sábado, setembro 01, 2007

Gol Anuldo

Há tempos não me sentia assim. Pasmo, a mercê do outro que não eu mesmo.
Às vezes subdivido-me. São apenas vinte e cinco anos e o peso de três mundos nas costas. No decorrer desses anos o peso tem aumentado e parece deslocar, ou melhor, esfacelar minhas vértebras. O suor não é mais o mesmo. Escorre internamente, gelando a espinha e ensopando a alma.
O ânimo se foi há muito. Meus pés embotados de poeira parecem ter caminhado do sul do Chile a cabeceira da Venezuela. Tenho enfrentado muitos Atacamas.Vejo dor em minhas empreitadas sem rumo. Caminho para um futuro sem muita esperança, afinal o que se pode esperar de um sujeito em minha situação se não o mais belo e irônico fracasso? Já basta, pouparei todos de minhas mazelas e irei direto ao assunto.
Faz cerca de um mês que não sou mais o mesmo. Na verdade nunca fui eu mesmo, raras exceções de embriagues ou efeito de felicidade vazia.
Ela tem lindos olhos, além de um andar calmo e confortante. Gosto de vê-la passar. Sua serenidade me transporta para um mundo que eu já havia esquecido que existe. O mundo dos bobos, dos palhaços que riem da própria desgraça, pois tiram dela seu sustento e sua alegria. O fracasso peculiar é o combustível vital para os habitantes desse fantasioso mundo onde a miséria e os problemas cotidianos não existem
Bom, voltemos ao foco: A retina esverdeada que parece dar luz ao espectro.
Encanta-me sua voz, pouco rouca de nascença. Tem apenas dezoito anos e já me faz sentir coisas em que eu não acreditava mais.
Tivemos nosso primeiro contato no âmbito sombrio do escritório. Alberto nos apresentou:
– Beatriz, falou em alto e bom tom, mas foi como se sussurrasse em meus ouvidos.
Olhei para o chão. Não tive coragem de olhá-la nos olhos. Nem me lembro se me apresentei. Também que diferença faria? Era só mais um Jarbas que ela iria esquecer assim que o próximo Maciel ou mesmo a Ester proferisse diante de tanta beleza, as suas graças, sem tempero nenhum.
Colocaram-na em uma mesa enfrente a minha. Seria ótimo poder vê-la o tempo todo. Claro que entre nós havia mais quatro ou cinco mesas, no entanto, no horário do almoço de Rita eu podia ver por uns quarenta longos minutos os finos e úmidos fios de sua nuca ruiva.
Uma semana se passou e ela vinha cada dia mais bela. Elevava meus pensamentos ao ar, de tal forma que o locomovia aos haréns mais luxuosos da Pérsia antiga.
– Jarbas?! É Jarbas não é? – falou debruçada sobre minha mesa de mogno surrada pelos anos de mal uso de mim e de tantos outros funcionários públicos.
Seu decote modesto ressaltava as sardas do colo perturbante a assimetricamente perfeito.
– Sim sou Jarbas. Você é nova aqui? – fiz-me de desentendido.
– Soube que você mora na Lapa não é? – perguntaram aqueles lábios incandescentes.
– Sim, precisa de algo de lá – respondi firme e quase sem tremer – quase sem.
– Na verdade, meu namorado mora lá e gostaria que você me desse uma carona, caso não for incomodar. Disse.
– Claro! – respondi entusiasmado, porém sem transparecer o que sentia – me procure no final da tarde.
Agradeceu-me e foi.
Seu andar era tão... tão... que passei a gostar do sujeito – um tal de Francisco, vinte e cinco anos, engenheiro, bem de vida pra idade que tinha – tanto que torcia para que ela o fosse visitar todos os dias.
Naquela semana ela foi até lá três vezes. Seus olhos não saiam de mim. Confesso que senti um certo desconforto, mas era tão bom que logo isso se transformou em um admirável sentimento de desejo. Nada fiz nesses dias além de responder às perguntas que ela me fazia e rir de nossas coincidências clichês.
Voltei a malhar na segunda-feira seguinte. Fiquei sem comer. Fiz regime. Devia estar bem fisicamente e comigo mesmo, afinal algo poderia acontecer, e eu devia estar preparado. Foi assim que a esperança passou a figurar em meus pensamentos. Acreditava em gafanhotos verdes.
Numa quarta chuvosa, daquela que já era a terceira semana de nosso convívio, parei o carro na esquina da casa de seu namorado. Ela me pediu para fazer assim sempre. Não ficava bem para uma moça descer do carro de um rapaz para se encontrar com outro. Achava melhor evitar os comentários.
Não desceu do carro como sempre fez. Perguntou-me
– Você está com pressa?
– Um pouco, quer dizer, não sei, por quê? – respondi
– Podemos sair daqui? Gostaria de lhe contar algo que está me sufocando há dias. – disse.
Nunca a chave foi tão leve no contato. Os ruídos das borrachas gastas desapareceram e eu guiei meu Porche 911 travestido em meu Passat 75, verde abacate. Horrível.
Paramos no cais. O dia não estava propicio a admirar o pôr-do-sol e por isso o local estava deserto.
– Jarbas – começou a falar me olhando fixamente nos olhos – Não sei se devia te dizer isso assim, afinal nos conhecemos a pouquíssimo tempo, mas como acho que nosso sentimento é recíproco e por isso vou falar. Não consigo mais apenas te olhar.
Foram apenas trinta e quatro palavras compostas de cento e cinqüenta e duas letras, pontuadas com duas vírgulas e três pontos, precedidos de um beijo calmo, úmido e estonteante. Uma pausa de mil compassos.
O coração não cabia no peito. As mãos frias suavam frio. O estômago revirou causando uma sensação deliciosa, misto de medo e surpresa. Não disse nada, mas me lembro bem de seu pedido de desculpas depois que o momento mágico acabou.
Dali em diante, nos conhecemos, nos amamos em segredo e nos beijamos – e apenas nos beijamos – sem pudor.
Fizemos planos precoces. Inexperiente, larguei tudo. Minhas idéias, meus sonhos, minhas paixões não correspondidas. Meu relacionamento de cinco anos com Carmem.
Ela pediu um tempo para se ajeitar, se resolver também. Foram as duas semanas mais longas e atribuladas e mais curtas e pacíficas de minha vida. Longas pela espera de sua resposta, pelo sofrimento de minha separação, pelo conflito interno dessa paixão com meus ideais. Curtas pelos beijos no final do expediente divididos com os encontros amorosos dela com Francisco, pela vontade insaciável de vê-la e de viver.
Ontem, no fim do dia pude presenciá-la chorando pela primeira vez. No caminho para o cais, com vista para o Corcovado não conversamos por uns eternos vinte minutos. Apenas a olhei. Tinha intimidade suficiente para tocar seus seios, mas não para amparar seu pranto. Enfim veio a notícia.
A voz mais rouca ainda, trêmula, dava um tom triste e desesperador a conversa. Como em nosso primeiro beijo foi sincera, simples e direta:
– Desculpe, mas acabou! Não queria que acontecesse, mas não posso mais ficar contigo. Estou grávida. Descobri isso hoje cedo. Não sabia como te dizer. Procurei palavras o dia inteiro. Nada fiz no escritório, pensando em como te dar essa notícia. Francisco será pai e você a mais pura expressão de minha vontade e desejo contidos. – selou com um beijo o que disse. Frio e úmido de lágrimas.
Saiu do carro desvairada, aos prantos, mas seu andar, ainda que desordenado, me transportava para aquela atmosfera calma e limpa de seus beijos. Não tinha acreditado ainda. Não queria acreditar. E meus ideais? Meus compromissos? E Carmem?
Desci do carro de maneira a seguí-la, me explicar, lhe entender, sei lá, fazer algo que a impedisse de ir. Nada fiz. Apenas debrucei sobre o capô do carro.
Eu, o mar. O emadeiramento do cais, a maresia, o Cristo...
Era tarde, em nada podia pensar, além das palavras de Aldir Blanc martelando minha cabeça encorpadas na voz de João Bosco: “A alegria de quem está apaixonado, é como a falsa euforia de um gol anulado”.

4 comentários:

Tito, O Frei disse...

Meu caro,

muito bom. Lembrou me Noites Brancas de escritor Fiódor Dostoiévski.

Anônimo disse...

nossa,finalmente nos livramos daquelas poesias"Terriveis"que pintavam fim de semana aqui!belo texto!da até vontade de ja ter acontecido isso comigo.Ter vivido uma paixão tão bela e espontanea,apesar de previsivelmente frustrada,em um Rio de Janeiro preto e branco,como diz o autor.
ex-Frei

Anônimo disse...

Gostei da evolução da escrita.

Lembra bastante Aldir Branco, em seu cenário carioca, desencontros, frustações e fantasias, ainda mais quando ele fala, "que o apelido dela é o mesmo que o meu"

abraços

Rei da Vela

Anônimo disse...

É Noites Brancas
Coronel