sexta-feira, maio 14, 2010

Nós da Urbe


Sempre que passo pela cidade de Campinas dá vontade de pedir pro ônibus parar só pra observar mais de perto o viaduto acima. Trata-se de um viaduto anti-indigente, de uma arquitetura voltada à expulsão dos indesejáveis com pedras pontiagudas sob suas cabeceiras, achei isso incrível. Acho que todo mundo que sai de Campinas via ônibus inter-urbano deve ter visto, fica no trajeto de saída da cidade, perto de um McDonald´s lindo e imponente!
É poder publico exercendo sua ação no espaço urbano. É importante a racionalidade técnica no planejamento urbano, o planejamento das cidades pode ser entendido como um sinal de desenvolvimento e progresso, pois carrega as idéias de valorização do ambiente público, preocupação com o bem-estar humano, respeito ambiental e integração de espaços e habitantes. A ênfase dessa racionalidade técnica no urbanismo dotou-o de método e o transformou em ciência da cidade. Ciência, progresso e desenvolvimento tudo coisa boa e inquestionável.
Nossas grandes e médias cidades se ergueram assim, com alto conteúdo técnico e cientifico, obviamente umas muito mais que outras. No caso de São José, nota-se que a instalação de centros de comandos dos grandes grupos transnacionais nessa cidade, de modo que esses grupos aí instalados passaram a exercer o controle das suas plantas industriais, produção e comerciais.
Temos um setor secundário voltado a exportação e um setor terciário altamente especializados, o que confere um alto valor técnico agregado ao territótio. O que torna SJC uma cidade global, e ela o é não só pelos fatos acima mencionados, mas por um motivo particular importante:
O fato de SJC ter se tornado uma cidade global está ligado ao fato de a racionalidade técnica que formaliza a arquitetura do espaço urbano segue os mesmo critérios de eficiência e comando do capital global. A cidade é a racionalidade do capital global espacializada, o espaço urbano é a representação da eficiência, comando e controle do que se convencionou chamar de globalização.
As cidades se parecem cada vez mais entre si, como já ocorre com os espaços padronizados das cadeias dos grandes hotéis internacionais ou, ainda, dos aeroportos, das redes de fast food, dos shopping centers, dos parques temáticos, dos condomínios fechados e demais espaços privatizados. As intervenções contemporâneas sobre os territórios ditos históricos ou culturais também obedecem a este ritmo de produção, o que cria uma superabundância mundial de cenários e simulacros para turistas.
Também ocorre hoje um tipo de mimetismo às avessas nos espaços públicos: não é raro encontrarmos recentes projetos ditos de “revitalização” desses espaços, como praças públicas por exemplo, que imitam as ditas “praças” dos shoppings (em particular, os materiais usados, a paginação do piso e o cercamento), exatamente o contrário do ocorrido nas galerias e primeiros centros comerciais que mimetizavam os espaços públicos urbanos, as suas ruas e praças tradicionais. Hoje, paradoxalmente, a referência de espaço público dito “de qualidade” passa a ser um espaço privado, na maior parte das vezes, um espaço interno, cercado e com segurança privada.
Para que tudo isso ocorra existe uma excessiva racionalização do espaço, por tanto um controle total, não só no que tange ao policiamento mas sobre tudo, controle do espaço, controle de temperatura, luz, volume que criam verdadeiros simulacros, uma disneylandização da urbe! E o que esta fora dessa Disneylândia também sofre ação dessa urbanização, é o caso da arquitetura anti-indigentes.
Não há indigentes na Disney.

5 comentários:

Anônimo disse...

Entre aqueles que conceberam alfabetos, arte, conhecimento e o vinho e aqueles que não produziram nada, vivem como homens-das-cavernas e matam os seus em rituais inacreditáveis(não que entre civilizados não existam os obscurantitas), fico com os primeiros; acreditando sempre que essa pasteurização é só a curva baixa do ciclo.

SM

Anônimo disse...

Acho tudo isto uma grande coisa e uma grande merda.
Esta da ponte é de dar nojo e eu entendi muito , assim como os faróis azuis ligados a noite nas pontes para os mendigos não dormir. Eta cidade que mata homens.
Gostaria do próximo episódio o comentário da cidade de Deus em SJC , o outro lado da história ( Campos SJ 2).
SJC é a urbanização da merda e a gostamos dela sabe lá pq
PIK

Maria Angélica Costa disse...

O nome popular desse viaduto é Laurão. Morava ali do lado e digo mais, também é um lugar cheio de história: um bombeiro faleceu em baixo dele tentando salvar um afogado, pq ali enche até as tais pedras qdo chove no verão. Um pouco mais pra frente é onde o Neto, jogador de futebol, salvou as crianças na van escolar de rodar na correnteza também em uma chuva de verão. Ali, do lado que entra em Campinas, é onde havia mais garotos pedindo esmolas para compra de crack.
E para escutar lendo esse post sugiro Disneylandia, do Titãs.
PS: Alê, estava num papo sobre simulacros outro dia...

Anônimo disse...

Coronel, o valor gasto na reforma e construção dos 10 sul-africanos que serão usados na copa desse ano seria suficiente para resolver todo o problema de infra-estrutura na Africa do Sul toda. Não estou falando apenas do deficit habitacional, mas tambem de pontes, ruas , estradas..etc...

Assim como o Laurão..coisas de terceiro mundo.

Nelinho 10 disse...

não existem indigentes na Disneylândia, nem crianças iraquianas foragidas...
...ficaram presas no consulado americano do Egito