sexta-feira, setembro 05, 2008

Cobra cega




Tenho um problema em mãos: uma cobra cascavel com catarata, o cristalino dela esta todo opaco. Ela é grande, gorda e linda, mas não consegue se alimentar sozinha.
Ela vive numa caixa há quase um ano, uma caixa com papelão no fundo e um pote de água. Quando eu a tiro da caixa com o gancho ela se debate, não consegue me atacar nem se equilibrar. Coloco o rato na frente dela e ela tenta dar o bote, mas ataca o ar. Eu entro na quarentena e todas as outras cascavéis tocam o guizo compulsivamente numa tentativa de me amedrontar e ela fica lá, com seus olhos de vidro tentando olhar pelo vidro.
Acho que vou ter que sacrifica-la, mas cada dia que passa me apego mais a ela.
Ontem tentei novamente alimentá-la naturalmente. Deixei um ratinho dentro da caixa dela durante a noite. Hoje de manhã o rato estava dormindo enrolado nela, se aquecendo. Quando fui tirar o rato de dentro da caixa passei a mão na cascavel, um carinho, ela não ficou nervosa, mas ficou com medo, tentou fugir, batendo a cara no fundo da caixa.
Gostaria de tirar ela da caixa e colocar ela no viveiro antes de sacrificá-la, para ela sentir as pedras no dorso antes de ir.

10 comentários:

Alexandre disse...

Definitivamente não sei o que dizer!À Sangue Frio, típico pecilotérmico esse seu escrito, é isso o que passaou pela minha cabeça.
Acho que nem Truman Capote narraria a lancinante trajetória de um ente em vias de seu óbito dessa maneira.
O animal reduzido à um espaço mínimo, há quase um ano, em que só se faz nutrir uma debilidae mórbida.
Onde a opacidade de seu cristalino empresta sentido metafórico à realidae vivida entre o observador e o animal, por ambos não saberem qual será próximo passo, na tênue linha entre a objetividae científica do animal vivo e seu cansaço pavloviano, desesperançado, resignado como só
Que pelo menos as pedras lhe sejam quentes..em seu dorso "A Sangue frio".

Alexandre disse...

Magé, eu tava pensando se dava pra instalar um sensor que captasse algum comprimento de onda no ifra-vermelho distante, no termal, pra essa cascavel.A maioria dos satélites têm e fica jóia a imagem, e ela não erraria o bote!

Maria, Simplesmente disse...

Alexandre, pois é, como detectar se a fosseta loreal dela não esta funcionando como os olhos? E o órgão de Jacobson tbém não funciona mais? Será que a união de TODOS os órgãos do sentido fazem com que ela perceba o mundo? A falta de um deles a debilita completamente? Cobras envelhecem como humanos mas a correção que nós fazemos na ausencia de algum sentido não é feita por cobras?

Nelinho 10 disse...

As pedras no dorso é o que resta, pra ter ao menos uma forma sensorial de perceber o natural a tanto a ela negado pelo bem da pesquisa. Também é o que resta a você fazer pra se sentir melhor diante dessa dicotomia de assustar o bicho com seu toque tão humano e nesse caso irônicamente ameaçador.

Coitado do bicho. Seria sua cegueira ensaiada?

Anônimo disse...

O que acha de sacifica-la enrolada dentro de uma garrafa vazia , enchendo a de cachaça?com certeza correigionarios daqui escolheriam esse fim com a mesma vontade de saborear a "nobritude" que tera ao seu dispor após isso.

Mainardi

Maria, Simplesmente disse...

Nelinho, o que me chamou mais atenção nisso tudo foi o medo do meu toque...

Mainardi, infelizmente pra todos aqui e felizmente pra mim, o IBAMA jamais permitiria tal ato de transformar cobra em caçacha. Eles apenas permitem desmatamentos, plantações de eucalipto, posse de animais exóticos para pessoas com dinheiro, etc, etc... No máximo consigo colocar a moça/cobra, depois de morta, no formol, mas aí seria uma bebida apenas para sogras.

Nilson Ares disse...

Não sou cobra, sou humano
Embora às vezes, pareça ter olhos de vidro como os dela, e pareça estar preso a uma caixa.
De olhos vazios neste mundo-caixa, buscando o tempo todo a misericórdia de deus para "um que seja" breve passeio fora dele.
Para sentir então os pés no chão
E suspirar oprimido...
E suspirar oprimido...

Belo texto!

Nelinho 10 disse...

mas e aí, que fim levou a serpente?

Maria, Simplesmente disse...

Coloquei ela num viveiro de pedras. Em dia de chuva coloco ela na casinha, em dia de sol coloco ela no sol.
Mas a cada dia que passa ela fica mais fraca e passiva, desconfio até que ela me espera de manhã.
Camara de gás éter será o fim dela.
Difícil...

Maria, Simplesmente disse...

Pra quem ficou em duvida, a cobra na foto é ela.