terça-feira, agosto 09, 2011

Círculos (III final)

Eles chamavam aquilo de sumo.

O resto da cerveja que ficava no fundo da garrafa; quente.

Quando o copo descolou da sua boca, o gosto implacável como o vento:

Tristeza, fúria, frustração, cocaína.

Havia na toalha da mesa círculos molhados feitos pelo fundo do copo.

Até ali, ele sabia, as coisas eram ligadas. Tudo fazia sentido.

- Sou o dasmi.

- hã?

- dasmi, porra! Midas ao contrário. Sou isso aí. Tudo que eu toco fode.

O amigo coça a barba.

A luz do bar era amarela. Em cima da mesa um lustre de sisal.

- como assim?

- nunca quis prisão. Mas sempre fui preso. Queria fazer o que quisesse, até poderia se tivesse grana, mas a grana não te deixa fazer o que quiser. Ou até deixa e eu não sei como.

- ãrrã. (Único som que podia emitir sem que o amigo percebesse que não havia entendido nada.)

- deixa eu te contar uma coisa: estava voltando da praia. Era feriado lá e aproveitei pra vir pra casa. Muito trânsito, com ajuda da chuva e da penumbra. Meu estômago embrulhado tingia de cores ainda piores a situação. Aquela fila enorme com suas lanternas acesas pareciam pontas de cigarro. Os escapamentos - bocas jogando fumaça em mim. Paranóia. De longe eu vi um cara tentando cruzar a pista. Era incrível como as pessoas continuariam paradas, como estavam, se deixassem espaço para ele passar. Foram muitos minutos assim. Quando chegou minha vez deixei espaço entre o carro da frente e eu.

Era hora de mais um gole, mas não tinha.

- e aí?

- O trânsito ocupava só um sentido. O cara passou por mim, olhou no meu olho e acenou com a cabeça, me cumprimentando. Foi nessa hora o meu toque. Ele se esqueceu de olhar o outro lado. Vinha uma moto. Barulho de lenha queimando; o corpo no chão. De braços abertos como se abraçasse o mundo.

9 comentários:

Anônimo disse...

Tinha um comentário aqui, e foi removido.

Porque?

Quero saber o que acham do texto, inclusive os que não gostaram.

SM

Anônimo disse...

pelo numero de comentarios acho que pra ter uma idea do que o pessoal achou... porcaria.

Anônimo disse...

rsrsrsrs

Anônimo disse...

Tenho que concordar com o anônimo acima.

SM

Anônimo disse...

esse pedaço:
"Quando o copo descolou da sua boca, o gosto implacável como o vento:

Tristeza, fúria, frustração, cocaína." me lembrou um poema que escrevinhei há tempos...

Saudade do seu vestido rodado
Antigamente ele era o mais usado
Hoje, com tudo mudado,
Esse modelo é passado

Te cruzo na rua e quase não reconheço
De tubinho moderno, com tampa de adereço
O que muda muito pouco
É somente seu endereço

De encontros esporádicos
Já são quase todo sábado
E da alegria que brindávamos
Resta apenas o olho estalado





Eae?

Anônimo disse...

Um pouco assimétrico e confuso.

O que quis dizer? conseguiu?

Tem outros seus melhores.

abs


PrataPreta

Anônimo disse...

Quero descobrir quem é o filho da puta do anônimo que não dá a cara para bater. Aliás quero chutá-lo e ver seu olhos pulalem para fora . Anônimo bundão,cagão, medroso.

Anônimo disse...

PrataPreta,

Vou explicar o poeminha (sem pretensão) pra voce, ele trata da minha relação com a cocaina:

Saudade do seu vestido rodado (alusão ao saquinho onde vinha a coca antigamente)
Antigamente ele era o mais usado
Hoje, com tudo mudado,
Esse modelo é passado

Te cruzo na rua e quase não reconheço (por causa da nova embalagem)
De tubinho moderno, com tampa de adereço (o famoso "pino")
O que muda muito pouco
É somente seu endereço (o endereço é sempre a boca de fumo)

De encontros esporádicos (usava de vez em nunca)
Já são quase todo sábado (rotina)
E da alegria que brindávamos (barato da droga)
Resta apenas o olho estalado (deprê)

tomara que entendam agora.

Nervo Ótico disse...

Obrigado pelo didatismo, caro anônimo!!
Pelo visto gostava da marvada hein?? Faixa preta no caratê boliviano!