domingo, setembro 02, 2007

Feliz ano novo


Vi na televisão que as lojas bacanas estavam vendendo adoidado roupas ricas para as madames vestirem no reveillon. Vi também que as casas de artigos finos para comer e beber tinham vendido todo o estoque.
Pereba, vou ter que esperar o dia raiar e apanhar cachaça, galinha morta e farofa dos macumbeiros.
Pereba entrou no banheiro e disse, que fedor.
Vai mijar noutro lugar, tô sem água.
Pereba saiu e foi mijar na escada.
Onde você afanou a TV, Pereba perguntou.
Afanei, porra nenhuma. Comprei. O recibo está bem em cima dela. Ô Pereba! você pensa que eu sou algum babaquara para ter coisa estarrada no meu cafofo?
Tô morrendo de fome, disse Pereba.
De manhã a gente enche a barriga com os despachos dos babalaôs, eu disse, só de sacanagem.
Não conte comigo, disse Pereba. Lembra-se do Crispim? Deu um bico numa macumba aqui na Borges de Medeiros, a perna ficou preta, cortaram no Miguel Couto e tá ele aí, fudidão, andando de muleta.
Pereba sempre foi supersticioso. Eu não. Tenho ginásio, sei ler, escrever e fazer raiz quadrada. Chuto a macumba que quiser.
Acendemos uns baseados e ficamos vendo a novela. Merda. Mudamos de canal, prum bang-bang, Outra bosta.
As madames granfas tão todas de roupa nova, vão entrar o ano novo dançando com os braços pro alto, já viu como as branquelas dançam? Levantam os braços pro alto, acho que é pra mostrar o sovaco, elas querem mesmo é mostrar a boceta mas não têm culhão e mostram o sovaco. Todas corneiam os maridos. Você sabia que a vida delas é dar a xoxota por aí?
Pena que não tão dando pra gente, disse Pereba. Ele falava devagar, gozador, cansado, doente.
Pereba, você não tem dentes, é vesgo, preto e pobre, você acha que as madames vão dar pra você? Ô Pereba, o máximo que você pode fazer é tocar uma punheta. Fecha os olhos e manda brasa.
Eu queria ser rico, sair da merda em que estava metido! Tanta gente rica e eu fudido.
Zequinha entrou na sala, viu Pereba tocando punheta e disse, que é isso Pereba?
Michou, michou, assim não é possível, disse Pereba.
Por que você não foi para o banheiro descascar sua bronha?, disse Zequinha.
No banheiro tá um fedor danado, disse Pereba. Tô sem água.
As mulheres aqui do conjunto não estão mais dando?, perguntou Zequinha.
Ele tava homenageando uma loura bacana, de vestido de baile e cheia de jóias.
Ela tava nua, disse Pereba.
Já vi que vocês tão na merda, disse Zequinha.
Ele tá querendo comer restos de Iemanjá, disse Pereba.
Brincadeira, eu disse. Afinal, eu e Zequinha tínhamos assaltado um supermercado no Leblon, não tinha dado muita grana, mas passamos um tempão em São Paulo na boca do lixo, bebendo e comendo as mulheres. A gente se respeitava.
Pra falar a verdade a maré também não tá boa pro meu lado, disse Zequinha. A barra tá pesada. Os homens não tão brincando, viu o que fizeram com o Bom Crioulo? Dezesseis tiros no quengo. Pegaram o Vevé e estrangularam. O Minhoca, porra! O Minhoca! crescemos juntos em Caxias, o cara era tão míope que não enxergava daqui até ali, e também era meio gago — pegaram ele e jogaram dentro do Guandu, todo arrebentado.
Pior foi com o Tripé. Tacaram fogo nele. Virou torresmo. Os homens não tão dando sopa, disse Pereba. E frango de macumba eu não como.
Depois de amanhã vocês vão ver. Vão ver o que?, perguntou Zequinha.
Só tô esperando o Lambreta chegar de São Paulo.
Porra, tu tá transando com o Lambreta?, disse Zequinha.
As ferramentas dele tão todas aqui.
Aqui!?, disse Zequinha. Você tá louco.
Eu ri.
Quais são os ferros que você tem?, perguntou Zequinha. Uma Thompson lata de goiabada, uma carabina doze, de cano serrado, e duas magnum.
Puta que pariu, disse Zequinha.
E vocês montados nessa baba tão aqui tocando punheta?
Esperando o dia raiar para comer farofa de macumba, disse Pereba. Ele faria sucesso falando daquele jeito na TV, ia matar as pessoas de rir.
Fumamos. Esvaziamos uma pitu.
Posso ver o material?, disse Zequinha.
Descemos pelas escadas, o elevador não funcionava e fomos no apartamento de Dona Candinha. Batemos. A velha abriu a porta.
Dona Candinha, boa noite, vim apanhar aquele pacote.
O Lambreta já chegou?, disse a preta velha.
Já, eu disse, está lá em cima.
A velha trouxe o pacote, caminhando com esforço. O peso era demais para ela. Cuidado, meus filhos, ela disse.
Subimos pelas escadas e voltamos para o meu apartamento. Abri o pacote. Armei primeiro a lata de goiabada e dei pro Zequinha segurar. Me amarro nessa máquina, tarratátátátá!, disse Zequinha.
É antiga mas não falha, eu disse.
Zequinha pegou a magnum. Jóia, jóia, ele disse. Depois segurou a doze, colocou a culatra no ombro e disse: ainda dou um tiro com esta belezinha nos peitos de um tira, bem de perto, sabe como é, pra jogar o puto de costas na parede e deixar ele pregado lá.
Botamos tudo em cima da mesa e ficamos olhando. Fumamos mais um pouco.
Quando é que vocês vão usar o material?, disse Zequinha.
Dia 2. Vamos estourar um banco na Penha. O Lambreta quer fazer o primeiro gol do ano.
Ele é um cara vaidoso, disse Zequinha.
É vaidoso mas merece. Já trabalhou em São Paulo, Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre, Vitória, Niterói, pra não falar aqui no Rio. Mais de trinta bancos.
É, mas dizem que ele dá o bozó, disse Zequinha.
Não sei se dá, nem tenho peito de perguntar. Pra cima de mim nunca veio com frescuras.
Você já viu ele com mulher?, disse Zequinha.
Não, nunca vi. Sei lá, pode ser verdade, mas que importa?
Homem não deve dar o cu. Ainda mais um cara importante como o Lambreta, disse Zequinha.
Cara importante faz o que quer, eu disse.
É verdade, disse Zequinha.
Ficamos calados, fumando.
Os ferros na mão e a gente nada, disse Zequinha.
O material é do Lambreta. E aonde é que a gente ia usar ele numa hora destas?
Zequinha chupou ar fingindo que tinha coisas entre os dentes. Acho que ele também estava com fome.
Eu tava pensando a gente invadir uma casa bacana que tá dando festa. O mulherio tá cheio de jóia e eu tenho um cara que compra tudo que eu levar. E os barbados tão cheios de grana na carteira. Você sabe que tem anel que vale cinco milhas e colar de quinze, nesse intruja que eu conheço? Ele paga na hora.
O fumo acabou. A cachaça também. Começou a chover. Lá se foi a tua farofa, disse Pereba.
Que casa? Você tem alguma em vista?
Não, mas tá cheio de casa de rico por aí. A gente puxa um carro e sai procurando.
Coloquei a lata de goiabada numa saca de feira, junto com a munição. Dei uma magnum pro Pereba, outra pro Zequinha. Prendi a carabina no cinto, o cano para baixo e vesti uma capa. Apanhei três meias de mulher e uma tesoura. Vamos, eu disse.
Puxamos um Opala. Seguimos para os lados de São Conrado. Passamos várias casas que não davam pé, ou tavam muito perto da rua ou tinham gente demais. Até que achamos o lugar perfeito. Tinha na frente um jardim grande e a casa ficava lá no fundo, isolada. A gente ouvia barulho de música de carnaval, mas poucas vozes cantando. Botamos as meias na cara. Cortei com a tesoura os buracos dos olhos. Entramos pela porta principal.
Eles estavam bebendo e dançando num salão quando viram a gente.
É um assalto, gritei bem alto, para abafar o som da vitrola. Se vocês ficarem quietos ninguém se machuca. Você aí, apaga essa porra dessa vitrola!
Pereba e Zequinha foram procurar os empregados e vieram com três garções e duas cozinheiras. Deita todo mundo, eu disse.
Contei. Eram vinte e cinco pessoas. Todos deitados em silêncio, quietos, como se não estivessem sendo vistos nem vendo nada.
Tem mais alguém em casa?, eu perguntei.
Minha mãe. Ela está lá em cima no quarto. É uma senhora doente, disse uma mulher toda enfeitada, de vestido longo vermelho. Devia ser a dona da casa.
Crianças?
Estão em Cabo Frio, com os tios.
Gonçalves, vai lá em cima com a gordinha e traz a mãe dela.
Gonçalves?, disse Pereba.
É você mesmo. Tu não sabe mais o teu nome, ô burro? Pereba pegou a mulher e subiu as escadas.
Inocêncio, amarra os barbados.
Zequinha amarrou os caras usando cintos, fios de cortinas, fios de telefones, tudo que encontrou.
Revistamos os sujeitos. Muito pouca grana. Os putos estavam cheios de cartões de crédito e talões de cheques. Os relógios eram bons, de ouro e platina. Arrancamos as jóias das mulheres. Um bocado de ouro e brilhante. Botamos tudo na saca.
Pereba desceu as escadas sozinho.
Cadê as mulheres?, eu disse.
Engrossaram e eu tive que botar respeito.
Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as jóias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. Toda penteada, aquele cabelão armado, pintado de louro, de roupa nova, rosto encarquilhado, esperando o ano novo, mas já tava mais pra lá do que pra cá. Acho que morreu de susto. Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha.Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.
Vamos comer, eu disse, botando a fronha dentro da saca. Os homens e mulheres no chão estavam todos quietos e encagaçados, como carneirinhos. Para assustar ainda mais eu disse, o puto que se mexer eu estouro os miolos.
Então, de repente, um deles disse, calmamente, não se irritem, levem o que quiserem não faremos nada.
Fiquei olhando para ele. Usava um lenço de seda colorida em volta do pescoço.
Podem também comer e beber à vontade, ele disse.
Filha da puta. As bebidas, as comidas, as jóias, o dinheiro, tudo aquilo para eles era migalha. Tinham muito mais no banco. Para eles, nós não passávamos de três moscas no açucareiro.
Como é seu nome?
Maurício, ele disse.
Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?
Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.
Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo.
Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.
Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.
Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.
Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma.
Tem que ser na madeira, numa porta. Parede não dá, Zequinha disse.
Os caras deitados no chão estavam de olhos fechados, nem se mexiam. Não se ouvia nada, a não ser os arrotos do Pereba.
Você aí, levante-se, disse Zequinha. O sacana tinha escolhido um cara magrinho, de cabelos compridos.
Por favor, o sujeito disse, bem baixinho. Fica de costas para a parede, disse Zequinha. Carreguei os dois canos da doze. Atira você, o coice dela machucou o meu ombro. Apóia bem a culatra senão ela te quebra a clavícula.
Vê como esse vai grudar. Zequinha atirou. O cara voou, os pés saíram do chão, foi bonito, como se ele tivesse dado um salto para trás. Bateu com estrondo na porta e ficou ali grudado. Foi pouco tempo, mas o corpo do cara ficou preso pelo chumbo grosso na madeira.
Eu não disse? Zequinha esfregou o ombro dolorido. Esse canhão é foda.
Não vais comer uma bacana destas?, perguntou Pereba.
Não estou a fim. Tenho nojo dessas mulheres. Tô cagando pra elas. Só como mulher que eu gosto.
E você... Inocêncio?
Acho que vou papar aquela moreninha.
A garota tentou atrapalhar, mas Zequinha deu uns murros nos cornos dela, ela sossegou e ficou quieta, de olhos abertos, olhando para o teto, enquanto era executada no sofá.
Vamos embora, eu disse. Enchemos toalhas e fronhas com comidas e objetos.
Muito obrigado pela cooperação de todos, eu disse. Ninguém respondeu.
Saímos. Entramos no Opala e voltamos para casa.
Disse para o Pereba, larga o rodante numa rua deserta de Botafogo, pega um táxi e volta. Eu e Zequinha saltamos.
Este edifício está mesmo fudido, disse Zequinha, enquanto subíamos, com o material, pelas escadas imundas e arrebentadas.
Fudido mas é Zona Sul, perto da praia. Tás querendo que eu vá morar em Vilópolis?
Chegamos lá em cima cansados. Botei as ferramentas no pacote, as jóias e o dinheiro na saca e levei para o apartamento da preta velha.
Dona Candinha, eu disse, mostrando a saca, é coisa quente.
Pode deixar, meus filhos. Os homens aqui não vêm.
Subimos. Coloquei as garrafas e as comidas em cima de uma toalha no chão. Zequinha quis beber e eu não deixei. Vamos esperar o Pereba.
Quando o Pereba chegou, eu enchi os copos e disse, que o próximo ano seja melhor. Feliz Ano Novo.

Rubem Fonseca

sábado, setembro 01, 2007

Gol Anuldo

Há tempos não me sentia assim. Pasmo, a mercê do outro que não eu mesmo.
Às vezes subdivido-me. São apenas vinte e cinco anos e o peso de três mundos nas costas. No decorrer desses anos o peso tem aumentado e parece deslocar, ou melhor, esfacelar minhas vértebras. O suor não é mais o mesmo. Escorre internamente, gelando a espinha e ensopando a alma.
O ânimo se foi há muito. Meus pés embotados de poeira parecem ter caminhado do sul do Chile a cabeceira da Venezuela. Tenho enfrentado muitos Atacamas.Vejo dor em minhas empreitadas sem rumo. Caminho para um futuro sem muita esperança, afinal o que se pode esperar de um sujeito em minha situação se não o mais belo e irônico fracasso? Já basta, pouparei todos de minhas mazelas e irei direto ao assunto.
Faz cerca de um mês que não sou mais o mesmo. Na verdade nunca fui eu mesmo, raras exceções de embriagues ou efeito de felicidade vazia.
Ela tem lindos olhos, além de um andar calmo e confortante. Gosto de vê-la passar. Sua serenidade me transporta para um mundo que eu já havia esquecido que existe. O mundo dos bobos, dos palhaços que riem da própria desgraça, pois tiram dela seu sustento e sua alegria. O fracasso peculiar é o combustível vital para os habitantes desse fantasioso mundo onde a miséria e os problemas cotidianos não existem
Bom, voltemos ao foco: A retina esverdeada que parece dar luz ao espectro.
Encanta-me sua voz, pouco rouca de nascença. Tem apenas dezoito anos e já me faz sentir coisas em que eu não acreditava mais.
Tivemos nosso primeiro contato no âmbito sombrio do escritório. Alberto nos apresentou:
– Beatriz, falou em alto e bom tom, mas foi como se sussurrasse em meus ouvidos.
Olhei para o chão. Não tive coragem de olhá-la nos olhos. Nem me lembro se me apresentei. Também que diferença faria? Era só mais um Jarbas que ela iria esquecer assim que o próximo Maciel ou mesmo a Ester proferisse diante de tanta beleza, as suas graças, sem tempero nenhum.
Colocaram-na em uma mesa enfrente a minha. Seria ótimo poder vê-la o tempo todo. Claro que entre nós havia mais quatro ou cinco mesas, no entanto, no horário do almoço de Rita eu podia ver por uns quarenta longos minutos os finos e úmidos fios de sua nuca ruiva.
Uma semana se passou e ela vinha cada dia mais bela. Elevava meus pensamentos ao ar, de tal forma que o locomovia aos haréns mais luxuosos da Pérsia antiga.
– Jarbas?! É Jarbas não é? – falou debruçada sobre minha mesa de mogno surrada pelos anos de mal uso de mim e de tantos outros funcionários públicos.
Seu decote modesto ressaltava as sardas do colo perturbante a assimetricamente perfeito.
– Sim sou Jarbas. Você é nova aqui? – fiz-me de desentendido.
– Soube que você mora na Lapa não é? – perguntaram aqueles lábios incandescentes.
– Sim, precisa de algo de lá – respondi firme e quase sem tremer – quase sem.
– Na verdade, meu namorado mora lá e gostaria que você me desse uma carona, caso não for incomodar. Disse.
– Claro! – respondi entusiasmado, porém sem transparecer o que sentia – me procure no final da tarde.
Agradeceu-me e foi.
Seu andar era tão... tão... que passei a gostar do sujeito – um tal de Francisco, vinte e cinco anos, engenheiro, bem de vida pra idade que tinha – tanto que torcia para que ela o fosse visitar todos os dias.
Naquela semana ela foi até lá três vezes. Seus olhos não saiam de mim. Confesso que senti um certo desconforto, mas era tão bom que logo isso se transformou em um admirável sentimento de desejo. Nada fiz nesses dias além de responder às perguntas que ela me fazia e rir de nossas coincidências clichês.
Voltei a malhar na segunda-feira seguinte. Fiquei sem comer. Fiz regime. Devia estar bem fisicamente e comigo mesmo, afinal algo poderia acontecer, e eu devia estar preparado. Foi assim que a esperança passou a figurar em meus pensamentos. Acreditava em gafanhotos verdes.
Numa quarta chuvosa, daquela que já era a terceira semana de nosso convívio, parei o carro na esquina da casa de seu namorado. Ela me pediu para fazer assim sempre. Não ficava bem para uma moça descer do carro de um rapaz para se encontrar com outro. Achava melhor evitar os comentários.
Não desceu do carro como sempre fez. Perguntou-me
– Você está com pressa?
– Um pouco, quer dizer, não sei, por quê? – respondi
– Podemos sair daqui? Gostaria de lhe contar algo que está me sufocando há dias. – disse.
Nunca a chave foi tão leve no contato. Os ruídos das borrachas gastas desapareceram e eu guiei meu Porche 911 travestido em meu Passat 75, verde abacate. Horrível.
Paramos no cais. O dia não estava propicio a admirar o pôr-do-sol e por isso o local estava deserto.
– Jarbas – começou a falar me olhando fixamente nos olhos – Não sei se devia te dizer isso assim, afinal nos conhecemos a pouquíssimo tempo, mas como acho que nosso sentimento é recíproco e por isso vou falar. Não consigo mais apenas te olhar.
Foram apenas trinta e quatro palavras compostas de cento e cinqüenta e duas letras, pontuadas com duas vírgulas e três pontos, precedidos de um beijo calmo, úmido e estonteante. Uma pausa de mil compassos.
O coração não cabia no peito. As mãos frias suavam frio. O estômago revirou causando uma sensação deliciosa, misto de medo e surpresa. Não disse nada, mas me lembro bem de seu pedido de desculpas depois que o momento mágico acabou.
Dali em diante, nos conhecemos, nos amamos em segredo e nos beijamos – e apenas nos beijamos – sem pudor.
Fizemos planos precoces. Inexperiente, larguei tudo. Minhas idéias, meus sonhos, minhas paixões não correspondidas. Meu relacionamento de cinco anos com Carmem.
Ela pediu um tempo para se ajeitar, se resolver também. Foram as duas semanas mais longas e atribuladas e mais curtas e pacíficas de minha vida. Longas pela espera de sua resposta, pelo sofrimento de minha separação, pelo conflito interno dessa paixão com meus ideais. Curtas pelos beijos no final do expediente divididos com os encontros amorosos dela com Francisco, pela vontade insaciável de vê-la e de viver.
Ontem, no fim do dia pude presenciá-la chorando pela primeira vez. No caminho para o cais, com vista para o Corcovado não conversamos por uns eternos vinte minutos. Apenas a olhei. Tinha intimidade suficiente para tocar seus seios, mas não para amparar seu pranto. Enfim veio a notícia.
A voz mais rouca ainda, trêmula, dava um tom triste e desesperador a conversa. Como em nosso primeiro beijo foi sincera, simples e direta:
– Desculpe, mas acabou! Não queria que acontecesse, mas não posso mais ficar contigo. Estou grávida. Descobri isso hoje cedo. Não sabia como te dizer. Procurei palavras o dia inteiro. Nada fiz no escritório, pensando em como te dar essa notícia. Francisco será pai e você a mais pura expressão de minha vontade e desejo contidos. – selou com um beijo o que disse. Frio e úmido de lágrimas.
Saiu do carro desvairada, aos prantos, mas seu andar, ainda que desordenado, me transportava para aquela atmosfera calma e limpa de seus beijos. Não tinha acreditado ainda. Não queria acreditar. E meus ideais? Meus compromissos? E Carmem?
Desci do carro de maneira a seguí-la, me explicar, lhe entender, sei lá, fazer algo que a impedisse de ir. Nada fiz. Apenas debrucei sobre o capô do carro.
Eu, o mar. O emadeiramento do cais, a maresia, o Cristo...
Era tarde, em nada podia pensar, além das palavras de Aldir Blanc martelando minha cabeça encorpadas na voz de João Bosco: “A alegria de quem está apaixonado, é como a falsa euforia de um gol anulado”.

quarta-feira, agosto 29, 2007

Histórias do Uruguai

"(...) Para mim teria sido difícil encontrar o túmulo sozinho; estava debaixo de uma árvore cuja copa era de um verde claro. A terra preta, recém removida, estava rodeada de estacas brancas de um curralzinho que parecia um berço. A cruz estava meio inclinada para frente, como se olhasse para baixo. O soldado estava a alguns metros de mim e não tinha apeado da mula. Comecei a me sentir mal; olhava para o chão, mas, como supunha que o soldado olhava para mim, não sabia o que fazer. Não me ocorria nenhum rito em homenagem à menina; de bom grado teria perfumado a terra, regando-a com o vinho. Mas não sabia o que o soldado pensaria. Também não tinha vontade de comer; mas devia tirar o pacote dali, pois os cães poderiam revolvê-lo profanando o túmulo. O melhor seria voltar outro dia e trazer o gatinho e a plantinha.
Em boa parte do caminho de volta, o soldado foi comendo o conteúdo do pacote e tomando o vinho. A princípio, quando ele havia começado a comer, veio-me um grande apetite; mas não me parecia bem pedir-lhe um pouco do que eu lhe dera. Depois me entreguei a meus pensamentos e consegui me lembrar de muitas coisas da menina; mas de repente acordei; foi quando o soldado espatifou a garrafa contra as pedras. Depois, com a boca ainda cheia, ele me disse:
-Nunca consegui saber se ela era minha filha ou minha sobrinha.
Fiquei cravado no caminho; e enquanto engolia o que acabara de ouvir, via a mula caminhar no meio das pedras e lembrava de uma mulher saindo de um cabaré que eu havia visto no meu século. Corri até o soldado e perguntei:
-E seu irmão, o que diz?
Ele olhou para mim enquanto seu nariz em gancho bicava ao compasso dos passos da mula e me respondeu:
-A mesma coisa.
(...)"

trecho do conto Lucrécia, em O Cavalo Perdido e outras histórias, de Felisberto Hernández.

Gostei muito dos contos desse escritor uruguaio. No princípio, tive a falsa impressão de se tratar do fantástico, daquela reordenação das leis naturais que torna possível o extrordinário. Mas a estranheza da narração, seu ritmo incomum, suas imagens perturbadoras me desinstalaram da poltrona confortável e me perguntei, como assim?
Julio Cortázar (prólogo, ed. Cosaicnaify, 2006) sobre Hernández: "Deve-se pedir mais a um narrador capaz de aliar o cotidiano ao excepcional a ponto de mostrar que eles podem ser a mesma coisa?"
Mas nem precisa pedir emprestado porque não é meu e não tenho esse vício de emprestar a terceiros o que não é meu e não fui autorizado a.

segunda-feira, agosto 27, 2007

dito do 608


Mineiro radicado paulista, católico apostólico romano, seu Toninho como era chamado pela vizinhança sofria de perturbações auditivas fazendo dele um merecedor de atenção especial.
De família pequena, seu Toninho mora num sobrado no pé do morro em um beco sem saída com a esposa e filhas. Freqüentador esporádico dos bares da vida e assíduo da igreja, o alegre e descontraído homem defende de unhas e dentes que “todo homem nasce católico”, postura essa que quando toma seus pileques dá margem à família para destratá-lo com o mesmo sermão que ele pratica dentro da sua igreja.
Num certo dia, o telefone não pára de tocar no bonito sobrado onde a família vive. Na maioria das vezes a pessoa procurada é Quitéria, moça bonita, solteira, trinta e três anos, olhos castanhos, cabelos pretos, pele morena, elegante e sensual. Formada em engenharia agrônoma ela aplica seus conhecimentos na sua empresa de consultoria.
Quitéria tem o péssimo hábito de corrigir seu pai em tudo; implica com sua maneira de falar, se expressar e até mesmo por ser surdo. O jeito rústico às vezes ignorante dele faz se passar por bobo alegre e isso a incomoda profundamente.
Com sua simplicidade e características pessoais incluindo atitudes positivas e defeitos, seu Toninho fez da sua família pessoas de bem, distribuindo responsabilidade, carinho e afeto da forma que melhor lhe ensinaram.
Devido sua deficiência auditiva seu Toninho comete alguns enganos que chegariam a ser cômicos se não fossem trágicos. Imagine um surdo acompanhando pelo rádio ou pela tevê um campeonato de futebol acompanhado de ansiedade pelo resultado do seu time favorito; recebendo notícias trágicas ou penetrando em conversa alheia. Ele se atrapalha e muita vez deturpa as informações.
Seu Toninho é um católico roxo como dizem no popular e esses tipos de diversões é considerado como vícios e não são bem vistas pela comunidade cristã. Isso inconscientemente, maltrata ele, porque não pode nem comemorar as vitórias com os amigos num bar.
Mas mal sabe ele que pensar e fazer escolhas são um direito de todos. É preciso ter coragem para tomar a atitude de pensar, pois podemos nos deparar com respostas que podem nos levar a insegurança, tristeza, alegria e; todas essas emoções para alguns são melhores adormecidas ou apenas contidas dentro de si, desta forma fica mais fácil fazer alguém feliz sem se importar consigo mesmo.
A vida muitas vezes é levada com a barriga como dizem, será que é porque ela não pensa?
O beco faz parte da vida da família que nem o percebia devido à implicância com o modesto e atrapalhado pai.
Enquanto isso, a vida corre solta lá no pé do morro. Choro de criança não se sabe se de fome, dor ou manha, briga de casal – socos, gritos, cadeiras e copos que voam gente dançando com música arrebentando os decibéis suportáveis por todos os seres terrestres, cigarras no pé de ameixa anunciando o calor quente da estação, bêbadas vivendo suas mágoas, garotos drogados pelas calçadas, a repetição constante do papagaio do vizinho...
A chuva de verão cai forte e a energia elétrica é interrompida pela brusca escuridão daquele beco. É gente gritando, a criançada em polvorosa e os pais preocupados com seus filhos a mercê da situação.
Quanto mais o tempo passa, o vento e a chuva aumentam causando danos inestimáveis debaixo daquele céu negro da cidade exatamente no bairro São Judas na Rua Altamiro de Jesus onde depois de horas de angústia aparece o seu Toninho dentro de uma bermuda, camisa cavada, bota sete léguas, chapéu de palha, um cigarro meio molhado entre os dentes segurando um guarda-chuva quebrado. Ele está embriagado de impaciência no ponto de ônibus próximo do beco a espera de Quitéria que partiu a São Paulo de manhã e ainda não voltou.
Depois de horas e nada de Quitéria aparecer, o velho e bom pai volta para casa tensa e cabisbaixa. No escuro ele tateia pela casa até encontrar uma cadeira, se acomoda e espera pela boa notícia. Não há mais nada que ele possa fazer.
Trim-trim-trim (toca o telefone).
De um salto seu Toninho atende o chamado:
- Quem é você?
Do outro lado dos fios e cabos de fibra ótica responde o caminhoneiro que estava parado na Via
Dutra para pedir socorro:
- Alô Toninho? Alô Tonho? É o Dito do 608, tudo bem?
- O fio como é que ocê ta? Bem?
- Olha o caminhão quebrou e preciso da sua ajuda.
- O que? Não estou escutando nada.
Percebendo que o pai está tendo dificuldade de entendimento do telefonema do seu quarto a filha resolve pegar a linha na extensão e diz:
- Alô pai?
- Filha, minha filha onde ocê ta?
- Pai, tô aqui em cima.
- Em cima onde? Quem é esse homem, esse barulho?
- Alô Maria, ainda bem que você está aí! disse o caminhoneiro.
- Não, eu não sou a Maria, sou a Quitéria e isso é um engano, espere um momento.
Quitéria enfurecida desce as escadas da casa abraça o pai pelas costas dá-lhe um beijo e diz:
- Pai, estou aqui!
- Nossa filha! Como você chegou rápido!
- Espere um momento pai.
Ela pegou o telefone explicou ao Dito do 608 que seu pai também se chama Toninho mas que não era o Toninho da expedição que ele procurava.
O homem entendeu, desligou e Quitéria então foi explicar ao pai que havia chegado em casa há horas e estava descansando em seu quarto quando a chuva começou e a luz apagou. Ela aproveitou e reforçou ao pai o que é uma extensão telefônica e para que serve.
Dentro da sua ingenuidade e ternura paterna seu Toninho só soube abraçar a filha e agradecer a Deus por tê-la protegido da intempérie.

domingo, agosto 26, 2007

A fabricação da Cachaça


Amigos,

ante a tremenda preguiça de escrever , junto a falta de assunto, puz-me a procurar vídeos interessantes por aí. Eis no que deu: a fabricação da cachaça. Dêem uma olhada, quem sabe...

Tito, O Frei

terça-feira, agosto 21, 2007

Condição Pós-moderna

Refletir sobre nossa contemporaneidade frente aos auspícios do que muitos vem chamando de pos-modernidade ou modernidade tardia nos remete a uma sensação de vertigem, e por que não de exclusão.
Concordo com o Sarsa na questão da dimensão da representação do homem na sua economia das trocas simbólicas, mas a questão material ainda continua premente, muito embora o materialismo histórico e dialético não nos traga padrões epistemológicos plenamente satisfatórios para determinadas análises dessa hiperealidade atual, mas ainda são usados para explicar a realidade e a natureza humana, assim como a física clássica de Newton não foi invalidade pela relatividade de Einstein.
Não que eu seja marxista, mas volta a tocar na relação do materialismo histórico frente a nossa modernidade tardia, ou a lógica cultural do nosso capitalismo tardio.E para tanto enxergo na técnica, sobretudo nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) as bases para a formação dessa hiperralidade a qual vivemos. A hiperrealidade não é apenas uma cópia da realidade, mas sim uma reprodução em escala global e infinita de uma cópia da realidade, fazendo com que o tamanho dessa reprodução seja tão grande que passa-se a ser uma outra realidade, o que se estão convencionando chamar de realidade virtual. O que está sendo uma marca da nossa comtemporaneidade – a pos-modernidade
Por outro lado não se pode tomar a pos modernidade como um outro período histórico, em que uma linearidade histórica supõem que a modernidade acabou e que agora se inaugura um período pós moderno. Não é isso, a história não segue um linearidade positivista. A pos modernidade é uma constatação da crise dos arquétipos da modernidade, tais como o Estado Nacional e o Liberalismo.
A condição pos moderna é marcadamente orientada pela crise das grandes metanarrativas, tais como o sujeito, a razão cartesiana, o progresso, o legado da ilustração, espírito hegeliano, o equilíbrio keynisiano, o conceito de totalidade e verdade etc..
No campo econômico, a pos modernidade abriu espaço para uma versão do liberalismo (o mesmo liberalismo inglês e francês fundadores da modernidade, com a criação dos Estados Nacionais, da liberdade econômica, do cidadão), articulado para o capital global legitimado pelos organismos multilaterais e convenções internacionais, como o famoso consenso de Washinsgton, tais como desregulamentação dos mercados de capitais, ataque ao equilíbrio keynisiano, a idéia de um estado mínimo, o fim do welfaer state, privatizações, auto gestão dos mercados e suas leis naturais como o único fator regulatório da economia.
As cidades, regiões e localidades também têm sua reafirmação contrariamente a idéia de aldeia globao do Mcluhan.
Por exewmplo, existe uma capacidade de controle global da infra-estrutura de empregos e da relações de produção em SJK, que podemos realcionar a ordem social urbana de nossa cidade com eventos globais, como a crise das industrias bélica e aeronáutica nas décadas de 80 90 frente as efemérides da conjuntura geopolítica mundial.
O espaço da cidade de SJC passa a ser elaborado segundo os mesmos critérios de eficiência e racionalidade técnica que comanda o processo técnico-cientifico-informacional do modelo de desenvolvimento assumido pela sociedade e gestão pública. É um novo conteúdo político e social que vai se viabilizar e concretizar uma nova estrutura sócio-espacial e vice versa.
O avanço técnico redefine as relações sociedade espaço, criam-se novas formas espaciais e as anteriores se ajustam as novas determinações. O espaço segundo Milton Santos também é material e histórioco, ele poderá ser deformado pelo digital mas não desaparecerá.
"Antes mundo era pequeno, por que terra era grande
Hoje mundo é muito grande por que terra é pequena, no tamanho da antena parabólica Mará"

Procura

"Nada a poderia pertubar mais do que olhar para fora e aguardar de fora respostas a perguntas a que talvez somente seu sentimento mais íntimo possa responder na hora mais silenciosa"
Raine Maria Rilke - Cartas a um jovem poeta

segunda-feira, agosto 20, 2007

A equivalência de um bit?

Bom, comentando as duas colunas, percebi um atraso crítico na primeira e um avanço na posterior. A questão "já é" a seguinte: não se trata de relexões materiais.
Como Mc Luhan, Lyotard, Baudrillard, Flussel, entre outros, devemos observar a "imaterialidade reprodutiva" destes nossos tempos, onde o ciberespaço se faz representar como principal referência. Mas não caiamos na ilusão de que o imaterial, virtual, em tempo real, não exista.
A forma diluída e liquida da pós-modernidade constitui sua própria identidade, uma identidade reticular e não mais linear como estávamos - como bons fordistas que somos - acostumados a analisar.
Assistimos ao período de diluição material das coisas. Herdamos ainda a analogia que prevaleceu sobre a maioria da interfaces que usamos no passado: LP, Fita K7, VHS, etc.
A técnica nos guiará daqui em diante como nunca nos guiou, e o passeio será cada vez mais ubíquo, cosmopolita e vertiginoso.
Eis aqui algumas colocações de Mc Luhan: " A cidade já não existe mais, salvo como espectro cultural para turistas. Qualquer botequim à beira da estrada, com seu aparelho de televisão, jornal e revista, é tão cosmopolita quanto Nova York ou Paris.
Sobre a mudança do refencial material para o imaterial, ele nos diz: "A cobertura global instantânea do rádio e da televisão torna a forma citadina insignificante e despida de função. Outrora, as cidades estavam relacionadas com as realidades da produção e da intercomunicação. Agora não. As novas comunicações não são pontes entre o homem e a natureza: são a natureza.
Gutemberg tornou toda a historia simultânea: o livro transportável trouxe o mundo dos mortos para o espaço da biblioteca de um cavalheiro; o telégrafo trouxe o mundo inteiro dos vivos para a mesa do pequeno almoço do operário. A fotografia foi a mecanização da pintura em perspectiva e do olho parado; derrubou as barreiras do espaço nacionalista, vernáculo, criado pela impressão. A impressão alterou o equilíbrio da fala oral e escrita; a fotografia alterou o equilíbrio do ouvido e do olho. Telefone, gramofone e radio são as mecanizações do espaço acústico pós-letrado. O radio leva-nos de volta às trevas da mente, às invasões de Marte e Orson Welles; mecaniza o poço de solidão que é o espaço acústico: o palpitar do coração humano aplicado a um sistema PA fornece um poço de solidão em que qualquer um pode se afogar. O cinema e a televisão completam o ciclo de mecanização do sensório humano.
Com o ouvido onipresente e o olho móvel, abolimos a escrita, a metáfora audiovisual especializada que estabeleceu a mecânica da civilização ocidental. Ao ultrapassarmos a escrita, recuperamos a nossa totalidade, não num plano nacional ou cultural, mas cósmico. Evocamos um homem supercivilizado, subprimitivo. Ninguém conhece ainda a linguagem inerente à nova cultura tecnológica; somos todos cegos e surdos-mudos, em termos da nova situação. As nossas palavras e nossos pensamentos mais impressionantes atraiçoam-nos ao referirem-se ao previamente existente, não ao atual".
Grifei isto porque nos choca constatar que tudo o que julgamos saber se torna uma efeméride e se desatualiza num piscar de olhos - em tempo real.
A vida daqui pra frente poderá ser um imenso HD, mas nosso registro, nossa passagem terá de lutar para ter a equivalência de um bit.
Nilson Ares
Fonte: Cinco dedos soberanos dificultam a respiração / Marshall McLuhan
Explorations in Communication - 1966
Beacon Press, Boston

A Arte nos Tempos da Reprodutibilidade Técnica

Caríssimo Frei Tito, concordo contigo a principio em sua ultima postagem, mas existe algumas questões pertinentes à sua observação sobre a técnica que gostaria de comentar, mas acabou saindo uma coluna.
A banalização do objeto estético pela sua reprodutibilidade técnica é algo que vem chamando a atenção desde os Frankfurtianos, como Adorno e Benjamin, este ultimo, até elaborou um estudo chamado “A Arte nos Tempos da Reprodutibilidade Técnica”
Gostaria de chamar a atenção não somente para a técnica de execução de uma obra de arte mas também de sua difusão e reprodução. A escola de Frankfurt foi pioneira na análise material histórica, identificando a expansão do consumo no inicio do século passado propiciado por um rearranjo do sistema produtivo que aferiu ganhos de escala na produção e a criação de novos produtos, através do Taylorismo e do Fordismo, a partir desse momento a arte também passa a ser concebida como produto que pode ser reproduzido em escala industrial para consumo massivo, e os meios técnicos de difusão e reprodução que começaram a ter um salto de desenvolvimento nesse momento foram decisivos, a começar pelo o rádio.
Mas antes de considerar a técnica a premissa básica da cultura de massa, é preciso conceitua-la, e dizer que a técnica, assim como a ciência, nunca é neutra, e sim carregada de valores,ela sempre vem acompanhada de um programa de transformação social, que pressupõem um projeto ideológico definido, e que tensiona um significado na organização cultural. Por tanto, a técnica por si só já é portadora de significado mediante qualquer conteúdo veiculado por ela, é o que McLuhan diz quando “ o meio é a mensagem”, o próprio significado material da técnica(o meio) prescinde de qualquer significado (a mensagem) veiculado por ela.
Walter Benjamin tinha razão, ao dizer que o significado do valor estético do objeto artístico estava trasladando do objeto para o significado do aparato técnico que o reproduzia. Em outras palavras, é o que o Andy Warhol fazia na arte pop, um exemplo clássico são as serigrafias da Marylin Monrooe em que ele fez reproduzindo o rosto dela em várias cores, na verdade o objeto estético dele não era o rosto da Merylin e sim como ele reproduziu o seu rosto e qual técnica utilizada.
Hoje essa questão toma um contorno ainda mais complexo com as tecnologias digitais. Pois quando num momento histórico anterior a este que vivemos, em que os suportes sintáticos eram definidamente separados, como o da música não era o mesmo da fotografia assim como este também era incompatível com o do texto, hoje há uma convergência entre os suportes sintáticos fazendo com que todos os signos sejam exprimidos em bits, esse bit serve de suporte pra qualquer outro signo independente de sua natureza. Os signos encontram-se realcionados em uma nova dimensão socioespacial em que o materialismo histórico tradicional talvez não nos traga modelos de análises satisfatórios para compreende-los, dimensão essa que se convencionou chamar de ciberespaço.
Veja a música por exemplo, em que existe uma grande disponibilidae de registros fonográficos, que podem ser recortados e colados como samplers que podem muito bem ilustrar um jingle para as massas, ou servir de suporte para manifestações musicais de cunho multicultural como Lenine faz em “Pernambuca falando para o mundo” com samplers de Jackson do Pandeiro. Ou mesmo os vídeos que podemos fazer e postar nesse blog, juntamente com os textos, fotos, e quem sabe, quando a rádio digital estiver operando no Brasil, a nossa rádio Comuna Piraquara.
Assisto, confesso, com certa perplexidade a isso tudo, a modernidade tardia ou como muitos preferem, como Lyotard, a pós modernidade. Mas isso já é um outro debate.



Não é o poder da imagem ou o poder arrebatador da voz que decide a grandeza da criação mas a eficiência das maquinas reprodutoras e copiadoras - fatores muitas vezes fora do controle. Andy Warhol tomou essa situação como parte integral de sua obra, inventando técnicas deram cabo da própria idéia de original, importando muito mais as copias vendidads do que o que estava sendo copiado.
(Zygmunt Bauman in Modernidade Liquida)
Este livro do Bauman está com o Marcinho, quem quiser pode pegar!





domingo, agosto 19, 2007

O artista e o reprodutor

Há uma diferença que me parece essencial entre o artista e o reprodutor de arte. Por isso, os reprodutores podem ser um artista, aquele que atráves da técnica aprendida nas escolas são capazes de executar Baden, Jobim, Van Gogh e outros nos mais vastos campos da arte, mas não serão " o artista". Esse se diferencia pelo poder da criação que faz a arte renascer de modo que não conhecíamos até então , ele também detém a técnica , mas como um antropófago ele engole as artes e traz a novidade que faz arte renascer . Por isso os gênios são reduzidos e trazem consigo novas escolas até então impensadas.
Vejamos por exemplo o escritor José Saramago. Ele criou uma maneira nova de pontuar, usando somente ponto e vírgula, o que quebra as regras até então aprendidas nos bancos escolares. Assim precisamos além de mais atenção, usar também a imaginação,pois temos que imaginar volume e intensidade e outras características que eram dadas pela interrogação, exclamação e outros pontos que o autor nega a colocar.
Outra característica é que o novo incomoda e gera pânico aos conservadores, talvez um dos casos mais exemplares está na negação de reconhecimento das obras de Anita Malfatti por Monteiro Lobato que na época tinha uma influência muito grande no período. Tal fato deixou Anita em má situação.
Há um campo vasto para discutir tais questões, mas deixo para os comentáristas de plantão.

Tito, O Frei.


20 anos da morte de Drummond


" Se há um deus que regula o futebol, esse deus é sobretudo irônico e
farsante, e Garrincha foi um de seus delegados incumbidos de zombar de tudo
e de todos, nos estádios. Mas, como é também um deus cruel, tirou do
estonteante Garrincha a faculdade de perceber sua condição de agente divino.
Foi um pobre e pequeno mortal que ajudou um país inteiro a sublimar suas
tristezas. O pior é que as tristezas voltam, e não há outro Garrincha
disponível. Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho"

Mané e o Sonho(1983).

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Frei Galvão


sábado, agosto 18, 2007

Meu sangue, meu samba!


Ah,
Meu sangue
Ah,
Meu samba!

Ambos correm nas veias
Embalando versos,
Desenhando canções
Que o violão faz falar...

Ah,
Meu sangue
Ah,
Meu samba!

Quanta alegria
Vem à tona,
Quanto saudosismo
Na mesa deste bar.

Sei que os tempos
São outros...
Quanta saudade de Cartola
De Noel, de Pixinguinha.

Ah...
Chama mais uma
Uma cachaça
Uma canção
Não pára não...

Deixar chegar cavaco, pandeiro
Quem sabe o "sete cordas",
Que hoje eu vou chorar
Meu sangue, meu samba.

Vou ficar de bamba,
Celebrar a tradição.

Nilson Ares, 18/08/2007.

quinta-feira, agosto 16, 2007

O Infante

Empunhava um surrado violão
Fazendo os dedos cantarem uma simples e bela melodia
Oriunda do lugar mais fundo de seu peito
Onde guardava um coração nunca antes partido

Pregava de maneira singela suas esperanças
De uma vida inteira com pés descalços e fubecas
Balas de goma e pipas dançarinas no céu azul
De primeiros amores todo dia, a partir de hoje

Não conhece ainda a arte da boemia
Nem as musas que inspirarão suas canções
Mas ele já sabe desde pequenino
que enquanto tiver um violão será sempre um infante.

Mario Crema

terça-feira, agosto 14, 2007

O Menino Que Queria Morar No Micro Ondas

Domingo, dia dos pais, durante um encontro furtivo com um aluno (o Zapata) no bar em que eu tomava um rabo de galo, foi que ele me fez três perguntas: a primeira era como funcionava o micro ondas, a segunda era por que eu o chamava de Zapata se o nome dele era Emiliano, e a terceira era se realmente eu tinha esse costume de tomar cachaça nos domingos, ou se, só tomara naquele por ser dia dos pais e estava feliz. Capciosas as perguntas, pois se tratava de uma criança de doze anos que foi comprar massa de tomate pra mãe pro macarrão de domingo justamente naquele bar em que eu estava.
Bom, comecei pela pergunta mais fácil, o micro ondas. Isso por que, ele queria que o bicho funcionasse de porta aberta para que a radiação eletromagnética do aparelho esquentasse a casa dele no inverno, ou se seria possível morar dentro dele, porque ele viu que no Japão as pessoas alugam algumas estruturas em forma de caixote retangular toda climatizada com som e televisão para pelo menos dormir uma noite, caso esteja de passagem.Depois de toda minha tentativa de explicar o que é radiação, energia, espectro eletromagnético acabei concordando com o Zapata sobre a possibilidade de morar num micro ondas. Sim, é perfeitamente possível, o problema deve ser no verão!
A segunda foi sobre o Zapata. Expliquei desde o Porfírio Díaz passando pelo EZLN(Exercito Zapatista de Libertação Nacional) até chegar ao comandante Marcos, explanei com toda a retórica e didática que só uma mesa de bar pode propiciar.
No que eu passava pra terceira, entrou um sergipano que não só na fisionomia, mas sobre tudo, no gestual lembrava muito o Quentin Tarantino, não sei bem direito o nome do caboclo, mas a cena foi uma tomada clássica desse ator, roterista, diretor sei lá mais o que..
A parada era seguinte, esse sergipano tinha comprado uma casa inteira nas Casas Bahia, tudo, jogo de sofá, cozinha, guarda roupa, cama, geladeira, televisão LCD 34”, som de 40watts, 75PMPO, DVD, até computador. Vendeu tudo pela metade do preço pro pessoal da rua, deu um calote nas Casas Bahia e voltou de avião pra Sergipe ( agora imagine a quantas anda o caos aéreo). Não é que a mulher dele, que ficou o esperando aqui mais de dois anos, (pois ele disse que só ia visitar o pai doente e logo voltava), entregou o endereço dele lá de Sergipe pro Juiz!
Nesse dia dos pais, Tarantino voltou, mas não foi pra visitar o seus filhos, entrou rasgando no bar, foi direto na Maria das Graças sua mulher ou ex-mulher sei lá, e chamou-a de vagabunda, vadia, rampeira, puta. Disse que ela não poderia ter feito aquilo com ele. Pra piorar a situação ela joga o copo de cerveja na cara dele, e ele emenda um direto de esquerda cheio na boca dela e na seqüência um de direita no olho.
O pessoal do bar, apaziguadores de plantão, seguraram o Tarantino, enquanto Arlete, que foi amante do truculento gritava: bota pra fudê!!
Era o coméstico caótico da desgraça, de um lado o pessoal que aparecia no bar somente aos domingos, trabalhadores, pais de família tentando conter o entrevero, de outro os bêbados, barriga d`água, maconheiros, cheiradores, pipadores de crack todos amigos do Tarantino que não estavam nem aí pro acontecimento, o bar era dividido entre a ala dos bacanas e dos fodidos.
Optei ir embora, e de saída o meu aluno me cobrou da terceira pergunta que não havia respondido, disse à ele que o diretor do meu Instituto de Pesos e Medidas, o Nego, cachaceiro contumaz daquele bar, poderia responder por mim. No dia seguinte, segunda feira, encontro meu aluno na escola com uma camiseta preta escrito com letras grandes – ZAPATA VIVE!

Viver

“Ser artista não significa calcular e contar, mas sim amadurecer como a árvore que não apressa a sua seiva e enfrenta tranqüilas as tempestades da primavera, sem medo de que depois dela não venha nenhum verão. O verão há de vir. Mas virá só para os pacientes, que aguardam num grande silêncio intrépido, como se diante deles estivesse a eternidade.

Aprende-o diariamente, no meio de dores a que sou agradecido: a paciência é tudo”

Raine Maria Rilke – Cartas a um jovem poeta


Abraços

Rei da Vela

domingo, agosto 12, 2007

Domingo, quase dez da noite


Domingo, quase dez da noite.

Penso no amanhã

Em bater meu cartão amanhã

Ouço "Doors", vejo Elvis.

Penso em minha filha...


Domingo, quase dez.

Minha mulher fala com o pai distante

Trocam carícias de uma saudade ofegante

Recíproca da terra em que o velho descansa.

E o telefone encurta a distância.


Domingo,

Ainda trago o gosto do que houve

Churrasco, cerveja, refrigerante,

Um bolo doce "anti-depressivo"

E ainda o sabor do calor de estar junto.


Domingo, mais de dez da noite.

Há um vazio,

Preciso descansar

Desligar desta vida

De telefone, computador, e-mail...


Domingo,

Tem que ser dia de campo,

Assim como o sábado e a sexta

Dias de merecido descanso,

Como os do pai de minha mulher

Que pela vida inteira trabalhou tanto...


Já passei dos trinta,

Já se foram tantos domingos

Mas ainda não vislumbro qualquer resquício

De descanso.


Acho que estou só começando...


Nilson Ares



Comuna em crise....Rapsodia.......Sobre os Videos

Uma crise abateu sobre o comunapiraquara, uma expulsão e um pedido de retirada. Assim funciona . Uns virão e outros irão, mas eu como administrador dessa ferramenta construtiva e destrutiva estarei aqui, manda no peito que seguro.
Os textos e os comentário não são de responsabilidade do administrador ,mas quando há uma reclamação geral dos menbros do comuna, precisamos tomar as ações e foram tomadas.
Este lugar aqui não é brincadeira , os textos poderão ser denotados pelos comentáristas, que tem momentos que nem comentam o texto, mas comentam o comentário anterior , neste momento vem de tudo. Essa anônimo , que também pode ser uma anônima, está com medo de mostrar a cara, então chamarás anônimo(a) o cagão ou a cagona. Mostre a sua cara.
Quando foi criado este blog o intuito era este mesmo e todos sabem ou deveriam saber disso.

Chega....

Nessa sexta feira estive no rapsodia e estava muito bacana. O bar é muito bom, mas tem surpresas como certo dia que lá estive e engoli um mané tocando Raul sem parar , tenha dó. Entretanto, nesta sexta feira um bom som do Alê Freitas e um cara acompanhando no bandolim, som de primeiro nível. São José ainda vale a pena e estar em Santana é sempre bom.
Teve também um dado momento que um cara declamou uma poesia de Drummond do livro o Corpo, que para quem não sabia ele lançou somente após a sua morte , pois não teve coragem de colocá-la em vida pelo erotismo presente e foi essa :

Carlos Drummond de Andrade é

A puta

Quero conhecer a puta.
A puta da cidade. A única.
A fornecedora.
Na rua de Baixo
Onde é proibido passar.
Onde o ar é vidro ardendo
E labaredas torram a língua
De quem disser: Eu quero
A puta
Quero a puta quero a puta.

Ela arreganha dentes largos
De longe. Na mata do cabelo
Se abre toda, chupante
Boca de mina amanteigada
Quente. A puta quente.

É preciso crescer esta noite inteira sem parar
De crescer e querer
A puta que não sabe
O gosto do desejo do menino
O gosto menino
Que nem o menino
Sabe, e quer saber, querendo a puta.

http://cseabra.utopia.com.br/poesia/poesias/0028.html

Os videos desta semana fala sobre a maravilhosa música Clube da esquina que deu nome para um disco que está entre os melhores do Brasil. Há um vídeo com slides muito bem escolhidos que não há nada de cafona, e outras versões cantadas : Milton cantado clube do esquina menos conhecido, outro vídeo com Lô Borges e por último Flávio Venturini.

Boa semana a todos.


Tito , O Frei.

Nota: foto em São José dos Campos, Tempestade.








quarta-feira, agosto 08, 2007

Ética

Umas das coisas mais difíceis é tecer algumas palavras sobre ética ainda mais para mim que sou um agnóstico, segundo o Padre Fernando, um ateu disfarçado.
Se Deus não existe em que basear-me para lidar com as coisas, Deus morreu e com ele todos os valores, o que faremos agora , eis o que falou o filosofo Nit.....Nós matamos Deus.
Bem, penso que algumas coisas são valores humanos e desamasidamente humanos, pelo qual acredito que se foi nós que críamos , deveríamos lutar para que permaneça.
Não darei aqui o nome, mas falarei de palavras:

amor, generosidade, afetividade, empatia, tolerância, respeito ao outro( essas são éticas)

se críamos essas palavras, e elas refletem uma imagem de ser, acho que vale a pena pensá-las quando tomamos as ações perante ao outro.

Hobbes disse que o homem é o lobo do homem, Caetando parafraseou e disse : Sejamos o lobo do lobo do homem.

Melhor ainda a ápice frase de Voltaire " Não concordo com uma frase do que fosse diz, mas defenderei até a morte a possilidade de pensar".

Tudo aqui acima é passível de contradições e isso é ótimo, mas não me mate, pelo menos essa noite não .

Tito, O Frei

segunda-feira, agosto 06, 2007

Ele e Ela

É preciso mudar o rumo dos lamentos.
Nos olhos inchados refletem o coração dela que virou uma panela de pressão.
Seus lábios esboçam um sorriso triste que mais parece a lua minguante em noite chuvosa.
Seu corpo magro sinala emoções a flor da pele e seu comportamento traduz o labirinto dos sentimentos que a está levando para o precipício donde o meu medo é que ela escolha saltar a cair.
É preciso mudar o rumo dos lamentos.
Antes o caos. A partir dele é possível a ressurreição da paixão pela vida aprumada e livre de medo.
O mal não dá medo mas o medo faz mal, adoece.

Agora ele, é a própria roupagem do amor magro, desnutrido e analfabeto. Suas queixas descambam na filosofia dos livros e na parede gelada de uma garrafa de bebida.
A calçada estreita e curta recebe seus pés desalojados de esperança. O gosto amargo do amor desletrado que ele confina através do espelho sobe a garganta e desaba na boca do bar.
É preciso mudar o rumo dos lamentos.
A paixão é a religião do coração e necessariamente necessária.

domingo, agosto 05, 2007

Frei Calvão : deletado por tempo indeterminado

A todos leitores:

O senhor Frei Calvão, morador na Vila Maria, na cidade de São José dos Campos, São Paulo, São Paulino de carteirinha e amante do Rogério Ceni, trabalhador na área comercial no ramo ortodóntico, está sendo destituído do comunapiraquara conforme o bota fora de sexta feira, que aliás que nos chama sofá sextafeirense, não compareceu a convocação a sua apologia.
Para não sermos injustos com os leitores desse blog, tentaremos explicar e fazer alguns comentários dos motivos da saída:
- xenofobia excessiva aos pobres e miseráveis deste país.
- xenofobia aos torcedores de futebol que não são capazes de pagar cadeira cativa. Mesmo que esse seja São Paulino
- etnocentrismo futebolístico: só enxerga pelo próprio umbígo, e tem como parâmetro o jogador artístico, o Cénico, para não dizer o cômico. Ama o futebol , desde que o parâmetro de análise seja o São Paulo.
- Antinordestino, antisemterra, anticorinthiano, antagônico a tudo que seja pobre .
Não nos chame de antidemocrático, pois ele foi chamado ao encontro religioso que teve na casa do Chassi de Grilo e não compareceu e a tomada de posição foi unâmine: o bota fora Frei Calvão foi aprovado.
Assim, ele tem a chance de retorno, mas precisará da aprovação do comunapiraquara, que se dará de maneira festiva , como ocorreu o bota fora.
Lembramos ainda que tentamos ligar várias para o celular do bonitão só dava "indisponivable".
Assim aceitaremos seus comentários Calvão , divulgaremos seu blog, entretanto, no comuna só comentário por enquanto.

Nota: reunião ocorrida no dia 03 de agosto do ano de 2007, comparecendo o senhor Chassi de Grilo, o senhor Fárias, o senhor Coronel Dentes, o senhor Piquitito, o senhor Sarsa. Temos como testemunha a atual companheira do Senhor Chassi de Grilo e do Senhor Sarsa , vulgo Vá pros Ares como bem gosta de chamar o acusado.
Lembrando que esperamos até às 3 da batina e nada.
Por favor, estamos aberto a comentários.

Boa noite a todos .

A administração.

quarta-feira, agosto 01, 2007

Comunicado

Aos caros colaboradores e leitores,anuncio minha retirada momentanea desse espaço,por descompartilhar do ideal de seus administradores e demais.Minha participação aqui fundia-se com o ideal de expandir o Blog a pessoas interessadas em participar nesses espaços democráticos,colaborando com sua leitura e direito de comentar o que bem entender sobre o que ler,fato que acredito que aconteceu,contudo porém,vejo comentários maldosos e sujos,para não dizer ,sem excrúpulo,sobre todo e qualquer posicionamento de minha parte em interação com o espaço.A tudo isso,me retiro para evitar fazer média com tal,para tomar cerveja na facha ,ou sei lá,esquematizar um esquema ai.Ler demagogias de esquerda e pornografia escancarada de chatices,é fácil numa rede,numa banca ou até em ambientes de trabalho hoje em dia.Porem expressar sentimentos e posições de uma massa ativa ,incomoda e é chato.Assim,quando o mesmo espaço tiver a interatividade e fascinio que me fez colaborar com ele,me comprometo a um retorno saúdavel e prospero aos olhos de quem vê, Mas no momento,ausente da escrita de comodoros queridos por mim,entrego-o aos fazedores de média pop.

terça-feira, julho 31, 2007

IGNORÂNCIA

A ignorância está no ser
assim como a humildade está para a vaidade do ser.
A vida nos submete a situações que refletem o
verdadeiro ser que somos e não aquele que
queremos ser.
Impregnados de crueldade tomamos atitudes
em nome do melhor.
Somos ignorantes desde que éramos um estúpido
espermatozóide correndo por uma vaga à luz;
caso não fôssemos não estaríamos nos
humilhando nessa estufa maldita.

A visão filosofica das olimpíadas


Diz-se que na Grécia antiga havia três classes nos esportes:

Os competidores que mostrava as forças que uma localização;
Os torcedores que caçoavam uns dos outros como é comum em nossa sociedade;E os filósofos que faziam suas observações.
Confesso que como brasileiro tento assumir as três posturas ao mesmo tempo.
Um futebolizinho as terças, o torcer para timão , realmente somos sofredores, de um time que viu sua massa de torcedores crescer durante vinte e cinco anos e também um filósofo mediocre, aquele que está abaixo da média e por isso vejo como de um monte e observo o esporte, especificamente o futebol.
Assim consigo ver beleza em muitos jogadas, sem fazer como algumas pessoas que não consegue ver futebol sem olhar somente para seu time que aliás nos leva a "europeização" do futebol brasileiro .
Vamos tentar usar o blog para estudar e falar um pouco do Ademir da Guia , do Pelé , de Sócrates, de Zico, de Tostão , Diamante Negro, da malandragem do Serginho e outros e parar com a parafernália de elevar um time que só está onde está por questões financeiras.
Estamos no fim do futebol, isso se mostra no estado que está o Flamengo, Bahia, Corinthians, particularmente meu time de coração, e tantos outros.
Caso contrário é melhor parar de fazermos convites para as pessoas lerem lixos que tantos orgãos de impressa já publicam.

Sem mais.

Andarilho e sua sombra.

domingo, julho 29, 2007

DE SEGUNDA-FEIRA A DOMINGO FEIRA-LIVRE

Postei aqui um texto de um grande amigo, para que a gente saia um pouco dessa de FOTOLOG (Nilson Ares).
Observando a dinâmica social e sua relação,considerando a interação e o trânsito intenso de pessoas e veículos sentido bairro centro e centro bairro,percebe-se neste movimento um efeito articulado sincrônico, em períodos “horários” programados do dia ,durante a semana de segunda a sexta, mudando sua dinâmica no final de semana , sábado e domingo.
Durante a semana, logo pela manhã antes das 8:00 hs, a frota de carros e a locomoção de pessoas se intensifica pelas ruas sentido bairro centro, se dirigindo para um mesmo fim, o trabalho, esse movimento se estende por mais de 1 hora, chamado hora do rush.
Chegando o meio do dia, a circulação de pessoas pelas ruas dos centros urbanos e sub centros aumenta significativamente, pois é parado parcialmente suas atividades, é chegada a hora do almoço.
No final da tarde o trânsito gradativamente vai se intensificando no sentido inverso do da manhã (hora do rush parte 2) após ás 18:00 hs, com o cair da noite, acontece o fluxo da volta do trabalho e o refluxo simultâneo em direção as escolas e universidades, depois de algumas horas da noite , na volta, o movimento é aos poucos, sendo mais calmo.
A programação continua! Agora estática, dormindo! No espaço deserto das ruas e centros urbanos se ouve o silêncio, um andarilho ali, um mendigo aqui, uma profissional do sexo acolá, os dias se repetem de segunda a sexta, neste vai e vem orquestral, de forma ordenada e caótica.
É chegado o tão esperado final de semana onde a interação social se torna mais lúdica, o individuo sendo programado durante a semana, fica difícil de ocupar o tempo ocioso “precioso” com atividades que não fazem parte do fisiologismo, permanecendo no enquadramento programado, o sujeito se torna um agente social ativo - condicionado.
A identidade do sábado é difundida em várias atividades, sendo uma delas a mesma da semana.
Já no domingo pela manhã nos bairros, o dia começa com as feiras de frutas, verduras, legumes e uma infinidade de bugigangas quase sempre úteis, normalmente as feiras de domingo vão até ás 13:00 hs ,logo depois o movimento cai bruscamente nas ruas, a população se recolhe,é hora do descanso da tarde de domingo,a partir das 18:00 hs, nota-se um movimento intenso de evangélicos e católicos nas ruas se dirigindo as igrejas, e com a chegada da noite, exatamente ás 20:00 hs, é encerrada santa missa , os católicos retornam a suas casas, e logo depois das 21:00 hs, paulatinamente, é a vez dos evangélicos com o término do culto.
No dia seguinte, tudo começa novamente, e nesse ir e vir sistêmico e frenético, a população se movimenta em grandes blocos, e instalam-se em espaços propícios a suas atividades, se transformando em uma sociedade programada, numa cidade sincronizada.
Fabiano Baldi

quarta-feira, julho 25, 2007

Meu Ralo! Meu Reino?

Há algum tempo venho analisando a trajetória do odor na história do homem.
Ao assistir PERFUME, alguns meses atrás consegui me transportar para a Europa (França) no século XVIII, e ter contato com aquelas ruas emboloradas, as feiras populares e o cheiro repulsivo das pessoas daquele período. Nunca estive na Europa, mas através das leituras que faço sobre a história da vida privada do homem e seus costumes, pude observar que sempre houve um fascínio dos homens pelos odores.
Em um livro sobre saúde pública na América Latina, que agora não me vem o nome, pude ler que os antigos Portenhos, tinham o hábito de acharem o cheiro dos mictórios públicos atraentes, e que o cheiro de bosta de cavalo é sinal de vida saudável.
Também nesse período, andei dando mais atenção aos odores, e descobri que um dos odores naturais que mais me agrada é o de terra molhada após meses de estiagem.
Nesse domingo passado assisti o Cheiro do Ralo ( belíssimo filme), e novamente a questão veio à tona. Somos responsável pelos dos maus cheiros da vida? Todo oleosidade da sua cabeça após alguns meses sem lavar seu travesseiro, te fascina? seus gases você tolera?
Segundo pesquisas o cheiro da bosta é o que o homem (dentre os cheiros desagradáveis) mais consegue aturar, pois quando criança as fraudas por algum tempo ficam entopidas de merdas, portanto há uma familiaridade com o cheiro.
e agora?
O cheiro do ralo é realmente o cheiro que quem o usa? ou tudo não passa de asneiras, tolices?
abraços
Rei da Vela

domingo, julho 22, 2007

Neologismo

Há uma amigo nosso nesse blog que além de ser fã de carteirinha do Chico Buarque deu agora para copiá-lo nos neologismo, o unico problema é que enquanto o cantor cria os seus neologismos factíveis de ser interpretado ele vêm com uma pérolas insuperáveis e insuportáveis e que faz do tranqueira um figura.
Uma outra mania foi transformar o blog num fotolog, mas como não podemos caçá-lo, deixa para ver o que dará.

boa semana a todos.

Tito , O Frei.

sexta-feira, julho 20, 2007

Online

A vida nada vale
A vida nada vale
Perdi o meu amor
Não estava mais online.

A vida nada vale
A vida nada vale
Ela me deletou
Fiquei tão offline...

Era tanto download
Amor baixando amor,
Que pensei que era real
Esse lance virtual que rolou...

Não sei por que travou
Nossa conexão?
A coisa estava séria
A banda era larga
Nada de acesso discado, não...

A gente se falava
E se amava via bits
Tantas palavras trocadas
Tantos hiperlinks...

Agora ela se foi
Do Orkut se mandou,
Msn não atende
E-mail não responde...

Na solidão me enclausurou
Me excluiu de sua vida
Na lixeira fui parar.
Bate-papo nunca mais...

Acho que vou desconectar.

Nilson Ares, 20/07/07

quarta-feira, julho 18, 2007

qual vôo mesmo?

No final do ano passado estive em Recife, e voei num desses aviões que faz várias escalas. O Vôo é noturno pois é mais barato. Graças à Deus tive uma viagem tranquila, porém tive a impressão de estar em um ônibus da São Bento que para ir ao novo Horizonte, passa por vários , bairros, entre eles, Jd Paulista, V. Industrial, Motoroma, ... , pois de Guarulhos ao Recife, há várias escalas.
Pois bem, outra vez São Paulo é palco de um desastre. Já não basta a criminalidade, o trânsito rodoviário, a poluição em todos os sentidos, falta de estradas, mais uma vez mais pessoas simplismente viraram cinzas.
Não quero ser aqui um comentárista ridículo, que tenta passar seu sofrimento em cadeia nacional, e que na próxima notícia mostra alguma cena do cotidiano parar aliviar a dor, ou mesmo para desviar à atenção da massa.
Por uma visão econômica e de segurança pública e aérea, se a classe média e baixa tiver acesso ao transporte aéreo, o que será do céu de nosso pais?
Não quero defender o discurso que só uma elite deve voar. Mas em um país que se preocupa mais com a confortabilidade do aeroporto ( terminal, cadeiras, ...) do que com a infra-estrutura necessária, é um país que não tem o mínimo de consideração pelo próximo.
Meu Deus , onde é que vai parar essa massa.
abraços
Rei da Vela

sexta-feira, julho 13, 2007

Há exatamente uma semana estava eu conversando com o Frei Farias, no Revelando São Paulo. E naturalmente veio a baila o mote já utilizado por ele na sua ultima postagem deste blog, o seu poema sobre o vale, que era a questão regional.
Comentamos que esa questão também foi um mote num debate na FLIP em Paraty. Porém existe algumas informações que deveria chamar a atenção de mais pessoas realmente preocupadas não só com a cultura mas também com todo o espaço regional a começar por sua constituição física.
Contrariamente o que deva pensar o senso comum a respeito do que se convecionou chamar de globalização, o espaço regional tende a se afirmar frente a pasteurização do capital global.
A formação do espaço regional é um fenômeno material, histórico e organizado numa conjuntura dialética, como bem teorizou o grande Milton Santos.
A referência que se faz em questão, se dá pelo fato de considerar que, para o homem obter seu sustento, interfere na natureza e a transforma através de seu trabalho, Este trabalho é uma realidade social e histórica, pois ele recria o meio e a sua cultura através da evolução de sua técnica. Todavia, sendo o espaço uma entidade que sofre influência da conjuntura social e histórica e econômica e relacionando o âmbito regional e global, convém afirmar que para cada formação histórica e econômica existe uma formação espacial distinta que a corresponde.
E levendo-se em conta essa premissa, colocamos o espaço regional com suas particularidades naturais e culturais como um vetor de igual intensidade mas de sentido contrario ao vetor da globalização.
Tomamos como exemplo, a inssureição de minorias etnicas, culturais, sexuais, políticas e regionais no mundo inteiro. Indios colombianos, bolivianos, equatorianos, minorias etnicas européias principalmente do leste. A valorização do que se convencionou chamar de World Music, sons da ìndia, Africa, America do Sul.
Na ultima década viu também a valorização do conhecimento tradicional, dito vulgar não acadêmico de populações tradicionais e no mais das vezes de organização tribal, como acontece com os indios da sulamericanos. Conhecimentos que têm uma marcação regional bastante profunda.
A Eco 92 foi prova disso, Com o tratado de Biodiversidade, que os EUA, também não assnaram. Com esse tratado obriga-se qualquer industria, instituto de pesquisas internacional pagar uma taxa de bio prospeção para qualquer estudo de princípio ativo na região, no caso do Brasil amazônica. E se essa região estiver dentro de alguma comunidade tradicioanal ou indigina essa industria de pesquisa terá que pagar Royalties para a comunidade que detem a informação básica necessária para se chegar a sintetização de tal princípio ativo.
Isso sim é uma prova de como o regional sua cultura e conhecimento, tem um peso global e chega até incomodar grandes potencias.
Sobretudo, quando se trata de tipos de conhecimento, que o racionalismo e cientificismos organizado emsua metodologia menosprezou e criticou durante toda histótia da ciencia.
No ano passado tive a oportunidade de fazer um curso no INPE em cachoeira paulista, e na área em estive o principal trabalho era adaptar um super computador comprado do Japão, eles tentava criar um modelo numerico que correspondesse aos paâmetros físicos e ambientais do Brasil, como vegetação, pressaõ atmosférica e relevo, na realidade eles queriam trpicalizar o sistema do computador
Pra se ver que o regional precisa até de modelos numéricos próprios.

São Brandão e a Ilha misteriosa

A Ilha do Brasil

Na minha última leitura sobre a Invasão do “nosso” Pindorama, houve algumas observações.
O Nome Brasil originou-se de um Monge Irlandês, chamado São Brandão, que partiu da Irlanda para o alto-mar no ano de 565, e que em seus relatos evidenciava a existência de uma Ilha grande “movediça”, que perambulava pelo mundo (o que explica o fato de sua localização variar tanto de mapa para mapa na idade média).
Sabemos que o misticismo, o medo do fim do mundo, a peste, as terras imaginárias, os homens de um pé só, dragões, satanás, abismos,... Essas crenças todas permeavam a mente do homem medieval. E que fazia dos habitantes da idade média seres que possuíam inúmeras crenças, como em uma terra prometida com o intuito de aliar todos os pecados do mundo (como existe até hoje) e que se dedicavam às peregrinações, rezas, abstinências, sacrifícios, entre outras coisas.
Quando a frota Cabralina chegou aos pés do rio Caí em Porto Seguro, na manhã de 23 de abril de 1500 (no 2º ancoradouro), ali pensavam alguns navegantes a bordo terem encontrado uma grande ilha, a mesma que São Brandão falava e que era tão falava nos círculos dos homens do mar, nas tabernas, nas cortes, nos pensamentos místicos.
Portanto o nome “Brazil” provém do celta Bress, que deu origem ao verbo inglês to Bless (abençoar) e que Hy Brazil, portanto, significa “Terra abençoada”.


Se por ventura vocês encontrarem essa história no livro Jangada de Pedra e o conto da Ilha Desconhecida ambos de José Saramago, não é mera coincidência, é História mesmo.





Abraços


Rei da Vela


Fonte : Eduardo Bueno. A Viagem do Descobrimento. coleção Terra Brasilis. vol.I 1998 RJ

quinta-feira, julho 12, 2007

Excesso de Decoro Mata Pés Sujos

O Caderudo fechou. Aquele outro na esquina da 23 de maio lá na Vila Maria, após 60 gloriosos e gozosos anos, também sucumbiu ao falso excesso de decoro que a nossa urbi, causada pela especulação imobiliária, foi acometida na ultima década. E ontem numa conversa franca com o Frei Calvão, recebi a noticia que o Universo Paralelo, um boteco perto do viaduto, já há uns dias não abre mais. Este excesso de decoro josense se bateu com uma peste entre os Pés Sujos de nossa comunidade.
Foi no Universo Paralelo, que o Marião foi visto antes do recesso.
Nove da noite encostou-se no seu canto cativo, chamou uma jurubeba com uma rasinha de Amélia que matou no primeiro corte, depois um rabo de galo, pra acompanhar uma cervejinha. A cada dose parecia que Marião procurava, à princípio, a incoerência, como se Marião buscasse intencionalmente a recusa por qualquer sentido. Mas uma após outra, após a primeira garrafa, ele e seus companheiros criavam naquele portal um ambiente de símbolos avolumados de significados, que dicionário nenhum os comportaria. E que seria impossível reconverte-los e utiliza-los em uma outra história que não fosse aquela, a ressurreição da filha do Candinho da Platinela.
Que logo após a morte da filha, pasmem e acreditem se quiserem, o cabra nem teve tempo de ver a ressurreição da menina. Que foi lindo! Pois havia organizado uma pescaria com a turma do bar, mas fugira com o dinheiro.
Mas voltando ao caso da ressurreição, contam, que a menina surgiu em manto branco e azul celeste, igual o da Virgem Maria, com uma luz leve e difusa numa nuvem clara de fumaça que cheirava a jasmim, e foi subindo ao céu para junto de deus Pai, deixando só a sua fragrância naquela noite.
O pessoal conta que a filha voltou só para encontrar o safado do pai, que era um panderista de primeira, mas caloteiro que só ele. Existe até hoje, uma reclamação por escrita na lousa do bilhar do bar a respeito do calote do Candinho da Platinela.
Mas Marião sabia que não era bem isso. O motivo da volta era os encontros que tinham as quintas-feiras a noite no sopé do morro do beco da Paz, a menina aparecia num véu que refratava a luz das estrelas, numa beleza translúcida, transparente. Tinha os lábios lívidos e a pele branca e gélida como a lua, linda...linda! O que fazia Marião passar o reto da semana impaciente na espera do próximo encontro.
Apaixonado, Marião estava perdidamente apixonado!
Absorto que estava, Marião foi ter uma parte com o padre da paróquia. Este por sua vez, disse à Marião, que paroquiano dele que se presta, não se daria a tipos de encosto, bruxaria e coisa feita. Porque, crendice popular não deve fazer parte da vida de um cristão. Chegando a perguntar literalmente à ele se ainda era cristão. Marião respondeu que até certo tempo atrás não o era, mas que depois, começou por livre espontânea vontade a ser; porque se assim não fosse não saberia pecar.
O fato de ter se tornado cristão só pra poder pecar, era a sua teologia, gostava de dizer que a fé absoluta e a incredulidade total nos levam para fora do fantástico, a hesitação entre eles é que dá vida! O fantástico ocorre na incerteza do que é ou parece ser. E Marião experimentado que era nas leis naturais do mundo deparava-se com acontecimentos que não trazem a certeza de serem parte ou não de seu mundo familiar. Isso por que ele só conhecia as leis de uma realidade mandatória, ordinária que vez ou outra tinha uma acareação com o sobrenatural.
E essa hesitação de realidades experimentada por Marião, e que seus companheiros ainda não a tinham, entre o natural e sobrenatural, que é o que dá a vida segundo ele próprio, era o que também fazia Marião ir em frente com seu amor pela filha defunta do amigo Candinho. Aquela que ressuscitou para amá-lo, naturalmente, de corpo e alma.
Desde que o Universo Paralelo entrou em recesso Marião nunca mais foi visto.

PS. Este texto foi escrito de traz para frente.

MEU VALE MEU VELHO


É MEU VELHO
MEU VALE TÁ MODERNO
CARRO DE BOI EMPLACADO
E AS DÍVIDA COM OS HOMI DE TERNO

MEU VALE MEU VELHO
ESTRONDO DE PAISAGEM NATURAL
TINHA PURI, TUPINAMBÁ E TAMOIO
E BANDEIRANTE FIRMÔ CORPO NESSAS TERRA.
FOI DE AÇUCAR E BOA CACHAÇA
DO PARAÍBA ÁGUA BROTAVA SANTA
NA TRILHA DO OURO FOI DE TROPA, DE VIOLEIRO
TAMBÉM JÁ FOI DE CAFÉ, JÁ FOI TECELÃO
E DE TRILHO DO TREM QUE VEZ PASSA,
MAS MEU VELHO ESSE VALE, HOJÉ DE AVIÃO

MEU VALE ESSE VELHO
É DO CÉU E DO ESPAÇO
COSMOPOLITA COM HORIZONTE
É DE MÁQUINA MAIS DO QUE GENTE
TANTAS RUA E MUITA PRESSA
E VIA CORTANO OS MONTE

VALE A PENA MEU VELHO, VALE,
FICÁ CORRENDO ATRÁS DO TEMPO
QUE ESCAPA ENTRE OS DEDO
E COME A VIDA DOS VELHO
QUE VIÇO INDA PRESENTA,
IMBORA ROSTO DE MOÇO TÁ CHEIO
DAS MARCA QUE CHEGA COM O VENTO

AH MEU VELHO
NUM SEI SE VALE
SOMO FEITO DE RIO, DE VÁRZEA, DOS CAMPOS,
BAÚ DE PEDRA, SERRA QUE CHORA,
UMA CAMINHA PRO ALTO
E A DO MAR QUE FINDA NA BELEZA DE NOSSAS PRAIA
QUE TEM TARTARUGA, NO MATO TEM MURIQUI.
É BACIA DO RIO QUE NÓIS CARREGA NO NOME.

MEU VALE QUERO VELHO.
MEU FILHO É DO VALE
VELHO DE MEU PAI QUE LUTOU
MEU VELHO, NUM VALE
SER DE PONTA SEM TRADIÇÃO
A GENTE FICA VAZIO
INVADE UM PERTO NO PEITO
DE QUEM É CAIPIRA DE CORAÇÃO.

Samuel Farias
12, Jul, 2007






quarta-feira, julho 11, 2007

Escreveu por mim

"Uma classe média insegura é o reservatório em que os fascismos sempre procuraram seus canalhas." Contardo Calligaris

leia a íntegra do texto publicado na Folha aqui
(não conheço o blog)

sexta-feira, julho 06, 2007

Uma resposta ao caro Frei Calvão




Há 40 anos o mundo parava. Era lançado “Sargent Pepper`s Lonely Hearts Club Band, o disco-conceito do Beatles. Hoje, o mundo pára de novo. Para olhar e reparar que se passaram quatro décadas e que o disco continua atualíssimo em seu conjunto – letras e melodias. Não é raro ouvirmos alguém tocando ou assoviando “Lucy in the Sky with Diamond” por aí. Lançado em 1º de junho de 1967 na Inglaterra e no dia seguinte nos Estados Unidos, “Sargent Pepper´s” foi o divisor de águas na música pop, deixando à amostra do mundo o movimento de contracultura, que seria, meses depois, levado às ruas pelos hippies na América, experiências com drogas sintéticas, como LSD, e também norteando os estudantes que se rebelaram em maio de 68 na França.

Apontado pela crítica como o melhor disco dos Beatles, “Sargent Pepper´s foi inovador em vários aspectos. Um deles foi o fato de se, pela primeira vez, fazer um disco em que as faixas se relacionavam, para compor um tema: uma banda que existia para alegrar o seu mundo. Também mostrou o “casamento” de instrumentos usados freqüentemente no rock, como guitarras e baixo, com outros de origem oriental, como no caso da cítara, e alguns utilizados em orquestras. Tudo montado, a dedo, por George Martin, produtor do grupo. Os Beatles ficaram de dezembro de 1966 a abril de 67 gravando as canções. Durante este período, de acordo com estudiosos da música do grupo, tiveram contato maior com a cultura oriental, levados por George Harrison, que já “namorava” com estes conceitos. Outro cuidado do disco foi com a capa, montada com flores e mostrando dezenas de personagens, com os Beatles no meio deles. Foi com “Sargent Pepper´s que o grupo de Liverpool também se mostrou ao mundo, pela última vez, como uma banda mesmo – nos discos seguintes foram poucas as faixas em que os quatro rapazes tocaram, efetivamente, juntos. Outra herança do disco para a cultura pop foi o videoclipe. Foram faixas como “Strawberry Fields Forever” e “A Day in the Life” que tiveram imagens acopladas a elas, originando videoclipes. Por estas e muitas outras razões, que se fossem ser listadas deixariam o texto longo demais, é que se comemora os 40 anos do lançamento de “Sargent Pepper´s








Tito, O Frei.


quinta-feira, julho 05, 2007

Beatles


Está semana um amigo emprestou-me uma coletânea dos beatles que levou a minha infância, não que seja tão velho assim, afinal quando os Beatles se separaram eu ainda não havia nascido. Entretanto, meus primos tinham vários discos dos Beatles e ficávamos ouvindo por horas .
Hoje ouvindo percebo que os caras eram realmente muito bons, não consigo achar nada de imprestável. Conversando com este amigo meu, ele falou-me algo em que concordei plenamente. Às vezes ouvimos um disco e não gostamos de todas as músicas, isso não ocorre quando ouvimos Beatles, mesmo quando escutamos as primeiras coisas.
Os caras começaram timidamente, de forma comportada,entretanto, não ficaram só nisso. Foram a India e implantaram a musicalidade da cítaras as suas músicas. Renovaram com Revolver, um Lp marco da época, sem falar do magnífico e pra mim o melhor disco de todos os tempos, em se tratando de música estrangeira "Sgt Peppers Lonety Hearts", que revolucionou pela inclusão de sons das mais variadas formas, que acabou por influenciar várias capas de discos , além é claro da musicalidade.
Para quem foi um beatlemaníaco como eu , apesar de poucos saberem disso, sabe do que estou falando, ouvi os caras nos anos 80 , dez anos após o desmanchar daquele que foi o maior grupo de todos os tempos.
Indico 03 discos que são fundamentais escutarem , o já citado "Sgt Peppers Lonety Hearts", " Revolver", "The Beatles - Magical Mistery Tour", que inclusive tenho em casa com 30 folhas e me custou muita grana na época, que são temas feito para o filme de mesmo título que eles participaram.

Fui

Tito, o Frei

terça-feira, julho 03, 2007

Curta os curtas que hão de vir

Meus caros,

veja o mirante no youtube. Agora quem tiver vídeo e quiser colocá-lo basta enviar-me que colocarei lá. Há uma conta do comunapiraquara

Abraços,

Piquitito.

domingo, julho 01, 2007

História de hoje: "No escuro prometia-se o mundo".


Levantou-se preocupado, pouco depois de ter transado. Foi à cozinha, nu, abriu a geladeira e esvaziou em segundos a garrafa cheia de água mais próxima.
Precisava se livrar daquele pensamento, já que de súbito, tinha vontade de ir embora e isso o incomodava bastante, e não havia qualquer possibilidade.
A moça não merecia aquilo... Ela fazia tão caprichosamente o seu papel. Sem contar que ele não dispunha de um veículo para sair à surdina.
Mas era isso, definitivamente. Era bom enquanto durava. Infinitamente delicioso enquanto ele se entregava. Ocasião em que prometia amor eterno. No escuro tudo era permitido e possível... No escuro prometia-se o mundo.
Tentou voltar para a cama, mas o odor de vinho azedo que exalava da respiração ofegante de sua parceira o fez mudar de idéia instantaneamente. Não era o momento oportuno para se acender um cigarro (perto das três da manhã), mas era o que lhe restava: a insônia, a vontade de fumar e o maior desejo de sumir.
Deitou-se no sofá, acendeu o último cigarro do maço já meio amassado, ligou novamente o som num volume bem baixo, substituindo o Djavan das preliminares, por um Chet Baker prazerosamente melancólico e frio, deixando seus pensamentos voarem sem direção.
Não queria mais ficar sentindo isso. Sua namorada nunca percebeu. A verdade é que ela não tinha sensibilidade para tal. Seu negócio era ver o circo pegar fogo, virar para o canto e deixar o “palhaço” chorando no meio do incêndio.
Era como se sentia agora, no embalo de uma melodia cujo trompete desenhava no ar e a espalhava pelo escuro da sala, imersa num silêncio que o som do instrumento não chegava a incomodar.
Tentou recapitular tudo. Quando chegaram “chapados” em casa, ela de vinho e ele de fumo, foram tirando a roupa se beijando, se lambendo e se mordendo como dois animais e como dois animais se penetrando de várias formas, vários ângulos, os quais apenas um velho espelho testemunhava, fazendo a sua mente se lembrar com mais precisão dos reflexos do objeto, que do próprio ato em si, acontecido.
Descobriu-se apaixonado pelo “vão das pernas” dela. De onde despertava sempre um tufão, do qual estava temporariamente saturado. Mas que poderia sentir falta num futuro próximo. Era uma condição cômoda, pois tudo era permitido. Tudo o que se propunha era aceito de forma submissa; reconheceu-se também um louco por sexo. Como faria para substituí-la na cama, pois facilmente o faria em outras qualidades que esperava de uma mulher.
Ela não compartilhava com a sua música, sua filosofia, seus sonhos e enfim com a sua vida. Nem mesmo uma idéia para um fim de semana qualquer ela sugeria. Tudo partia de sua sugestão: as festas, os bares e os amigos que visitava.
Nada vinha dela, a não ser o sexo, absolutamente passivo e sem fronteiras, porém, um “dote” precioso que não encontraria facilmente em outra amante.
Sentia nisso uma lacuna enorme, pois, um dia ele pegaria suas coisas e iria embora – um peso a menos. Tentaria outra história que fosse mais a sua “cara”.
E viu que por enquanto, ficar sozinho não era bom negócio. Foi pensando nisso e tanto que, adormeceu sem notar o cigarro acabando e a brasa consumindo o filtro, no mesmo instante que o disco ia acabando, talvez na penúltima música, ainda mergulhado nos solos tresloucados do trompetista cool.
De longe, já em seus sonhos, sentiu um cheiro forte de vinho vindo, aquele mesmo cheiro “passado” de novo, só que agora muito próximo, bem molhado e quente em sua boca:

- Vem dormir na cama...
Nilson Ares, 1º de julho de 2007

São Franscisco Xavier - São José dos Campos




Uma boa opção para sair fora do barulho joseense , dar um pulinho no mirante, caminho que " Faz Monte Verde", como está escrito na placa. A imagem é deslumbrante, ainda se conseguir pegar um tempo aberto. Estive lá novamente este fim de semana, eu e o Cauê e foi muito bom.
Algumas fotos para recordar . De um duplo click para aumentá-la.

Piquitito