
Aluízio aproveita naquele mês, a vazante do Fartura e traslada para outra margem o papagaio, a bola, a peteca, o filho, a mulher e o boi. Enterra neste mesmo local, próximo a uma capoeira densa, o último exemplar, produto de sua longa pesquisa, pois já na semana seguinte, o rio sobe, e afoga consigo seu experimento e sua lancinante história.
Pilão Arcado, ribeirinha, a oeste do Fartura, arruamento precário, de terra, capela em taipa de pilão, algumas centenas de palafitas, e em uma delas, uma benzedeira que também era parteira, cinco casas de tolerância com adolescentes desesperançadas e velhas, muitos jovens sem dentes, alguns deles com próteses de ouro, e um número elevado de mortes por objetos cortantes e perfurantes, também por objetos agudos, objetos graves, crônicos, frios, inertes e reluzentes como uma faca desembainhada; vazios de sentido e de recurso, coléricos, passionais, objetos de amor, objetos inebriantes, convulsivos, que fibrilam o ventrículo esquerdo e exortam da aorta sangue desenganado, inescapáveis objetos auto-determinados, objetos escapístas, que vivem sempre às vésperas de um dia serem realmente só objetos, sem a consciência de saber sê-los, enfim, objetos triviais, que nos estão sempre à mão para qualquer eventualidade, reduziram a expectativa de vida deste lugar para a casa dos quarenta e cinco anos.
Todos eles, desde o nascimento, marcados pelo o mercúrio no sangue, ou nas costas, pelo o saco de terra e barro que carregavam na crença pia (a qual justificava a certeza de viverem ali), estarem carregando alguns gramas de ouro retirados do garimpo, já falido e ainda não sabido, um quilômetro a montante da Vila de Pilão Arcado.
Plantavam muito pouco para a subsistência, obviamente bem menos do que o necessário, e não por que a terra não era fértil, mas sim, por que se nutriam vigorosamente da expectativa do garimpo, num porvir que parecia pedaço de vento parado no ar, de uma brisa que chegou e não venta, numa esperança vã de sorrisos com brilho de ouro, sempre na espera longínqua, estática, objetiva, táctil, como uma pedra alheia de si, e reticente como um mineral a ser lavrado, no todo eram um aldeamento, nas partes um mineral, dúctil em seus significados e tenazes na falta de recurso para os mesmos.
E foi em uma das palafitas, precisamente a da benzedeira, que Aluízio nasceu e se criou dono de uma perspicácia que só dele. Era desde criança muito inventivo, fazia seus próprios brinquedos: carrinhos, barcos, vacas, patos, onças, cresceu assim. Mais velho, acompanhava a mãe pelo mato colhendo plantas e folhas para pajelança da velha. Depois, casado e com um filho, Aluízio arriscava-se também, para o sustento da família, no garimpo.
Num desses dias, de sol forte, muito mercúrio e pesados sacos de terra sobre as costas, foi que Aluízio, por um descuido toma um tombo feio, carregando um desses de quarenta quilos, lesionando gravemente a coluna vertebral e crânio. Não chega a ficar paraplégico, porém fica entrevado na cama com dores muito fortes durante quatro dias. Após algumas semanas, recupera-se da dor e já pode caminhar, mas os lapsos de memória continuam cada vez maiores e profundos, a ponto de se esquecer totalmente do nome da mulher, do filho, do próprio nome, das coisas do dia-a-dia, nomes de objetos, higiene pessoal etc.
Continua...
Texto: Alexandre Marques, o Coronel
Edição: Nilson Ares /todalettra.blogspot.com




