terça-feira, outubro 28, 2008

Tristeza sem ponto final

Andava vazio, como aquela tristeza de fim de missa dominical, no instante em que o juiz apitava o fim do jogo no rádio, no fundo do quintal, chiando e pegando mal, diante da indiferença das galinhas sonolentas depois das seis, acomodadas em puleiros hipnotizadas pelo soar do sino da igreja matriz espalhando ave- marias pelos cantos, seguindo fiéis mergulhados no silêncio do calçamento do paralelepípedo reluzindo as primeiras luzes dos postes acendendo e anunciando a noite pela avenida afora temporariamente absorta, estática, sem vazão, nem destino a não ser o do retorno para o lar, de portas abertas e cozinhas aflitas com panelas ávidas por enquentar a macarronada, o arroz, o frango, o feijão, e a salada que restaram do almoço, daquela casa cheia de parentes, cunhados, primas, tios, tias, namoradas, noivas e mulheres que não existem mais, a não nas fotografias que a instante ainda guarda imparcial, ali na sala, e que mesmo estando no centro não diz nada, apenas ostenta a televisão desligada, escutando a conversa fiada dos que falam mal do vizinho, do prefeito, do patrão, e dos que falam somente por educação enquanto a cerveja géla, dispensando atenção de araque às bobeiras das crianças, às verdades dos anciãos, que reclamam da nova dor, da vida, de tudo que era para ser e não foi, de tudo que já foi, do remédio que não tem mais efeito, da dor do passar do tempo que só vai, que vai dar de encontro com uma tristeza tamanha de fim de missa dominical, uma tristeza sem ponto final.

Nilson Ares
(para James Joyce, sem pretensão)

6 comentários:

Anônimo disse...

É meu caro, pude sentir a tarde de domingo da minha infância.

Tito

Nilson Ares disse...

Caro Hemerson,

Você captou fragmentos do fim do domingo da minha infância.

Valeu!

Maria, Simplesmente disse...

É de dar um vazio no peito ... uma sensação de não tem fim ... olhar pela janela e não querer ver.

La Nave Va disse...

putz SArsão, mandou muito bem! melancolia sem refresco

Nelinho 10 disse...

Todos nós temos figuras na infância que causam medo. O mostro do Ultraman, o Satangoz do Jaspion, enfim todos temos.
Eu nunca tive um personagem, físico... sempre tive medo do domingo, lá pelas seis da tarde, quando acabava o jogo do corinthians, o Faustão (talvez esse figura física do meu medo dominical) começava a falar... estava tudo perdido. A segunda vinha em passos largos... e eu não queria

Anônimo disse...

tem até uma síndrome com o nome de "terror pós-fantástico" huhuha..huhuha...é fantástico...
Me lembro que domingo era meio chato pois tinha que ir a missa, ontem rezei para s.josé na matriz e pedi para que meus domingos sejam sem depressão e possa tomar banhos de mangueira com meus amigos...abraços Sarsa!
S. Farias