quarta-feira, janeiro 27, 2010

A Urna

Um colega há uns dias contou-me, de passagem, que trabalhava no Cartório Eleitoral em uma comarca do interior. Na época da implantação das urnas eletrônicas, era um dos incumbidos de oferecer treinamento aos eleitores para usar a nova urna. A simulação era simples: em uma sala era montada a cabine e o equipamento instalado. O eleitor era então orientado a escolher em uma lista um dos números existentes, digitá-lo na urna e confirmar o voto. Para maior verossimilhança do sufrágio simulado, cada número correspondia a alguma personalidade: Cora Coralina, Carlos Drumond de Andrade, Monteiro Lobato, consolidando uma verdadeira peneirada na plêiade nacional, e em sua porção talvez mais popular, mais conhecida do grande público. A intenção a mim parece clara: diante do crescente desinteresse geral pela participação nas eleições, motivada em muito pelas conseqüências desastrosas que seus resultados imediatos (os eleitos) genericamente trazem para o bem público, a Técnica dos Tribunais Eleitorais optara pela veia poética, observando o caráter subjetivo pelo qual os poetas e escritores estariam protegidos em caso de julgamento da sua personalidade. O que serviria de motivação, mesmo que ínfima, à participação dos eleitores nos futuros pleitos, já durante os treinamentos. Se a escolha fosse minha, não titubearia: cantores de bolero, só os de talento indiscutível.

E seguia o simulacro em passo tranqüilo, até o momento em que se apresenta para o exercício um ébrio, errante pudim de pinga que precisou tomar várias Providência’s antes de comparecer à obrigação civil. O desafio instalou-se: ao invés de mandar o pé-inchado para casa curar o pileque, a equipe, cônscia da obrigação do serviço público, atende ao cambaleante cidadão, mesmo não sendo clara a sua firmeza quanto ao dever civil (apenas à primeira vista como se percebeu depois). Ao que parece a primeira parte das instruções foram, com apenas pouca dificuldade, captadas pelo cidadão. Aproximou-se da urna. Fixou a vista, um tanto turva, na tela que o funcionário lhe indicava. E depois em uma lista de números que este lhe estendeu. Ao ouvir a explicação de que deveria escolher um dos números, olhou incrédulo para o funcionário, como se este estivesse a tentar ludibriá-lo. O funcionário, vendo a sua expressão de descrédito, explica-lhe novamente: Pode escolher qualquer um, tanto faz, é só um treino. Mais por falta de firmeza do que por convicção no que o rapaz insistia em lhe repetir, resolveu esforçar-se em ler alguma das seqüências de algarismos impressa no papel. Digitou-a no teclado, algarismo por algarismo. Agora aperta o botão verde pra confirmar. O bêbado hesita, olha para a imagem que apareceu na tela, com total estranheza. O que foi? pergunta o funcionário, Quem é esse careca? Carlos Drumond de Andrade, poeta, aperta o verde. De Andrade? Nunca ouvi falar, informa o bêbado com resoluta convicção. É Mesmo? Estranho, bom não importa. Vota no Drumond aí mesmo, tá bom. De jeito nenhum, como vou votar num qualquer aí, e poeta ainda por cima? Tá querendo me levar no bico? Hum!

O rapaz, atônito com a inesperada reação, tenta procurar uma saída, respeitando as diretrizes ao máximo possível, mas tentando não perder muito tempo com o que já parecia estar perdido. Então vota na Cecília Meireles, é esse número aqui, sugeriu com simpatia. Cecília? Também não conheço não, faz o quê? Era escritora também, mas já morreu. Morreu? E então o bêbado olhou para o rapaz (completamente arrependido do que acabara de dizer) expressando toda a sua indignação com o que entendia agora como uma “sem-vergonhice, sete-um, surrupio” e bravejou: Seus pinico-de-santa-casa! Pilantragem! Querem embolsar meu voto né? Decidido, caminhou saindo da sala, cambaleante porém vigoroso, como se a indignação lhe aprumasse o equilíbrio, e da porta ainda virou-se para declarar: Bem que o Brizola tem razão, isso é tudo armação da Globo!

4 comentários:

Alê Marques disse...

Muito boa essa hein?
Gostei de tudo, desde de a porção popular masi próxima do publico, a licneça poética dando imunidade juridica ao candidato.... mas essa do bêudo chapô!!!

pratapreta disse...

Que quiproquó danado, hein!

Três eleições sendo mesário, sei perfeitamente como é, ainda mais em Santana, em companhias das Amélias da vida.

Maria, Simplesmente disse...

Faz tempo, Marcio, mas amei!!!
Muito bom mesmo!!
Estamos perdidos nesse Brasil, só os Providenciarios estão corretos e veem a verdade!

Marcio disse...

Valeu, Maria. é que bola dividida, eu só vou na boa.