segunda-feira, novembro 30, 2009

Caldeirão Antropofágico





O movimento batizado Tropicália sintetizou todas correntes sonoras, introduziu a guitarra na tradicional Música Popular Brasileira e, ainda, adequou o sentimento hippie de contestação reinante no mundo à situação da ditadura militar e luta armada do país. O movimento teve expressão maior nos intérpretes e compositores Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Tom Zé. Nos poetas Torquato Neto e José Carlos Capinam; no Maestro Rogério Duprat, no guitarrista Lanny Gordin e, de forma especial, no grupo Os Mutantes. Também destacaram grupos como The Beat Boys, que acompanharam Caetano Veloso na música Alegria Alegria.
Nascido por volta de 1.967, e filho da tradicional MPB com the Beatles da fase Sgt. Peppers, o Movimento Tropicalista emergiu pelas mãos de Gilberto Gil, Caetano Veloso, Rogério Duprat e os Mutantes. De forma especial sua aparição pública mais evidente e transgressora ocorreu durante o festival da Record de 1967, no qual Gilberto Gil & Os Mutantes apresentaram Domingo no Parque, com arranjos de Rogério Duprat.
Por volta de 1.968, Caetano Veloso gravava seu segundo LP contendo o Manifesto Tropicália e Alegria Alegria, os Mutantes lançaram o primeiro álbum e Tom Ze´, ainda na Bahia, soltava o LP Tom Zé, pelo selo pernambucano Rozenblit, contendo Namorinho de Portão, Parque Industrial e São Paulo , clássicos da época.
Segundo Gilberto Gil,
“o Tropicalismo foi uma preposição. Um brinquedo que a gente inventou utilizando o material que a professora dá na escola prá gente em todos os campos, social, político, econômico, poético, religioso, da existência. Foi uma visão de momento em que a gente visualizava o Brasil de uma certa maneira , com umas certas cores. Então a gente comunicou tudo isso através do Tropicalismo”( Santana, 1980,pag. 240).


Gil continua caracterizando o movimento como um “descompromisso total com os estilos, modismos, coisas descobertas e exauridas” (Campos, 1978, pag.183).
O álbum coletivo Panis et Circensis, gravado em 1968, com Caetano Veloso, Gilberto Gil, os Mutantes, Rogério Duprat, Tom Zé, Gal Costa, Torquato Neto, Capinam e Nara Leão registrou para a história a síntese sonora e poética do Movimento. Além desse disco, o Movimento Tropicalista produziu obras primas como os três primeiros e clássicos álbuns dos Mutantes – Os Mutantes, Mutantes e A divina Comédia... Ou ando meio desligado -, a banda tropicalista do Duprat (com os Mutantes), o segundo disco é de Gilberto Gil (com os Mutantes) e os dois seguintes (com Lanny Gordin na guitarra), mais os discos de Caetano Veloso (especialmente o terceiro, de 1969) e Gal Costa (os quatro primeiros, incluindo Fa-Tal, ao vivo) – novamente com o guitarrista Lanny Gordin. Ainda pouco reconhecido, o único disco gravado pelo grupo gaúcho Liverpool, com suas guitarras ultra-psicodélicas, também integra o rol dos clássicos do Tropicalismo.

A preocupação dos Tropicalistas era discutir o novo, procurando entender mais profundamente a história da década de 60 e suas variadas formas de percepção, como as dos jovens, que reivindicavam uma mudança estética na arte, uma maior liberdade de expressão (Góes, 1982, p.25).
Além da música, o Movimento Tropicalista foi marcado pela presença de grandes poetas, a exemplo do próprio Caetano Veloso, Capinam, e especialmente do piauiense Torquato Neto, falecido prematuramente em 1972, depois de uma brilhante carreira.
Autor de Geléia Geral, Mamãe Coragem, A Coisa mais Linda que Existe e Let’s Play That, Torquato Neto foi o grande tradutor poético de sua geração, levando para a música as angústias de um período ditatorial, marcado pela repressão. Parte de sua obra, resgatada por Wally Sailormoon (também Salomão), está no livro Os Últimos Dias de Paupéria (1973), lançado juntamente com um compacto simples com Gilberto Gil e Gal Costa- esgotado e nunca relançado -, ou no álbum O Poeta Desfolha a Bandeira e a Amanhã Tropical se Anuncia, com gravações de suas letras/ canções.
Segundo Gilberto Gil,

o Tropicalismo reivindicava uma nova postura frente à MPB. Na sua visão, esse movimento “desencadearia as verdadeiras forças revolucionarias da música brasileira, para além de slogans ideológicos das canções de protesto, dos encadeamentos elegantes de acordes alterados, e do nacionalismo estreito” (Caetano, 1997, p.131).

Enfrentando a resistência organizada do conservadorismo da época, os Tropicalistas observaram que havia uma necessidade de lutar contra os “tabus” impostos pela sociedade tradicional. Segundo Gilberto Vasconcellos, a Tropicália

“critica a musicalidade do passado e ao miúdo engajamento da canção de protesto. Do ponto de vista cultural, ela significa a primeira formulação ao nível da MPB, da deglutição estética estrangeira e a conseqüente superação do tradicional nacionalismo musical” (Vasconcellos, 1977, pag.23).


A Tropicália terminou vencendo a guerra, por vezes campal, como em alguns festivais, afirmando-se como uma das primeiras manifestações da World Music cunhada anos depois, influenciando a geração nordestina dos anos setenta, especialmente Lula Cortês, Zé Ramalho e Alceu Valença. O Tropicalismo chegou a grupos estrangeiros como David Byrne, via Mutantes, Caetano Veloso, Gilberto Gil e após vários anos no ostracismo, ressurge recentemente, Tom Zé.
Aos poucos, o Tropicalismo ganhou espaços internacionais, antes homogeneizados pela bossa nova, enquanto a sua retomada acabou interrompida em sua forma mais radical, com a morte do músico pernambucano Chico Science (1997), idealizador de um estilo, a qual traz uma fusão entre o Maracatu, o Hip Hop e o Rock’n Roll no início dos aos 90. Este movimento ficou conhecido como Mangue-Beat.
Em suma, o Tropicalismo procurou e conseguiu alterar o campo das artes no Brasil e no mundo, utilizando de todo material “esquecido” ou “ não entendido” no campo musical, para dele transformar em um produto complexo e sistemático.




8 comentários:

Alê Marques disse...

Bom texto camarada Charles, Esqueceu do Oiticica, Mas com essa bolinha de gude no cú a referencia tá feita.

Maria, Simplesmente disse...

A bola não está no anus, mas na boca da modela, que no dia das fotos não conseguia segurar a bola com o anus.
Daí o fotografo mandou maquiar a boca da moça e ... o que era pra ser não foi, mas foi.

Nilson Ares disse...

Charles,

Assista "A different kind of blue" documentário sobre Miles Davis e veja de onde Gil teve a idéia de "eletrificar" a MPB.
Miles fez isto antes.

Abraço.

Alê Marques disse...

Este show, A different kind of blue, Gil já estava no exílio, depois do Panis et circense.
Mas por onde anda esse video do Miles Davis, muito louco!
está com o Salmuelzinho ou vc tem uma cópia Sarsa?

Nilson Ares disse...

Coronel,

O show foi depois, claro, mas quem garante que GG não estava ouvindo Miles bem antes?
Só quero demonstrar aqui, sem polêmica, que a Tropicália parece não ter sido tão legítima assim.

Abraço.

PS: O DVD, depois de ter assado do porta-malas da Veraneio do Gurdura, está comigo.
Vou testar para ver se funciona e COPIO para você.)

Nilson Ares disse...

Coronel,

O show foi depois, claro, mas quem garante que GG não estava ouvindo Miles bem antes?
Só quero demonstrar aqui, sem polêmica, que a Tropicália parece não ter sido tão legítima assim.

Abraço.

PS: O DVD, depois de ter assado do porta-malas da Veraneio do Gurdura, está comigo.
Vou testar para ver se funciona e COPIO para você.)

pratapreta disse...

Sarsa, olha dou crédito aos tropicalistas, pois perceberam a hora.

Depois que Gil voltou da excursão abrindo Show do Rei do baião ( Gonzagão) no Nordeste, mais tudo aquilo que tinha em mente, de Beatles a Mao, de Pílula as mulheres em (sutien) Paris, ai mermão não deu outra. Fora os pega do Gil, e os ácidos do Torquato, e a Gal alegrando a rapaziada, deu nisso.

Fizeram o que muita gente na mesma efervescência não fez. Ou porque não sacou qual era, ou mesmo por causa da BORRACHA.

Aí é outra estória.

abraços

Obs: Quero uma cópia.

Pô coisa boa tomando bronze em porta malas de carro, é foda hein!

Nilson Ares disse...

Tô falando, não empresto mais nada para recruta.