sexta-feira, março 23, 2007

O Panótico nosso de cada dia



Foi no que eu saí da padaria, estava ela lá. Sua namorada, do outro lado da rua alertando-o sobre domo da câmera postado acima da avenida por um poste ao lado do semáforo, possivelmente focando-o no instante em que urinava na calçada naquela noite quente de sábado, após ter tomado alguns goles na mesma padaria.
- Meu bem! Você não sabe que agora tem uma câmera Aqui??
Neste mesmo instante num gesto de aparente insurreição, deboche, revolta vazia o sujeito dá uma guinada de cento oitenta graus e na seqüência dá umas três( presumo, não cheguei a contar) balançadas homéricas com o seu pinto em direção a câmera, ostentando garbosamente o seu falo, loquaz, e dizendo em alto e bom som para àquele poste com o domo da câmera,( que de uns tempos para cá é quem faz a ronda ostensiva na Avenida Princesa Isabel): Tá aqui ó! Se você não viu o do Alemão (do Big Brother) pode vê o meu aqui agora!
E foi bem nesse exato momento em que eu saía da padaria e o Alemão mostrava o seu pinto, é que também passava pelo local um grupo de evangélicos, que imagino, estivessem voltando de um culto, que pelo visto, pensou que ali naquela avenida fosse o Armagedon. Pois começou a travar o que parecia ser a ultima batalha entre deus e o “cuza ruim” na terra. Começaram a querer a tirar o “dêmo” do sujeito que pensava estar na “Casa” junto com oustros “brothers”. . O que no fundo não tiro a razão dele. Um monte de câmeras te vigiando a gente se sente mesmo disposto a aparecer.
Então começaram o chamar de “devasso”, “depravado”, “delinqüente”, “bandido”, “maconheiro”, “safado”, “e se eu tivesse passando com a minha filha agora”, “esse mundo não tem mais jeito”, “Meu pai eterno”, “chama o pastor pelo amor de deus”. E então pensei que naquela hora fosse mesmo o ARREBATAMENTO e eu seria abduzido junto com três pães de sal e uma caixinha de leite B.
A moça ruborizou-se, e eu, com o meu saco de pão e as caixinhas de leite B continuei a minha caminhada para casa, mas fui com aquilo na cabeça, obviamente não com o pinto do cara, mas a situação.
No outro dia, fui trabalhar, peguei o carro e ao sair de casa tive que parar no semáforo com o mesmo domo da câmera postado filmando meu carro, assim como todos outros carros atrás de mim, mas com a diferença de que fitei a câmera diretamente até o ponto de o sinal abrir e os outros carros buzinarem. E foi então que me dei conta que por toda a avenida equidistantemente tinha uma câmera instalada, até chegar à escola em que trabalho.
E o pior, nessa mesma escola, ela é toda tomada por câmeras de circuito fehado nos corredores, nas salas, pátio, até no banheiro dos alunos. De modo, que poderia-se fazer um filme todos os dias, desde o momento em que saio de casa, passando pelo meu dia de trabalho até o momento em que volto para casa. Agora, dá ou não dá vontade de mostra o pinto?
Sobre esses termos lembrei de um cablôco, pós estruturalista, chamado Michel Foucault. Ele tem um estudo que culminou com um livro chamado “Vigiar e Punir”.
Nele, o autor faz um estudo do sistema prisional após século XVIII e IX, que ele reproduz nos sistemas de clínicas psiquiátricas e escolas. Grosso modo, o que Foucault tenta nos explicar ele o faz através do chama de panótico. O panótico é um sistema de vigilância em prisões, em que consiste de uma torre no meio de uma construção exagonal, tal qual na foto acima, onde o diretor da prisão tem uma visada “pan” sem ser visto. Este é o conceito de panótico a visão do todo sem o todo ver quem o vê.
A partir desse momento, os detentos sem saberem se o diretor está ou não na torre os vigiando, eles por via das duvidas, reprimem seu comportamento se auto vigiando. Aí surge um outro conceito de Foucault que é o biopoder, a microfísica do poder, para ele a cidade é o lócus do biopoder e sua microfísica de vido suas classes perigosas.
Neste conceito ele nos explica que não existe mais o poder personalizado, ancorado em uma entidade, numa pessoa, num estado, numa organização pública. O poder e o controle social está difuso em nossa sociedade, através deste panótico eletrônico pósmoderno, é que nos reprimimos e nos auto vigiamos, o controle sou eu e você.
Isto é típico de sociedades totalitárias, o individuo se auto vigiar e punir, com o medo de já estar sendo vigiado por um panótico que o vê mas que ele não sabe quem está na torre. Vemos isso em filmes de regimes totalitários ( de diretita ou esquerda) como o nazismo e o Stalinismo, onde a perseguição não se dava só pelo Estado mas também pela sociedade que se auto perseguia.
Hoje parece que existe alguns loucos, que saem com uma web cam, que faz transmissão em tempo real, e invadem espaços que são contralados eletronicamente transmitindo ao vivo pela a internet fazendo assim uma contra vigilância.Talvez seja assim, com essa contra vigilância ou com o Alemão do Big Brother de Santana que poderemos nos sublevar contra isso tudo aí.
E sobre condições normais de temperatura e pressão é tudo isso aí memso




6 comentários:

Piraquara de nascença disse...

Falta pouco para a nossa TV ligar sozinha todo dia às 7 da manhã e transmitir o toque do hino nacional e as últimas notícias e orientações do nosso presidente.
Falta pouco para a gente ir estourar "aquele" no Parque e descobrir que existem microfones instalalados nas árvores...
Falta pouco...

Anônimo disse...

O que falar meu amigo se você já falou tudo.
É por essas e outras , que nascido rosas amarelas em nossos jardins.

Piquitito.

Marcio disse...

acho que a face mais cruel do panótico não são as câmeras vigilantes, limitadas ao seu ãngulo de visão dos transeuntes anõnimos. ele pode chegar às relaçoes entre vizinhos, parentes, estar presentes nos olhares, nas frases dissimuladas
(ih, não é teoria da conspiração não)
vigiamos e punimos uns aos outros em silêncio, em nome da moral, da igreja, da amizade, etc etc

Anônimo disse...

Também concordo contigo Márcio, essa é avigilancia totalitaria!
Coronel.

Anônimo disse...

É verdade, mas há algumas que podemos dar um foda-se e outras que nos fodem e nem percebemos.

Olhos Verdes disse...

Puxa que legal seu texto Alexandre.
Gostei muito mesmo. Super bem escrito também. Que episódio interessante e ao mesmo tempo engraçadíssimo.
Pois é, o q antes era só um (Processo - Kafka) agora temos também essa mania de vigiar.
Haja saco hein????
Continue a escrever meu amigo, tô adorando.
Bom final de semana