segunda-feira, agosto 27, 2007

dito do 608


Mineiro radicado paulista, católico apostólico romano, seu Toninho como era chamado pela vizinhança sofria de perturbações auditivas fazendo dele um merecedor de atenção especial.
De família pequena, seu Toninho mora num sobrado no pé do morro em um beco sem saída com a esposa e filhas. Freqüentador esporádico dos bares da vida e assíduo da igreja, o alegre e descontraído homem defende de unhas e dentes que “todo homem nasce católico”, postura essa que quando toma seus pileques dá margem à família para destratá-lo com o mesmo sermão que ele pratica dentro da sua igreja.
Num certo dia, o telefone não pára de tocar no bonito sobrado onde a família vive. Na maioria das vezes a pessoa procurada é Quitéria, moça bonita, solteira, trinta e três anos, olhos castanhos, cabelos pretos, pele morena, elegante e sensual. Formada em engenharia agrônoma ela aplica seus conhecimentos na sua empresa de consultoria.
Quitéria tem o péssimo hábito de corrigir seu pai em tudo; implica com sua maneira de falar, se expressar e até mesmo por ser surdo. O jeito rústico às vezes ignorante dele faz se passar por bobo alegre e isso a incomoda profundamente.
Com sua simplicidade e características pessoais incluindo atitudes positivas e defeitos, seu Toninho fez da sua família pessoas de bem, distribuindo responsabilidade, carinho e afeto da forma que melhor lhe ensinaram.
Devido sua deficiência auditiva seu Toninho comete alguns enganos que chegariam a ser cômicos se não fossem trágicos. Imagine um surdo acompanhando pelo rádio ou pela tevê um campeonato de futebol acompanhado de ansiedade pelo resultado do seu time favorito; recebendo notícias trágicas ou penetrando em conversa alheia. Ele se atrapalha e muita vez deturpa as informações.
Seu Toninho é um católico roxo como dizem no popular e esses tipos de diversões é considerado como vícios e não são bem vistas pela comunidade cristã. Isso inconscientemente, maltrata ele, porque não pode nem comemorar as vitórias com os amigos num bar.
Mas mal sabe ele que pensar e fazer escolhas são um direito de todos. É preciso ter coragem para tomar a atitude de pensar, pois podemos nos deparar com respostas que podem nos levar a insegurança, tristeza, alegria e; todas essas emoções para alguns são melhores adormecidas ou apenas contidas dentro de si, desta forma fica mais fácil fazer alguém feliz sem se importar consigo mesmo.
A vida muitas vezes é levada com a barriga como dizem, será que é porque ela não pensa?
O beco faz parte da vida da família que nem o percebia devido à implicância com o modesto e atrapalhado pai.
Enquanto isso, a vida corre solta lá no pé do morro. Choro de criança não se sabe se de fome, dor ou manha, briga de casal – socos, gritos, cadeiras e copos que voam gente dançando com música arrebentando os decibéis suportáveis por todos os seres terrestres, cigarras no pé de ameixa anunciando o calor quente da estação, bêbadas vivendo suas mágoas, garotos drogados pelas calçadas, a repetição constante do papagaio do vizinho...
A chuva de verão cai forte e a energia elétrica é interrompida pela brusca escuridão daquele beco. É gente gritando, a criançada em polvorosa e os pais preocupados com seus filhos a mercê da situação.
Quanto mais o tempo passa, o vento e a chuva aumentam causando danos inestimáveis debaixo daquele céu negro da cidade exatamente no bairro São Judas na Rua Altamiro de Jesus onde depois de horas de angústia aparece o seu Toninho dentro de uma bermuda, camisa cavada, bota sete léguas, chapéu de palha, um cigarro meio molhado entre os dentes segurando um guarda-chuva quebrado. Ele está embriagado de impaciência no ponto de ônibus próximo do beco a espera de Quitéria que partiu a São Paulo de manhã e ainda não voltou.
Depois de horas e nada de Quitéria aparecer, o velho e bom pai volta para casa tensa e cabisbaixa. No escuro ele tateia pela casa até encontrar uma cadeira, se acomoda e espera pela boa notícia. Não há mais nada que ele possa fazer.
Trim-trim-trim (toca o telefone).
De um salto seu Toninho atende o chamado:
- Quem é você?
Do outro lado dos fios e cabos de fibra ótica responde o caminhoneiro que estava parado na Via
Dutra para pedir socorro:
- Alô Toninho? Alô Tonho? É o Dito do 608, tudo bem?
- O fio como é que ocê ta? Bem?
- Olha o caminhão quebrou e preciso da sua ajuda.
- O que? Não estou escutando nada.
Percebendo que o pai está tendo dificuldade de entendimento do telefonema do seu quarto a filha resolve pegar a linha na extensão e diz:
- Alô pai?
- Filha, minha filha onde ocê ta?
- Pai, tô aqui em cima.
- Em cima onde? Quem é esse homem, esse barulho?
- Alô Maria, ainda bem que você está aí! disse o caminhoneiro.
- Não, eu não sou a Maria, sou a Quitéria e isso é um engano, espere um momento.
Quitéria enfurecida desce as escadas da casa abraça o pai pelas costas dá-lhe um beijo e diz:
- Pai, estou aqui!
- Nossa filha! Como você chegou rápido!
- Espere um momento pai.
Ela pegou o telefone explicou ao Dito do 608 que seu pai também se chama Toninho mas que não era o Toninho da expedição que ele procurava.
O homem entendeu, desligou e Quitéria então foi explicar ao pai que havia chegado em casa há horas e estava descansando em seu quarto quando a chuva começou e a luz apagou. Ela aproveitou e reforçou ao pai o que é uma extensão telefônica e para que serve.
Dentro da sua ingenuidade e ternura paterna seu Toninho só soube abraçar a filha e agradecer a Deus por tê-la protegido da intempérie.

8 comentários:

Tito, O Frei disse...

Singelo e profundo.

Chassi de Grilo O>- disse...

Arabesco e assimétrico.

Anônimo disse...

É....AUTO-AUTOPSIANTE...

Anônimo disse...

cruz credo...

Anônimo disse...

é...no mínimo esquisofrênico

Anônimo disse...

Quitéria, não é a égua da Revolução dos Bichos, do Orwell?

Anônimo disse...

Charles, como você já percebeu existem alguns anônimos comentando o blog agora, arrisco que seja uma vagabunda - a Rose...
Mas vamos ao texto: me lembro desta história, cara, e foi muito legal relembrá-la.
Velhos e ótimos tempos!


Nilson Ares

Anônimo disse...

Um Anônimo eu já descobri, ele foi expulso e fá do roger Cênico