mesmo sendo o absurdo a maior virtude da caverna, as suas paredes não eram permeáveis aos sonhos e fatalmente tiveram que lançar mão de outro plano. Tiveram a idéia de racionalizar o espaço na caverna fazendo desenhos menores, mas uma das crianças logo percebeu que não era uma boa saída, pois teriam que diminuir cada vez mais os desenhos a ponto de não o enxergarem mais.
Resolveram então, ao invés de desenhar algo que representasse somente a sua significação; como o desenho de um boi representa um boi, de um gol é um gol, o desenho da árvore representa tão somente a ela mesma! Pensaram em fazer desenhos que pudessem representar várias coisas ao mesmo tempo, dessa maneira poderiam contar várias histórias e brincadeiras dentro de um mesmo desenho. Criaram então estranhos ideogramas, representações gráficas jamais vistas, desenhos absurdos, até mesmo um ponto trazia consigo uma profusão de significados.
A idéia deu tão certo que conseguiram representar a totalidade do mundo, de diversas formas, várias vezes a ponto de criar outro mundo, com outro sol, outro mar e outras cavernas e começaram a viver nele. Hoje os espeleólogos, vez por outra encontram alguns desenhos que datam dos primórdios da infância, sem muito sentido para olhares menos treinados, já que os desenhos são extremamente preguiçosos pois necessitam de quem os vêem também faça uma parte do trabalho, a exaustiva decodificação. Mas todos, todos os desenhos sem exceção eram unânimes em indicar que a Terra era realmente diferente do que é hoje.
Só não foi encontrado o fóssil dos meninos, talvez porque estejam apenas perdidos, ou ainda continuam a desenhar. Porém, se for verdade que ainda desenham não se sabe em qual parte da caverna e nem com que tipo de grafia ou ilusório alfabeto.

16 comentários:

Luciano Machado disse...

É assim... Nos divertimos com o habitat.
Ontem nas cavernas. Hoje por esta tela.
Feliz narrativa.

Maria, Simplesmente disse...

Me lembrei de Platão,"Simulacro and Simulação" e é por isso que o senhor sempre me emociona...

Segue um link divertido: http://www.monica.com.br/comics/piteco/welcome.htm

Anônimo disse...

você não pode sair não...não sei de onde tirou isso e tá muito bão...continuemos o barco a 20 nós...inté. S. Farias

Luciana Bertarelli disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hemerson disse...

Realmente, como bem disse a Maria, impossível não remetermos a Platão e tenho por mim que vc pensou nisso meu caro.Mas vc como grande antropófogo alimentou disto e gerou um novo signo a ser pensado.
Parabéns.
Hemerson

Marcio disse...

precisei ler duas vezes pra entender do que vc tava falando. e não sei se realmente entedi. mas a metáfora da infancia da História (lembro da aula de história da D. Neusa " a História começou com a escrita") com a infancia humana e sua relação com o desenho é perfeita. a criança usa o desenho para siginificar e organizar o mundo que está prestes a conhecer, e nesse processo a fantasia é tão importante e presente quando a realidade.

Alê Marques disse...

Exato, foi isso mesmo!

Alê Marques disse...

Foi vendo o Gabriel que fiz essa, o signo e a infância é algo que beira a fantasia!

Anônimo disse...

Cadê o puxa saco
que adora dar pitaco?

Quando o assunto
não é bola, nem TV
ele entra embaixo da cama
pra tentar se esconder

Existem alguns adjetivos
que ele adora empregar
ele os usa todo dia
na hora de comentar
quando acabam da sua lista
ele corre pra estudar

André disse...

Anônimo = Nada = Merda nenhuma!

Belo texto sim coronel,

Num futuro bem longinquo, existiram rastros do Heitor, filho do Farias, e sua prancha "Plastica", adaptada a geografia do local onde a mesma era usada.
Caberá vc acompanhar seu filho em história parecida com esta que sera desvendada por uma tecnologia de maquinas(tipo matrix ou terminator).
Uma certeza é que lá, daqui a uns 2000 anos , a terra(se existir ainda...)será muito, muito diferente do que é hoje.

Bom texto!

Anônimo disse...

Era melhor ter continuado escondido debaixo da cama.

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Marcio disse...

Eu já disse o que eu acho sobre comentário anônimo... (apesar dessa série em versinho até que tá bonitinha)

Anônimo disse...

brigádo marcio

Anônimo disse...

a do plástico foi demais companheiro...coronel a foto é digna de quarto de criança hein...bresson na veia, parece até um caleidoscópio, caverna, p&b, crianças, sorrisos, bem massa. inté. S.F.

Nilson Ares disse...

O desenho é nossa interface.
A grafia é desenho, o som é desenho, a voz é desenho, aquelas curvas daquela fêmea são desenhos...
A gente vive a desenhar...
Desenhando a existência.
Viver é desenhar sem borracha! (Millor)

Anônimo disse...

Que bom!!